"Rocinha", maior favela do Rio de Janeiro, será pacificada nos próximos dias
Rio de Janeiro, 09 nov (Lusa) - A maior favela do Rio de Janeiro, Rocinha, localizada na zona oeste da cidade, com uma população estimada em cerca de 120 mil pessoas, deverá ser pacificada nos próximos dias, segundo informações da imprensa local.
Como noutras operações deste tipo - realizadas até agora em 18 comunidades do Rio de Janeiro - a Secretaria de Segurança Pública não divulga a data oficial da ocupação.
Tida como um caso "especial" por sua dimensão e pela força que os traficantes de drogas exercem na região, a Rocinha é a última das favelas localizada próxima às áreas mais nobres da cidade que ainda não recebeu uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).
Com a operação, que deverá ocorrer no fim-de-semana, a polícia pretende capturar o traficante Antonio Francisco Bonfim Lopes, conhecido como "Nem", e tido como um dos chefes da principal fação criminosa da cidade.
A polícia oferece uma recompensa de cinco mil reais (cerca de dois mil euros) para quem denunciar a localização de "Nem", que segundo informações mais recentes, ainda estará na comunidade.
Desde a manhã de hoje, polícias militares reforçaram o patrulhamento em torno do morro que abriga a favela, supostamente para evitar a fuga de criminosos, face à divulgação da ocupação iminente.
Os agentes responsáveis pelo Batalhão do Leblon, no entanto, informaram à Lusa tratar-se de um patrulhamento "normal".
"Não vou dizer que está tranquilo. O clima está tenso, porque já tivemos experiências horríveis na comunidade de incursões policiais que terminaram, sim, com a morte de alguns bandidos, mas também a atingir moradores e até crianças", declarou à Lusa Ocimar Santos, diretor da ONG "Rocinha.org".
Ocimar tem dúvidas de como ficará a comunidade após a ocupação policial, depois de tantos anos a viver sob o comando do tráfico.
"O que o morador quer é paz, quer o seu direito de poder ir e vir com tranquilidade. Teoricamente, o Estado está ocupando para melhorar. Agora, só o tempo dirá", disse, ainda desconfiado.
"Todo mundo vai se recolher, porque ninguém vai ficar na rua para pagar para ver [no momento da ocupação policial], mas por enquanto está tudo normal", afirmou a moradora Edite, que trabalha em uma loja de carnes do bairro e informou que a movimentação do comércio não havia sido afetada até ao momento.
Outros moradores preferiram não falar por se tratar de um assunto "privado".
De acordo com o último censo oficial, em 2000, viviam na comunidade aproximadamente 60 mil pessoas. A estimativa atual, feita pela Associação de Moradores, é de que já se tenham alcançado os 120 mil habitantes, o que tornaria a comunidade a maior favela da América Latina.
O bairro terá começado a ser formado com a divisão de uma antiga fazenda de café, que passou a gerar pequenas quintas, inicialmente ocupadas por emigrantes portugueses e espanhóis. Os agricultores cultivavam principalmente hortaliças, que depois comercializavam na cidade.
Quando eram questionados pelos compradores de onde vinham as verduras, eles respondiam que de uma "rocinha" na Gávea [nome de um bairro próximo], de onde surgiu o nome da comunidade.
A partir principalmente da década de 1950, o bairro passou a receber um grande número de migrantes do Nordeste do Brasil e o rápido crescimento não foi acompanhado de serviços de infraestruturas básica como rede de esgoto, luz elétrica e coleta de lixo, o que gerou a grande deterioração do local nos anos seguintes.
Segundo dados do Instituto Pereira Passos (IPP), a comunidade ocupa uma área aproximada de 877.575 metros quadrados.
A pacificação contribuirá para a segurança principalmente dos bairros de São Conrado, Gávea e Leblon, todos considerados zonas nobres do Rio de Janeiro.