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Segredo máximo. Nos bastidores do ataque que abateu al-Zawahiri
O ataque que matou Ayman al-Zawahiri levou meses a planear e envolveu o máximo segredo. Apenas o presidente norte-americano, Joe Biden, e alguns dos seus conselheiros mais próximos estavam ao corrente.
Os preparativos incluíram uma maquete da casa em Cabul onde morava o líder da al-Qaida, construída por membros dos serviços de informação e colocada no Situation Room na Casa Branca, para Biden examinar enquanto avaliava opções.
Os detalhes do ataque e do planeamento foram divulgados somente quando Joe Biden se preparava para anunciar o sucesso da missão, segunda-feira. As deliberações finais e a ordem de ataque foram dadas quando o presidente estava isolado após ter contraído Covid-19 e o anúncio da morte de al-Zawahiri marcou o regresso de Biden às lides públicas.
“As pessoas do mundo inteiro já não precisam recear o assassino determinado e perverso”, anunciou Biden na varanda da sala Azul da Casa Branca. “Os Estados Unidos continuam a demonstrar a nossa determinação e a nossa capacidade em defender o povo americano contra queles que pretendem fazer-nos mal”.
Abater o líder da al-Qaida que substituiu Bin Laden, não deverá contudo limpar a má imagem deixada pela retirada militar precipitada dos Estados Unidos do Afeganistão, há um ano.
Meses de estudo e de avaliação
Joe Biden foi informado em abril do paradeiro de Zawahiri numa casa segura em Cabul. Os serviços de informação norte-americanos sabiam há meses da existência de uma rede de apoio ao líder da al-Qaida na capital afegã e tinham identificado a sua mulher, filha e os netos desta por diversas vezes.
As mulheres utilizavam táticas “terroristas” para tentar despistar eventuais seguidores, de forma a manter secreta a localização da casa segura onde se escondia Zawahiri, desde a sua chegada a Cabul este ano.
À medida que os meses passavam, os peritos norte-americanos em informações começaram a estabelecer padrões na residência, incluindo a presença do líder da al-Qaida na varanda da casa por períodos prolongados. Os preparativos para o ataque incluíram o estudo da estrutura e dos materiais de construção da casa, de forma a garantir a integridade do edifício. Também foram identificados todos os ocupantes, para garantir que não haveria vítimas colaterais.
A localização da casa, numa zona residencial no centro de Cabul era outro desafio. As informações tinham de ser “sólidas” antes de qualquer opção ser apresentada ao presidente.
E tinha de se garantir que não havia fugas de informação, pelo que “apenas um grupo muito pequeno e seleto” em algumas agências-chave estava ao corrente do que estava a ser planeado.
Joe Biden estava ainda preocupado com o impacto do ataque contra Zawahiri nos esforços para repatriar Mark Frerichs, um cidadão norte-americano feito refém no Afeganistão há mais de dois anos. Pressionou igualmente os seus adidos a mitigar riscos igualmente para as tentativas correntes de resgatar afegãos que auxiliaram norte-americanos durante a guerra.
À CNN, um alto responsável da Administração Biden revelou que “afirmamos aos taliban que continuamos a considera-los responsáveis pelas suas ações. E fomos claros que esperamos que não haja quaisquer retaliações contra Mark Frerichs, e que continuamos a esforçar-nos para conseguir a sua libertação depois de uma detenção e cativeiro tão longos”.
Passos finais
À medida que passavam maio e junho, Biden mantinha-se a par dos desenvolvimentos. Dia 1 de julho reuniu os principais responsáveis da Casa Braca no Situation Room para receber as últimas informações sobre a operação. À mesa sentaram-se o diretor da CIA, Bill Burns, a diretora dos Serviços de Informação nacional, Avril Haines, o conselheiro para a Segurança Nacional, Jake Sullivan e o seu vice, Jon Finer, assim com a conselheira Liz Sherwood Randal.
O presidente fez perguntas “detalhadas” sobre “o que sabíamos e como o sabíamos”, comprovando que estava a par de todos os pormenores, referiram à CNN fontes presentes na ocasião.
Biden quis saber qual a exposição solar da casa, os materiais de construção e se as condições atmosféricas iriam condicionar a operação. Também quis saber sobre as plantas do edifício e como poderia este ser afetado por um ataque.
O presidente voou para Camp David, nessa mesma tarde, deixando a sua equipa para trás para prosseguirem as suas reuniões no Situation Room nas semanas seguintes para concluir os planos e garantir que tudo corria de acordo com os desejos do presidente de forma a prevenir todas as contingências para minimizar os riscos.
Ao mesmo tempo, a equipa de advogados da Casa Branca preparava as bases legais da operação, estudando todas as informações relacionadas com al-Zawahiri.
A 15 de julho, já a cumprir isolamento na Casa Branca devido à Covid-19, o presidente voltou a chamar a equipa para um relatório final, voltando a exigir opções que minimizassem a possibilidade de vítimas civis, e colocando questões sobre as divisões por trás das janelas e das portas no terceiro andar do edifício.
Pediu igualmente a opinião de cada um dos presentes sobre a operação.
Finalmente, Joe Biden autorizou um “ataque aéreo de alta precisão” para abater o alvo.
Cinco dias depois, dois míddeis Hellfire foram disparados contra a varanda da casa-segura, pelas 06h18, hora local, depois de ter sido feita “confirmação visual” e “por outras vias e métodos” mas não confirmação ADN, de que o ataque atingia o alvo pretendido, afirmou `CNN o coordenador da Casa Branca para as comunicações estratégicas, John Kirby.