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Retornados e deslocados em Moçambique apontam falta de alimentos e abrigo

Retornados e deslocados em Moçambique apontam falta de alimentos e abrigo

A falta de alimentos e abrigo dominam as preocupações de deslocados e retornados em Moçambique, num período em que apenas 30% das situações reportadas através dos mecanismos humanitários tiveram resolução registada, segundo dados oficiais.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Mário Galego - RTP Antena 1

As conclusões constam de um estudo do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) relativo ao segundo trimestre deste ano, divulgado hoje, que analisou informações recolhidas entre abril e junho em dez países da África Oriental e Austral, em que Moçambique contribuiu com 4.570 interações de comunidades afetadas por deslocação forçada, correspondentes a 9,2% do total regional.

De acordo com o relatório "Regional Community Feedback Analysis", a maioria dos registos esteve relacionada com pedidos de assistência e serviços, que representaram 2.882 das interações recolhidas no país, seguindo-se os pedidos de informação, com 894 casos.

Entre as principais preocupações identificadas no estudo destacam-se a segurança alimentar e nutrição, com 748 ocorrências, o acesso a abrigo e bens não alimentares, com 741, questões ligadas a registo e documentação, com 580, e problemas relacionados com água, saneamento e higiene, com 517 casos.

"A maioria dos pedidos de assistência e serviços em Moçambique esteve relacionada com alimentação, abrigo e apoio básico", refere a análise, que identifica estas áreas como as necessidades mais frequentemente reportadas pelas comunidades.

Os dados revelam igualmente fragilidades na capacidade de resposta aos pedidos recebidos, já que apenas 30% dos casos reportados em Moçambique foram registados como resolvidos, valor muito inferior à média regional de 62%.

Segundo o documento, os diferentes mecanismos de recolha e gestão de `feedback` no país continuam a funcionar de forma "largamente autónoma", dificultando o acompanhamento dos casos e a harmonização das respostas prestadas.

O relatório recomenda, por isso, uma maior integração dos sistemas de gestão de reclamações e pedidos de apoio, bem como o reforço dos mecanismos de encaminhamento e acompanhamento para melhorar a taxa de resolução.

A análise mostra ainda que os retornados representaram o maior grupo de utilizadores dos mecanismos de `feedback` em Moçambique, com 51,6% das interações, seguidos pelos deslocados internos, responsáveis por 31,8% dos contactos registados.

A predominância de deslocados internos e retornados entre os utilizadores destes mecanismos reflete o impacto continuado da crise em Cabo Delgado, província do norte de Moçambique, afetada desde outubro de 2017 por ataques de grupos insurgentes, que provocaram mais de 1,2 milhão de deslocados e cerca de 6.600 mortos, segundo organizações internacionais, desencadeando uma prolongada crise humanitária.

As mulheres corresponderam a 61% dos utilizadores destes mecanismos no país, acima da média regional, entre as quais 21% tinham mais de 60 anos, a percentagem mais elevada entre os dez Estados abrangidos pelo estudo.

Moçambique registou igualmente o maior número de reclamações formais entre os países analisados, com 244 casos, superando os totais registados na Etiópia e no Sudão do Sul.

A nível regional, o relatório conclui que a insegurança alimentar, as dificuldades económicas e os efeitos combinados de conflitos armados e choques climáticos continuam a dominar as preocupações das comunidades afetadas por deslocações forçadas.

O documento assinala ainda que o acesso a meios de subsistência, documentação e serviços básicos permanece um dos principais desafios para refugiados, deslocados internos e retornados nos dez países analisados, apesar de alguns progressos registados nos processos de regresso e integração comunitária.

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