Rússia. Exército de informáticos para espalhar desinformação

Uma investigação financiada pelo governo do Reino Unido identificou uma antiga fábrica em São Petersburgo transformada numa "quinta de trolls" cibernéticos ao serviço do Kremlin para espalhar desinformação e atingir críticos do regime, incluindo diversos líderes mundiais. A rede social TikTok é um dos panos de fundo desta força que visa desencadear a dúvida e corroer a confiança dos media.

Carla Quirino - RTP /
Dado Ruvic/Illustração - Reuters

A figura troll é conhecida, originalmente, por ser uma criatura antropomórfica da mitologia escandinava. Mas no universo digital os trolls tomam forma de informáticos que distorcem a informação, desvirtuando discursos e construindo outros para espalhar a dúvida. O trollismo é considerado uma violação deliberada das regras implícitas de convivência social da internet.

Uma "quinta de trolls" ou "fábrica de trolls" é um grupo institucionalizado de cibernéticos que "procura interferir nas opiniões políticas e na tomada de decisões", de acordo com o The Guardian.

Nos últimos cinco anos foram identificados vários movimentos associados a 30 governos que recorrem a "exércitos de teclado" para espalhar propaganda e atacar vozes discordantes.  Entre muitas ações, os investigadores descobriram que, desde 2015, usuários russos constituíam contas falsas nas redes sociais e faziam-se passar por ativistas americanos para ajudar cidadãos.

No domingo, 1 de maio, foi relevado um relatório, encomendado pelo governo britânico, que afirma que "o Kremlin está a divulgar mentiras nas redes sociais e reutiliza comentários de sites com grande audiência". Os autores da investigação não foram identificados por razões de segurança.
Trollagem como modus operandi
Darren Linvill um investigador norte americano da Universidade Clemson, na Carolina do Sul identificou partilhas de publicações em contas falsas que "permitem verificação de fatos que amplificam a desinformação ao vincular plataformas como Instagram, TikTok e Telegram como táticas atuais do IRA – Agência de Investigação da Internet , associada ao Kremlin - que agora acredita-se estar a operar em diferentes locais".

Os trolls russos estão a ganhar terreno nomeadamente nas redes sociais TikTok e Telegram que favorecem um "impulso incrível" à desinformação destinada a semear dúvidas sobre a guerra na Ucrânia.

No domingo, o governo do Reino Unido afirmou ter identificado uma antiga fábrica em São Petersburgo como uma nova base para operações de trollagem, onde "soldados cibernéticos estão a atacar impiedosamente políticos e públicos em vários países, incluindo Reino Unido, África do Sul e Índia".

O Gabinete de Relações Exteriores, Commonwealth e Desenvolvimento citou uma investigação financiada pelo governo (não publicada), onde revela que alegados funcionários pagos pela Rússia estão "a usar o Telegram para recrutar e coordenar ativamente novos apoiantes que, em seguida, visam os perfis de media social dos críticos do Kremlin – enviando spam para eles com comentários pró-Putin e pró-guerra".

Linvill observou que essa estratégia era "altamente consistente com o que vimos o IRA fazer anteriormente, dada a forma como entende o poder da autenticidade".

Entre vários alvos estavam as contas de media social de Boris Johnson, bem como contas de bandas e músicos, incluindo Daft Punk, David Guetta e Tiësto. O investigador sublinhou que a operação russa estava a procurar "conteúdo orgânico" publicado por usuários genuínos consistentes com os discursos (supostamente favoráveis com a ideologia do IRA). Em seguida, reutilizavam-nas para amplificar essas mensagens”.

"Isso significa que, desde que o conteúdo que eles partilhem não seja muito ofensivo, é improvável que eles estejam sujeitos a intervenções dirigidas a retirar publicações da plataforma", disse um dos funcionários financiado pela Rússia.

Liz Truss, a secretária de Relações Exteriores britânica, declarou que: "Não podemos permitir que o Kremlin e os seus obscuros exércitos de trolls invadam os nossos espaços online com as suas mentiras sobre a guerra ilegal de Putin. O governo do Reino Unido alertou os parceiros internacionais e continuará a trabalhar em estreita colaboração com aliados e plataformas de media para minar as operações de informação russas".

"O IRA tem uma longa história de tirar vantagem de vozes legítimas", acrescentou Linvill, que sublinha que a replicação de comentários de contas legítimas retirada do contexto, não é uma estratégia nova para promover a desinformação. Um troll que publique comentários numa conta com um grande número de seguidores é um benefício que retiram para fazer circular um conteúdo.

Para o investigador norte-americano, o principal objetivo da trollagem parecia ter o foco na opinião pública russa, pois a publicações eram escritas em língua russa. O governo do Reino Unido acrescenta que a última pesquisa aponta para que a operação de Moscovo foi "projetada para manipular a opinião pública internacional” a favor de campanha militar na Ucrânia.

O TikTok e o Twitter já suspenderam dezenas de contas por considerarem que estão vinculadas ao IRA.

Linvill acredita que o impacto do TikTok foi particularmente surpreendente, com algumas contas contendo centenas de milhares de seguidores. "Os troll russos foram muito, muito eficazes. Conseguiram uma quantidade incrível de tração no espaço nacionalista russo", refletiu.
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