Rússia. Comunistas apoiam proposta para mencionar Deus na Constituição

No próximo dia 22 de abril deverá ser votada a nível nacional, na Rússia, a proposta de incluir referências a Deus na Constituição desse país. A ideia, que partiu do patriarca de Moscovo e está a ser discutida por um grupo de trabalho, foi agora apoiada pelo Partido Comunista da Federação Russa.

RTP /
O líder do Partido Comunista da Federação Russa afirmou que o comunismo é derivado do cristianismo Foto: Sergei Karpukhin - Reuters

No início de fevereiro, o patriarca de Moscovo, Cirilo I, sugeriu que a Constituição passasse a incluir referências a Deus por considerar que o povo da Rússia acredita que é Deus quem está na base desse documento.

A ideia obteve rapidamente o apoio do Governo russo, que pediu ao grupo de trabalho responsável por emendas constitucionais para avaliá-la e chegar a uma conclusão sólida sobre o tema.

“Os membros desta comissão são diversos, expressam diferentes pontos de vista e avançam com várias propostas, portanto esta [sobre referências a Deus] também vai ser discutida”, explicou Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin.

Na mais recente discussão do grupo de trabalho, o líder do Partido Comunista da Federação Russa, Gennady Zyuganov, suscitou surpresa entre os restantes membros ao apoiar a ideia do patriarca de Moscovo e ao afirmar que o comunismo é derivado do cristianismo.

“Quando estudei a Bíblia, no evangelho do apóstolo Paulo estava presente o principal ideal do comunismo: quem não trabalha não come”, explicou o líder partidário, citado pela estação russa RT. “Na verdade, o código moral de um construtor do comunismo está, de muitas formas, integrado na Bíblia”. Esta não é a primeira vez que Zyuganov se mostrou a favor da religião cristã, tendo previamente considerado Jesus Cristo o primeiro comunista do mundo.

A sua posição gera polémica, uma vez que os membros e apoiantes do partido que lidera foram, em tempos, conhecidos como “comunistas sem Deus”, tendo chegado a promover o ateísmo estatal.

Antes do estabelecimento da União Soviética, a Rússia era um país profundamente religioso. Na era soviética, porém, os líderes revolucionários adotaram uma política ateísta e o Partido Comunista foi responsável pela repressão de cristãos e pela eliminação de centenas de membros do clero.

O colapso da União Soviética levou a uma restauração da fé no país e muitos antigos comunistas decidiram voltar-se para o cristianismo.
Apoio de Putin
Apesar do apoio de Zyuganov, ainda não está confirmado que as referências a Deus na Constituição sejam aprovadas. O grupo de trabalho continuará a debater o assunto e prevê-se que, a 22 de abril deste ano – data que assinala o 150.º aniversário do comunista Lenin –, seja realizada uma votação nacional para confirmar a decisão final.

O presidente russo, Vladimir Putin, tem apoiado ativamente a Igreja Ortodoxa Russa num aparente esforço para cristianizar o país. Várias igrejas têm estado a ser construídas por toda a Rússia e o Kremlin parece ter vindo a beneficiar dessa relação, que é apoiada pela maioria do povo.

Putin tinha já anunciado, em meados de janeiro, outras propostas de alteração da Constituição russa, entre as quais a redução da presidência a dois mandatos e a expansão do papel da legislatura. O grupo de trabalho tem estado a rever também estas propostas.
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