Mundo
Sanders dá luta até ao fim, Clinton é pressionada à esquerda
Bernie Sanders continua atrás de Hilary Cinton na corrida à investidura democrata, mas também continua a reduzir a diferença. Agora ganhou as eleições no Estado da Virgínia Ocidental.
Um primeiro comentário publicado no diário New York Times refere que a vitória na Virgínia Ocidental, a juntar-se a outra recente em Indiana, continua a não tornar provável um cenário em que Sanders conseguisse inverter a relação de forças e chegar à Convenção democrata de Filadélfia, em Julho próximo, com mais votos da base partidária do que Clinton.
A guerra em duas frentes
Mas tem um outro efeito prático, esse sim, palpável e relevante: obriga Clinton a manter uma "guerra em duas frentes", polemizando contra o mesmo Sanders e também fazendo concessões ao seu discurso, em que alguns vêem já uma mimetização com temas da esquerda.
A outra frente, contra o entretanto já ganhador da investidura republicana, Donald Trump, continua a ser a de uma guerra em lume brando. Por isso se multiplicam as vozes no campo democrata, a pedirem uma desistência de Sanders que permita a Clinton concentrar o fogo sobre Trump.
A isto contrapõe Bernie Sanders que a atractividade da sua candidatura no país é superior à de Clinton. Mesmo se esta se mantém à sua frente na luta pelo favor dos delegados democratas, o eleitorado poderia preferir alguém com imagem menos comum, como é o seu caso.
Na campanha pelo Estado do Oregon, que votará na próxima semana, Sanders reiterou este argumento, que continua a ser o seu grande trunfo contra os que lhe pedem a desistência: "Se se olhar para o último mês ou as últimas seis semanas, em todas as sondagens nacionais Bernie Sanders derrota Donald Trump por grande diferença".
A debilidade de Clinton perante a candidatura de Trump, que as sondagens relativas ao Ohio e à Pennsylvania têm posto em relevo, vem entretanto dar alguma força à pretensão de Sanders, de se apresentar como o candidato democrata mais bem colocado contra o mais que certo ganhador da investidura republicana.
O declínio do carvão e a ascensão de Trump
Naqueles dois Estados, e em toda a região dos Apalaches, a relativa impopularidade de Clinton tem que ver com o declínio da indústria mineira do carvão, que perdeu grande parte dos seus postos de trabalho à medida que a actividade ia sendo mecanizada, o gás ia substituindo o carvão e a legislação ambiental ia tornando menos rentável a mineração carvoeira.
Este declínio corresponde, por certo, aos dois mandatos de George W. Bush, mas também a duas administrações democratas com as quais está fortemente identificado o nome de Hilary Clinton: a de Bill Clinton, e a de Barack Obama, às quais é atribuída uma "guerra contra o carvão".
Acontece que Clinton reiterou, num discurso de Março, a sua intenção de promover políticas ambientais que "retirem de actividade uma quantidade de mineiros de carvão e de companhias de carvão". E, naturalmente, a citação desse discurso tem-na perseguido como uma sombra fatídica em toda a sua campanha na região.
Bernie Sanders é ainda mais radical do que Clinton nas suas propostas ambientalistas, mas não tem sido tão penalizado pelo eleitorado - algo que as análises publicadas no New York Times atribuem mais a factores demográficos do que a qualquer nuance política relevante para o caso. Nesta região, Trump parece, contudo, em condições de batê-los a ambos, porque tem agitado incansavelmente contra o desmantelamento da indústria carvoeira.
Política de saúde: colagem de Clinton a Sanders
Num outro aspecto, as políticas de Clinton e Sanders apresentam efectivas divergências na grelha de partida, que agora parecem esbater-se devido à tal mimetização de Clinton com os temas que têm valido a Sanders tantos e tão inesperados sucessos eleitorais.
Trata-se da política de saúde. Tem estado em discussão o que fazer com o sistema de saúde pago pelo Estado - "Medicare" - para os norte-americanos acima dos 65 anos. Bernie Sanders tem avançado a proposta de abolir esse limite de idade e de estender a "Medicare" a todos.
Clinton tem rejeitado até aqui a proposta mais ambiciosa de Sanders, mas tem dado mostras de reconhecer a necessidade de um sistema de saúde de financiamento público mais alargado do que o existente até aqui. Agora, pressionada pelos êxitos eleitorais do rival, passou a propor, de forma algo salomónica, uma "Medicare" alargada a pessoas de 50 ou 55 anos que optem por quotizar para esse sistema.
A ideia de um alargamento opcional já fora defendida em 1998 pelo marido de Hilary, o então presidente Bill Clinton. Mas ela própria mantinha-se prudentemente à distância dessa ideia. Entretanto, passou a defendê-lo e passou mesmo a admitir uma inclusão opcional de trabalhadores mais jovens.
Mesmo assim, Sanders considerou insuficiente a "viragem à esquerda" de Clinton no tema da saúde, dizendo: "A proposta da secretária [de Estado] Clinton, de deixar os americanos inscreverem-se na Medicare é um passo na direcção certa, mas, tal como o seu apoio a um salário mínimo de 12 dólares, não é suficiente". E contrapôs à sua política de "Medicare para todos" aquilo que considera ser a política clintoniana de "Medicare para alguns".
A guerra em duas frentes
Mas tem um outro efeito prático, esse sim, palpável e relevante: obriga Clinton a manter uma "guerra em duas frentes", polemizando contra o mesmo Sanders e também fazendo concessões ao seu discurso, em que alguns vêem já uma mimetização com temas da esquerda.
A outra frente, contra o entretanto já ganhador da investidura republicana, Donald Trump, continua a ser a de uma guerra em lume brando. Por isso se multiplicam as vozes no campo democrata, a pedirem uma desistência de Sanders que permita a Clinton concentrar o fogo sobre Trump.
A isto contrapõe Bernie Sanders que a atractividade da sua candidatura no país é superior à de Clinton. Mesmo se esta se mantém à sua frente na luta pelo favor dos delegados democratas, o eleitorado poderia preferir alguém com imagem menos comum, como é o seu caso.
Na campanha pelo Estado do Oregon, que votará na próxima semana, Sanders reiterou este argumento, que continua a ser o seu grande trunfo contra os que lhe pedem a desistência: "Se se olhar para o último mês ou as últimas seis semanas, em todas as sondagens nacionais Bernie Sanders derrota Donald Trump por grande diferença".
A debilidade de Clinton perante a candidatura de Trump, que as sondagens relativas ao Ohio e à Pennsylvania têm posto em relevo, vem entretanto dar alguma força à pretensão de Sanders, de se apresentar como o candidato democrata mais bem colocado contra o mais que certo ganhador da investidura republicana.
O declínio do carvão e a ascensão de Trump
Naqueles dois Estados, e em toda a região dos Apalaches, a relativa impopularidade de Clinton tem que ver com o declínio da indústria mineira do carvão, que perdeu grande parte dos seus postos de trabalho à medida que a actividade ia sendo mecanizada, o gás ia substituindo o carvão e a legislação ambiental ia tornando menos rentável a mineração carvoeira.
Este declínio corresponde, por certo, aos dois mandatos de George W. Bush, mas também a duas administrações democratas com as quais está fortemente identificado o nome de Hilary Clinton: a de Bill Clinton, e a de Barack Obama, às quais é atribuída uma "guerra contra o carvão".
Acontece que Clinton reiterou, num discurso de Março, a sua intenção de promover políticas ambientais que "retirem de actividade uma quantidade de mineiros de carvão e de companhias de carvão". E, naturalmente, a citação desse discurso tem-na perseguido como uma sombra fatídica em toda a sua campanha na região.
Bernie Sanders é ainda mais radical do que Clinton nas suas propostas ambientalistas, mas não tem sido tão penalizado pelo eleitorado - algo que as análises publicadas no New York Times atribuem mais a factores demográficos do que a qualquer nuance política relevante para o caso. Nesta região, Trump parece, contudo, em condições de batê-los a ambos, porque tem agitado incansavelmente contra o desmantelamento da indústria carvoeira.
Política de saúde: colagem de Clinton a Sanders
Num outro aspecto, as políticas de Clinton e Sanders apresentam efectivas divergências na grelha de partida, que agora parecem esbater-se devido à tal mimetização de Clinton com os temas que têm valido a Sanders tantos e tão inesperados sucessos eleitorais.
Trata-se da política de saúde. Tem estado em discussão o que fazer com o sistema de saúde pago pelo Estado - "Medicare" - para os norte-americanos acima dos 65 anos. Bernie Sanders tem avançado a proposta de abolir esse limite de idade e de estender a "Medicare" a todos.
Clinton tem rejeitado até aqui a proposta mais ambiciosa de Sanders, mas tem dado mostras de reconhecer a necessidade de um sistema de saúde de financiamento público mais alargado do que o existente até aqui. Agora, pressionada pelos êxitos eleitorais do rival, passou a propor, de forma algo salomónica, uma "Medicare" alargada a pessoas de 50 ou 55 anos que optem por quotizar para esse sistema.
A ideia de um alargamento opcional já fora defendida em 1998 pelo marido de Hilary, o então presidente Bill Clinton. Mas ela própria mantinha-se prudentemente à distância dessa ideia. Entretanto, passou a defendê-lo e passou mesmo a admitir uma inclusão opcional de trabalhadores mais jovens.
Mesmo assim, Sanders considerou insuficiente a "viragem à esquerda" de Clinton no tema da saúde, dizendo: "A proposta da secretária [de Estado] Clinton, de deixar os americanos inscreverem-se na Medicare é um passo na direcção certa, mas, tal como o seu apoio a um salário mínimo de 12 dólares, não é suficiente". E contrapôs à sua política de "Medicare para todos" aquilo que considera ser a política clintoniana de "Medicare para alguns".