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Secessão em vez de invasão? Rússia poderia reconhecer independência de Donbass
O parlamento russo aprovou por larga maioria uma resolução proposta pelos comunistas no sentido de a Rússia reconhecer as repúblicas de Donetsk e Lugansk, formalizando assim a sua separação da Ucrânia. O Governo de Kiev comentou que, ao fazê-lo, a Rússia estaria a cancelar quaisquer perspectivas de uma solução diplomática para o conflito.
A Duma russa aprovou hoje a moção proposta pelo grupo parlamentar comunista com 351 votos a favor e apenas 16 deputados a votarem contra e um a abster-se, refere a estação Russia Today. A moção consiste num apelo ao poder executivo para que reconheça a independência das regiões de Donetsk e Lugansk, situadas na Ucrânia oriental e palco, até agora, de uma guerra de desgaste entre o Exército ucraniano e as milícias separatistas locais apoiadas por Moscovo.
A iniciativa diplomática proposta pelo parlamento, a ser adoptada pelo Kremlin, criaria um novo cenário, desmentindo parcialmente as previsões ocidentais de uma iminente invasão da Ucrânia, mas confirmando-as também parcialmente, no sentido em que seria mais um passo para o desmembramento do país.
Se o passo anterior - separação da Crimeia - evoluiu no sentido de uma anexação russa, o formato da solução adoptada pelo Kremlin para o Donbass apresentaria algumas diferenças e é duvidoso que apontasse exactamente no mesmo sentido. Mas, globalmente, não deixaria de criar um ou dois Estados-satélites da Rússia, em antigos territórios ucranianos, com uma forte componente demográfica de origem russa.
O ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, Dmitry Kuleba, reagiu imediatamente à votação parlamentar russa afirmando que o reconhecimento das duas repúblicas significaria a renúncia a longo prazo por parte de Moscovo a encontrar para a região alguma fórmula política de consenso: "Se a decisão for tomada ... a Rússia estará de facto e de jure a retirar-se dos acordos de Minsk, com todas as consequências daí resultantes". Os acordos de Minsk, assinados entre Moscovo e Kiev em 2014 e 2015, previam uma reforma constitucional na Ucrânia que concedesse autonomia às repúblicas de Donetsk e Lugansk no quadro de uma federação ucraniana. Não chegaram nunca a concretizar-se e poderão agora ser cancelados antes de verdadeiramente terem entrado em vigor.
Um dos deputados promotores da moção, Kazbek Taisaev, afirmou que o povo russo estaria preparado para enfrentar as sanções que essa iniciativa diplomática viesse a desencadear por parte das potências ocidentais e foi avançando que os custos daí resultantes poderiam ser cobertos por uma renúncia dos trabalhadores russos ao salário do 13º mês: "Tenho a certeza de que o povo da Rússia apoia inteiramente o nosso decreto e está disposto a dar por elem mais do que apenas um salário de 13º mês".