Se Bolsonaro vencer Yanomami ficam em risco
O líder indígena brasileiro Davi Kopenawa alertou, em entrevista à Lusa, para os riscos que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro nas presidenciais representa para o povo Yanomami, a Amazónia e a proteção dos territórios indígenas.
"Eu vou continuar na luta contra Bolsonaro", afirmou Kopenawa, que se encontra pela primeira vez em Portugal para dar a conhecer a situação do seu povo e mobilizar apoio internacional para a defesa da floresta e das comunidades indígenas.
"Trouxe o nome do meu povo Yanomami, aqui a Portugal, porque nós estamos muito, muito revoltados. Flávio Bolsonaro, está falando muita mentira, enganando o povo da cidade. Ele só quer destruir, ameaçar a floresta, ameaçar o rio, botar garimpo ilegal", acusou.
Com a mira na segunda volta das eleições presidenciais brasileiras marcada para 25 de outubro, e a disputa entre o atual Presidente, Lula da Silva, e Flávio Bolsonaro, filho do antigo chefe de Estado Jair Bolsonaro, o líder Yanomami teme uma mudança de Governo, referindo-se ao candidato da direita como um homem "doente".
"Tem um homem doente na direita. Nós somos da esquerda, não estamos juntos. Ele é um homem doente", afirmou.
As preocupações do xamã, escritor e porta-voz dos Yanomami, resultam da experiência vivida durante o Governo de Jair Bolsonaro, período marcado pela destruição ambiental e pelo sofrimento das comunidades indígenas devido à presença de garimpeiros.
Entre 2020 e 2022, funcionaram na área mais de 1.500 pontos de mineração ilegal, responsáveis pela devastação de 2.200 hectares. Os dados da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) apontavam para a presença de cerca de 20 mil garimpeiros no território.
Em 2023, a invasão garimpeira tinha comprometido gravemente a assistência médica no território Yanomami. Segundo um relatório do Ministério Público Federal (MPF), pelo menos seis postos de saúde foram destruídos ou encerrados, deixando mais de quatro mil indígenas de 72 comunidades sem assistência. A falta de medicamentos deixou também, pelos dados estimados pelo MPF, mais de dez mil crianças sem tratamento contra verminoses.
Em janeiro de 2023, o Governo de Lula declarou emergência sanitária perante o colapso da saúde Yanomami.
"Ficamos amigos com Lula", afirmou, apontando as melhorias na saúde e nas condições de vida do povo Yanomami durante o atual mandato, mas temendo que esses avanços sejam comprometidos se o atual Presidente perder as eleições.
"Se ele ficar fora, vai ter muita doença, vai faltar medicamento, vai faltar equipa profissional de trabalho de saúde. É por isso que nós estamos muito preocupados",justificou.
Kopenawa reconheceu que a luta pela sobrevivência do seu povo terá de continuar independentemente do resultado eleitoral, garantindo que pretende prosseguir a mobilização internacional.
"Sou guerreiro do meu povo Yanomami, levantei de novo para poder enfrentar Flávio Bolsonaro" afirmou, pedindo aos portugueses e ao mundo que o acompanhem e se mobilizem para "reclamar" contra o candidato.
Para o líder Yanomami, a defesa da Amazónia ultrapassa os interesses das comunidades que nela vivem. A floresta, a água e a terra são fundamentais para a sobrevivência de todos, numa relação com a natureza que considera ameaçada pela procura de riqueza e pela exploração dos recursos naturais.
"Eu não quero deixar morrer o meu povo Yanomami", declarou, reiterando que continuará a lutar pela sobrevivência das comunidades e pela preservação da floresta amazónica.
E em jeito de profecia, tal como no livro "A Queda do Céu", título que sintetiza o maior medo e a maior missão dos xamãs yanomami, e que dá mote para a conversa deste domingo, no Festival Literário Internacional de Óbidos ( FOLIO), David Kopenawa deixa no ar a desafronta da Mãe-Terra.
"Se Flávio Bolsonaro ganhar e a doença matar todos nós, a nossa mãe terra vai-se vingar contra o Presidente Bolsonaro", conclui.