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Rohingya sonham com futuro fora de arame farpado e do limbo em que sobrevivem

Rohingya sonham com futuro fora de arame farpado e do limbo em que sobrevivem

Dura tem onze anos, cresce entre arame farpado e quer ser médica para ajudar o seu povo, preso entre dois países: de um lado, genocídio, do outro uma existência suspensa no maior campo de refugiados do mundo.

Lusa /

A menina faz parte da minoria muçulmana Rohingya e vive no que é conhecido como "campo 04", parte de um aglomerado de 33 campos onde se concentra quase um milhão de pessoas na região de Cox`s Bazar, no sudeste do Bangladesh.

Fica na fronteira com Myanmar, país de maioria budista onde os Rohingya vivem há décadas num regime de `apartheid` social, sujeitos a violência frequente das autoridades e da população local.

Na sala de aula que recebe a visita de jornalistas e outros convidados do Governo bengali, as cerca de 20 meninas envergam vestidos coloridos e levantam-se em uníssono para cantar o hino do Bangladesh.

Os livros de ciências, todos abertos na mesma página, mostram ilustrações de animais que Dura e as colegas não tiveram ainda oportunidade de ver ao vivo: no seu dia a dia, a fauna é principalmente composta pelos mosquitos que povoam o ar, as galinhas que correm soltas por entre os abrigos temporários e os peixes que os pais conseguem trazer do mercado com as senhas de alimentação que recebem das agências humanitárias.

Tímida no seu vestido vermelho, cabelo penteado e brincos dourados, encolhe-se perante as câmaras dos visitantes e num inglês escorreito, confessa o sonho que alimenta.

Fora da sala de aula, passa o aparato da delegação e ficam as condições precárias, mesmo com o longo caminho feito desde 2017, quando uma campanha de extermínio do lado de Myanmar levou cerca de 700 mil pessoas, na maioria mulheres e crianças, a procurarem refúgio em torno dos campos já existentes em Cox`s Bazar.

O terreno era reserva florestal e foi ocupado indiscriminadamente, recorrendo-se ao corte de árvores para arranjar espaço para pessoas.

Hoje, pode considerar-se um "campo modelo". Com uma população a rondar as 30 mil pessoas, tem um dos sete centros de registo para Rohingya: uma estrutura com aspeto novo, sustentada por grossos pilares de bambu, onde diariamente cerca de 50 famílias vêm atualizar os seus dados, sem os quais não têm acesso aos serviços fornecidos pelas agências humanitárias e aos vales para alimentação.

Por todo o lado, cartazes avisam que o suborno e o abuso sexual de crianças nunca podem ser usados para coagir os refugiados e que estes devem denunciar qualquer caso.

No espaço a que chamam o mercado, refugiados chegam constantemente com vales na mão para resgatar os produtos alimentares a que têm direito, incluindo arroz, óleo vegetal, batatas, cebolas, limões, malaguetas e abóboras.

Ao ar livre, faz-se fila para a distribuição a cargo do Programa Alimentar Mundial: há galinhas em caixotes e peixe ainda vivo em caixas transparentes cheias de água.

Abu Kashim, que saiu de Myanmar em 2017 por ter sido, afirma, "torturado pelo Governo", carrega um pequeno saco de rede com meia dúzia de peixes. A filha, que puxa pelo pai para ir prepará-los para o almoço não tem mais de três anos e a única casa que viu foi a provisória em que vivem e onde se sustentam com 12 dólares por mês, o valor que cabe a cada pessoa dos campos de Cox`s Bazar.

Os dias de Abu são marcados pelas orações diárias do Islão e o seu desejo de futuro é resignado: "aquilo que a comunidade internacional decidir será bom para nós".

Em casos de pessoas mais vulneráveis, acrescentam-se três dólares ao valor mensal de subsistência.

Nurja Han situa a idade em "mais de 70". A cara franzina e o corpo dobrado numa cadeira de plástico à espera de trocar os vales no mercado não o desmente.

Sobreviveu a uma purga de Rohingyas mais antiga e está no Bangladesh há 20 anos, embora só se tenha registado em 2017. Não se pronuncia sobre o futuro, prefere lembrar "os dias felizes em Myanmar, quando havia terra e boas memórias".

No Campo 04, dezenas de refugiados montam bancas, às vezes só uma toalha no chão para vender aperitivos, comida, o que conseguem para ter mais algum dinheiro.

A responsável de comunicação do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), Regina de la Portilla, explica que é uma "economia informal" a que a polícia do Bangladesh fecha geralmente os olhos, mas que combate ciclicamente com rusgas em que desmonta tudo.

Os Rohingya foram recebidos no Bangladesh nas últimas décadas, mas o país de 160 milhões de habitantes não permite que trabalhem nem que se integrem de outra forma na comunidade local porque isso seria perpetuar uma situação que defendem que só poderá ser resolvida com o regresso dos Rohingya a Myanmar, o que parece fora de questão por enquanto.

Apesar de as admissões nos campos de Cox`s Bazar estarem fechadas, vagas de refugiados continuam a deixar Myanmar.

Para quem está no campo, vive-se para o dia a dia. Numa oficina do ACNUR, cerca de 150 mulheres produzem sacos a partir de juta e outros produtos. Todas vestem coletes que as distinguem como "voluntárias".

Senwara, de 26 anos, recebe 50 taka bangladeshianos (menos de 50 cêntimos de euro) por hora e faz turnos de quatro. Usa o rendimento extra para "comprar comida e roupa melhor" para o marido e para os dois filhos.

Há cinco anos que está no campo e agora conseguiu ser admitida naquela pequena fábrica, onde o ar está cheio de fibras de minúsculas fibras de juta, do som de dezenas de máquinas de coser e do cheiro das tintas que imprimem logotipos do ACNUR em sacos para serem usados no campo.

Cheira a trabalho para Madina, uma mulher de 41 anos que está em Cox`s Bazar há cinco anos e que vive com três filhas e dois filhos.

"Não tenho marido", adianta sem acrescentar mais, assegurando que a atividade a faz viver "melhor do que outras mulheres na comunidade em que não há homens na família".

Pela intérprete, admite que se sente mais segura na companhia das outras voluntárias, que são uma minoria tão irrisória no universo de mulheres no campo que a trabalhadora do ACNUR nem consegue calcular que percentagem representa no universo dos campos.

No regresso a casa, Madina passa pelos caminhos sinuosos que se estendem pelo terreno irregular do campo, cruzando-se com homens que carregam sacos de arroz por entre o verde das árvores e o "azul ONU" das lonas que cobrem os telhados das casas.

A caravana dos visitantes passa pelas fontes onde os mais novos se refrescam e brincam como quaisquer miúdos, correndo contentes atrás uns dos outros. Passa pelos poços de água potável rodeados de latrinas e passa por um rapaz que traz na t-shirt "I love Cox`s Bazar".

Ao aproximar-se dos carros parados da caravana dos visitantes, o rapaz sorri. Aproveita a oportunidade e com uma cara mais séria aproxima-se da janela e pede: "money!".

O sol vai-se pondo em Cox`s Bazar, onde se situa a praia de areia mais extensa do mundo e pelos altifalantes do campo soa o "azan", a chamada para a oração.

Sai-se dos portões guardados e da vedação delimitada com torres de vigia e rolos de arame farpado e entra-se no caos do trânsito até à cidade. A internet, cortada pelas autoridades do Bangladesh no perímetro dos campos por "razões de segurança" volta a funcionar.

Quase um milhão de pessoas pode ter evitado a morte conseguindo atravessar a fronteira, mas para o sobrecarregado país que os acolheu, o único caminho é o de volta.

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