Rússia e UE trocam acusações por causa da Ucrânia

O presidente russo exigiu que os líderes europeus deixem de fazer “comentários cáusticos” sobre a situação na Ucrânia e considerou que um acordo de associação entre Kiev e a UE teria sido uma “alta traição” para a Economia russa. Putin falava horas depois de o primeiro-ministro ucraniano ter admitido que foi Moscovo a travar a assinatura do acordo com a União Europeia, prevista para o final deste mês. O inesperado volte-face do governo ucraniano levou dezenas de milhares de pessoas às ruas da capital em protesto contra o primeiro-ministro e contra o presidente Ianukovitch.

RTP /
Marian Striltsiv, Reuters

Vladimir Putin, que participava numa conferência de imprensa com o primeiro-ministro italiano em Trieste, disse que um acordo de associação entre a Ucrânia e os 28 iria inundar a Rússia com produtos vindos da União Europeia.

“Será que devíamos consentir em estrangular setores inteiros da nossa economia só para lhes dar prazer?”.
Putin nega ter usado a arma do gás natural
O líder russo negou também que Moscovo tenha acenado com uma renegociação do dispendioso contrato de fornecimento de gás natural russo à Ucrânia, num esforço para persuadir Kiev a não assinar o acordo comercial com a União.

“A Gazprom [petrolífera estatal russa] e a Naftogaz [a equivalente ucraniana] têm um contrato que, ao que julgo, está em vigor até 2019 e não discutimos qualquer revisão desse contrato”, afirmou.

Pela sua parte, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros expressou a sua “perplexidade e deceção” com as declarações feitas nos últimos dias por líderes e políticos europeus , sobre as pressões da Rússia à Ucrânia, acusando-os de querer “ enfiar à Rússia a carapuça” dos comportamentos que a própria União Europeia tem vindo a assumir.
PM admite mão da Rússia na decisão do governo
Com os protestos em Kiev a entrarem no terceiro dia e sem fim a vista, o primeiro-ministro Mikola Azarov admitiu, pela primeira vez, aos jornalistas estrangeiros, o papel decisivo das pressões do Kremlin sobre o governo ucraniano.

“Foi-nos dito claramente [por Moscovo]: Estamos prontos a examinar convosco e com a UE todos os problemas, mas vocês têm de adiar a assinatura do acordo. Nós discutimos, pomo-nos de acordo, e depois vocês assinam”, disse Azarov.

O tom de recriminações entre a Rússia e a União Europeia tem vindo a subir desde o adiamento da assinatura do longamente aguardado acordo, anunciado por Kiev na semana passada.

O documento devia ter sido assinado durante a cimeira da parceria oriental da UE, que se realiza quinta e sexta-feira em Vilnius, capital da Lituânia.
Líderes europeus querem lançar advertência à Rússia
O Kremlin vê com maus olhos o crescer da influência ocidental numa região que encara como sendo da sua esfera de influencia. Moscovo tem vindo a pressionar duramente a Ucrânia e outros Estados vizinhos, no sentido de não se aproximarem da UE e de integrarem, em vez disso, o acordo de comércio livre com a Rússia e outras antigas repúblicas soviéticas.

Os líderes europeus ficaram indignados com o recuo da Ucrânia que deitou por terra anos de esforços diplomáticos. Segundo o jornal polaco Gazeta Wyborcza, decidiram aprovar durante a reunião de Vilnius uma declaração que visa advertir a Rússia contra ingerências na política interna dos seus vizinhos.
"Ucrânia não quer ser campo de batalha entre a Rússia e a UE", diz Azarov
O primeiro-ministro ucraniano diz que o seu país não quer ser “o campo de batalha entre a Rússia e a UE”. Azarov criticou a União Europeia e o FMI que, segundo ele, não têm uma noção real dos problemas económicos da Ucrânia e não ofereceram o apoio necessário para viabilizar um acordo.

Embora “nada de preciso” tenha sido acordado com a Rússia, sobre compensações económicas, créditos, ou reduções do preço do fornecimento do gás natural, o chefe do governo ucraniano disse que as negociações com Moscovo serão retomadas em dezembro, com vista “ao restabelecimento de relações comerciais e económicas normais” entre os dois países.

Confrontado com os maiores protestos no centro da capital desde a “Revolução Laranja”, o presidente ucraniano Viktor Ianukovitch falou segunda-feira ao país para explicar a decisão de suspender as negociações com a UE.
Presidente Ianukovitch quer ir explicar-se a Vilnius
Ianukovitch afirmou ter tomado “uma decisão difícil” para defender os interesses dos ucranianos menos favorecidos. Já esta terça-feira, numa entrevista a várias televisões nacionais, revelou que tenciona deslocar-se pessoalmente à cimeira de Vilnius, para apresentar aos líderes europeus as suas razões para o volte-face.

Já os opositores do presidente dizem que as demoradas negociações com a UE nunca foram mais do que um estratagema, para servir de moeda de troca nas negociações com a Rússia e extrair a Moscovo maiores concessões.
Iulia Timoshenko em greve de fome
A mais feroz opositora do presidente, Iulia Timoshenko, que se encontra a cumprir uma pena de sete anos de prisão por alegado abuso de poder quando era primeira-ministra, anunciou ontem que iniciava uma greve de fome, em solidariedade com os manifestantes “para exigir que Ianukovitch assine o livre-acordo de associação com a UE.

A libertação de Timoshenko era uma das contrapartidas que a União Europeia exigia para a assinatura do acordo de livre associação com a Ucrãnia, mas o tópico depresa passou para segundo plano face à ofensiva diplomática russa dos últimos dias, que acabaria por levar Kiev a desistir de assinar o documento.

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