Semana Internacional

Nicolas Sarkozy ocupa o lugar de Jacques Chirac no Eliseu e nomeia o conservador moderado François Fillon para a chefia do novo Governo francês, um Executivo de paridade limitado a 15 pastas; o sexto Presidente da V República promete “romper com os comportamentos do passado”.

Carlos Santos Neves - RTP /
A síntese das histórias que fizeram a actualidade internacional durante a semana EPA

Segunda-feira, 14 de Maio

A violência entre militantes do Hamas e da Fatah nos territórios palestinianos ameaça a viabilidade do Governo de unidade nacional. A braços com os mais graves confrontos intra-fronteiras desde a sua entrada em funções, o Executivo chefiado por Ismail Haniyeh perde um dos seus elementos-chave, o ministro do Interior Hani al-Qawasmeh.

Dois meses depois da tomada de posse do Executivo de unidade, os territórios palestinianos voltam a mergulhar numa situação de caos. É uma vez mais o problemático sector da segurança que faz impender sobre o Executivo de Haniyeh o espectro do malogro. O independente Hani al-Qawasmeh abandona o Ministério do Interior – precisamente a pasta que levou ao arrastamento, durante meses, das negociações para a formação do novo Governo palestiniano.

A mais recente vaga de violência entre elementos do movimento do primeiro-ministro e a Fatah, formação do Presidente da Autoridade Palestiniana, conheceu o primeiro acto na sexta-feira. Contra a vontade do Hamas, foi decidido o destacamento, para Gaza, de um contingente das forças de segurança leais ao Presidente Mahmud Abbas. Estava lançada a semente das hostilidades. E abria-se nova brecha entre as fileiras do Governo, com o ministro do Interior a divergir com os seus pares quanto à estratégia a adoptar para devolver a segurança à Faixa de Gaza. Em apenas três dias, os confrontos fizeram oito mortos e mais de 50 feridos.

O cenário da queda do ministro do Interior vinha ganhando consistência há já várias semanas. Qawasmeh brandira várias vezes a ameaça da demissão. Só não o fez mais cedo graças aos esforços do primeiro-ministro para estancar o primeiro ímpeto hemorrágico do seu Executivo e, a jusante, o naufrágio do acordo concluído a 08 de Fevereiro, em Meca, para a partilha da governação. Na manhã de segunda-feira, a situação torna-se insustentável e Haniyeh aceita de imediato a demissão do ministro independente.

“Demiti-me porque não queria ter funções meramente decorativas. Cheguei à conclusão de que a situação de segurança não foi gerida com seriedade”, afirma em conferência de imprensa o ministro demissionário.

Poucas horas antes, ao cair da noite de domingo, responsáveis do Hamas e da Fatah garantiam ter chegado a acordo para um cessar das hostilidades - ao cabo de difíceis negociações mediadas por uma delegação egípcia, que propôs uma troca de reféns entre as duas facções. Mas o entendimento não teve tradução nas ruas.

Dezenas de homens do Hamas envolvem-se, ainda durante a madrugada de segunda-feira, num tiroteio com efectivos das forças de segurança da Fatah e do corpo de guarda-costas de um porta-voz do movimento de Mahmud Abbas. Os confrontos continuarão a assenhorear-se das ruas de Gaza até à noite.

Em Khan Younes, Sul de Gaza, um mercado local transforma-se num campo de batalha entre militantes das duas facções. Um deles é abatido a tiro. Antes, outros três palestinianos, dois deles activistas da Fatah, haviam sucumbido à troca de tiros no centro de Gaza. São também incendiadas instalações do Hamas e da Fatah na cidade.

Do gabinete de Ismail Haniyeh sai um apelo à calma. “O primeiro-ministro sublinhou a necessidade de pôr fim aos confrontos armados, preconizou a paciência e o recurso ao diálogo e apelou ao respeito da trégua concluída na véspera entre a Fatah e o Hamas”, declara Ghazi Hamad, porta-voz do chefe do Governo.

Ao início da noite, Hamas e Fatah regressam à mesa das negociações para tentar pôr termo à violência. Ghazi Hamad surge diante da imprensa para assegurar que “os dois movimentos confirmaram o desejo de aplicar o acordo de Meca, assim como a trégua concluída no domingo na presença de uma delegação egípcia”. O primeiro-ministro assume a pasta do Interior.

A manhã seguinte imitará as anteriores. Apoiadas por elementos da Força Executiva, as Brigadas Ezzedin Al-Qassam, braço armado do Hamas, cercarão no posto fronteiriço de Karni, Leste da cidade de Gaza, perto de 200 homens das forças de segurança leais a Mahmud Abbas. Os confrontos voltarão a alastrar a toda a Faixa de Gaza. Ao fim do dia, serão 16 os palestinianos abatidos nos combates fratricidas.

Os mediadores egípcios lograrão arrancar novo acordo de cessar-fogo entre Hamas e Fatah. Porém, a trégua resulta ineficaz e a violência continuará a marcar os dias da Faixa de Gaza.

Terça-feira, 15 de Maio

Um atentado suicida perpetrado no restaurante de um hotel de Peshawar, a maior cidade do noroeste do Paquistão, provoca as mortes de 25 pessoas e deixa feridas mais de 40. A polícia paquistanesa encontra, numa das pernas do presumível autor do atentado, uma mensagem redigida em pastune: “Eis o destino reservado aos espiões a soldo dos americanos”.

A explosão abala o centro de Peshawar ao início da tarde (08h00 em Lisboa), quando o restaurante do hotel Marhaba, situado na zona mais antiga da cidade, começava a servir os almoços. Dezenas de pessoas são apanhadas pela violência do impacto, que devasta a recepção e faz ruir uma das paredes da fachada do hotel. A maior parte dos clientes é oriunda do Afeganistão.

Testemunhas no local descrevem o pânico que sobreveio à detonação. A polícia e as equipas de socorro acorrem à rua do hotel, pejada de pedaços de corpos. Sucedem-se as ambulâncias, que se revezam incessantemente no trajecto entre o Marhaba e o Hospital Lady Reading, a principal unidade de Peshawar. “A explosão foi de tal forma potente que alguns corpos foram decapitados”, adianta uma fonte hospitalar, em declarações à agência France Presse.

Os primeiros elementos recolhidos no interior do hotel apontam de imediato para um atentado suicida. O facto de a explosão não ter aberto uma cratera no pavimento é referido pelas autoridades para consubstanciar a tese de uma acção suicida. “Não estamos 100 por cento seguros, mas o nosso sentimento é o de que se trata de um atentado suicida”, avança Fayyaz Turo, um alto responsável da polícia em Peshawar.

“Foi um atentado suicida”, afirma, citado pelas agência internacionais, o ministro da Justiça da Província-Fronteira do Noroeste, Malik Zafar Alam. Mais tarde, o mesmo responsável revela: “A polícia recuperou duas pernas decepadas e, presa a uma delas, uma mensagem escrita em língua pastune - Eis o destino reservado aos espiões a soldo dos americanos”.

Os responsáveis pela polícia provincial confirmam, também, a existência de uma nota com uma ameaça aos “colaboradores” dos Estados Unidos.

O hotel Marhaba era propriedade de um afegão de origem uzbeque, Saddar Uddin, que terá morrido na explosão juntamente com dois dos seus filhos. Natural de Mazar-e-Sharif, Norte do Afeganistão, Uddin era conotado com Abdul Rachid Dostum, antigo chefe de guerra e membro da Aliança do Norte, o conglomerado de forças que, em 2001, coadjuvou a coligação anglo-americana no derrube do regime talibã. As autoridades paquistanesas acreditam que o atentado de terça-feira poderá comportar a marca de um “ajuste de contas” entre apoiantes e contestatários da guerrilha extremista que continua a combater as forças da NATO em território afegão.

Situada a aproximadamente 60 quilómetros da fronteira com o Afeganistão, Peshawar é habitada por centenas de milhares de afegãos.

“Os investigadores estão a analisar a possibilidade de uma utilização do hotel como centro de recolha de informações sobre as actividades dos talibãs”, indicará, na quarta-feira, o ministro provincial da Justiça Malik Zafar Alam.

O atentado poderá, no entanto, estar relacionado com a morte do chefe da guerrilha talibã no Sul do Afeganistão, mullah Dadullah, abatido no fim-de-semana em combates com as tropas da Aliança Atlântica. Segundo a televisão paquistanesa, um dos filhos de Dadullah teria sido detido há poucos dias no hotel Marhaba. Uma informação que Malik Zafar Alam desmente, garantindo que não dispõe de dados sobre “qualquer detenção de um membro da família de Dadullah no hotel”.

Um dia depois do atentado, as autoridades paquistanesas prosseguirão os esforços para estabelecer um móbil. De acordo com o chefe da polícia de Peshawar, Abdul Majid Khan Marwat, os investigadores terão recuperado uma segunda mensagem escrita em pastune, a língua dominante nas regiões fronteiriças entre o Afeganistão e o Paquistão. “Aqueles que matam os fiéis puros e pios terão o mesmo destino”, ameaça a segunda nota.

“É possível que estas mensagens tenham sido ali colocadas para iludir as pistas e esconder os verdadeiros motivos do atentado”, admite Marwat. A colocação deste tipo de mensagens em corpos é uma prática comum naquela zona do Paquistão, onde grupos de extremistas islâmicos mataram já uma dezena de pessoas desde Janeiro.

O noroeste do Paquistão tem sido particularmente visado por ataques suicidas, que as autoridades do país atribuem a extremistas pró-talibãs. Em Janeiro, um atentado em Peshawar matou 15 efectivos da polícia. Mais recentemente, a 28 de Abril, um outro atentado suicida provocou 29 mortos em Charsadda, cerca de 20 quilómetros a nordeste da capital provincial.

Na quarta-feira, forças paramilitares paquistanesas e militantes islamistas travarão intensos combates na localidade fronteiriça de Tank. Cinco civis perderão a vida ao serem atingidos pela explosão de uma granada de morteiro lançada na direcção de uma paragem de autocarro.

Tempestade política

O atentado de Peshawar vem acentuar os traços de uma crise em crescendo. Após oito anos de poder, o general Pervez Musharraf está confrontado com duas frentes de batalha - o terrorismo de inspiração extremista e a maior ameaça de sempre à autoridade do seu regime, potenciada pelo afastamento de um juiz do Supremo Tribunal, Iftikhar Mohammad Chaudry.

A pior vaga de violência política dos últimos anos abateu-se, no fim-de-semana, sobre a cidade de Carachi, no Sul do Paquistão. Perto de 40 pessoas morreram durante uma prolongada batalha campal entre apoiantes do regime e activistas alinhados com a Oposição. O rastilho: a visita do juiz Chaudry à cidade.

O Presidente paquistanês fundamentou, no início de Março, a remoção do magistrado do Supremo Tribunal com uma pouco clara acusação de má conduta. Desde então, os círculos judiciais e os partidos da Oposição movem-lhe uma campanha feroz. O lume da tensão acabou por dar lugar a um incêndio em Carachi.

A Oposição responsabiliza o regime de Islamabad e o Movimento Muttahida Qaumi - formação política que governa Carachi – pelos confrontos do fim-de-semana. Para Musharraf, as responsabilidades devem ser atribuídas ao próprio Iftikhar Mohammad Chaudry, que, acusa o Presidente paquistanês, ignorou repetidos alertas para as consequências da sua deslocação ao Sul do país.

No início da semana, a contestação a Musharraf continuava a subir de tom com uma greve que deixou Carachi praticamente paralisada. Em Islamabad, um funcionário do Supremo Tribunal foi assassinado a tiro na sua residência. A polícia paquistanesa garante desconhecer a razão do crime. Porém, durante uma audiência no Supremo Tribunal para discutir uma petição de Chaudry, os advogados do juiz afirmaram que o funcionário em causa, Syed Hammad Raza, era uma testemunha importante no processo.

Já esta terça-feira, membros da Oposição abandonaram o Parlamento na capital, ditando o adiamento de um debate sobre a violência do fim-de-semana.

Musharraf acusa os advogados do juiz afastado de estarem a politizar o caso. E deixou claro que mantém a intenção de organizar eleições anda este ano, recusando-se a declarar o estado de emergência no país.

Quarta-feira, 16 de Maio

O novo Presidente francês rende Jacques Chirac no Palácio do Eliseu. Depois de tomar posse para um mandato de cinco anos, Nicolas Sarkozy afirma-se consciente da “exigência de reunir os franceses e respeitar a palavra dada”. Repete, também, o estribilho que o conduziu à vitória sobre a socialista Ségolène Royal – a França de Sarkozy vai “romper com os comportamentos do passado”.

Vinte e uma salvas de canhão ecoam nos céus de Paris para selar o primeiro parágrafo da Presidência de Nicolas Sarkozy, o homem da direita “descomplexada” a quem cabe fechar a acta de 12 anos do consulado de Chirac.

O ritual protocolar começou com a chegada do Presidente eleito ao Palácio do Eliseu. Passavam poucos minutos das 11h00 quando Jacques Chirac recebeu, sobre um tapete vermelho, o seu sucessor na chefia do Estado. Depois de um aperto de mão, Chirac e Sarkozy rumaram ao recato do gabinete presidencial para uma conversa de 35 minutos. A deposição do código do armamento nuclear e demais “segredos de Estado” nas mãos do novo chefe de Estado faz parte da ordem de trabalhos.

Este é um dia de emoções vincadas para Jacques Chirac. Na véspera da passagem de testemunho, o Presidente cessante, de quem Sarkozy obteve um beneplácito tardio, surgia nos ecrãs de televisão para se despedir dos franceses. Pediu-lhes para permanecerem “unidos e solidários”. Disse-se convicto de deixar o leme da República com “a convicção do dever cumprido”.

Quando chega o momento de entrar no automóvel que o levará do Eliseu, Chirac troca breves palavras com o seu sucessor, que o aplaude, e não pode esconder a emoção. Será, depois, saudado com os aplausos dos funcionários do Palácio e de uma pequena multidão concentrada para lá dos portões.

Na cerimónia de tomada de posse, a que assistem perto de 400 convidados, o presidente do Conselho Constitucional dirige-se ao novo inquilino da sede da Presidência. De ora em diante, declara Jean-Louis Debré, Sarkozy “encarna a França, simboliza a República e representa o conjunto dos franceses”. Aos 52 anos, o homem eleito pela União para um Movimento Popular (UMP) é o 23.º Presidente francês, o sexto da V República, nascida em 1958.

Ao fazer o seu primeiro discurso na qualidade de Presidente da República, Sarkozy retoma as ideias e o porte de estadista que ensaiara nos festejos da vitória eleitoral (ver síntese de 07-05 a 11-05).

“A seis de Maio houve uma única vitória, a da França que não quer morrer”, declara o novo Presidente. “Quero afirmar a minha convicção de que, ao serviço da França, não há campos. Há apenas a boa vontade daqueles que amam o seu país. Não há mais do que as competências, as ideias e as convicções daqueles que são animados pela paixão do interesse geral”.

Antes, deixara palavras de homenagem aos cinco presidentes que o antecederam no gabinete do Eliseu – o general Charles de Gaulle, Georges Pompidou, Valéry Giscard d’Estaing, o socialista François Mitterrand e Jacques Chirac.

Sem deixar cair, por um instante, a ideia do primado do mérito, da “exigência de resultados”, Nicolas Sarkozy começa desde logo a preparar o terreno para o conjunto de reformas económicas – de pendor excessivamente liberal, no entendimento dos seus críticos – que prometeu empreender durante o duelo com Ségolène Royal.

“Jamais o imobilismo foi tão perigoso para a França”, sustenta, depois de lançar um repto “a todos os que querem servir o seu país”. “Estou preparado para trabalhar com todos e não pedirei que reneguem as suas convicções, ou atraiçoem as suas amizades e esqueçam a sua história”.

É necessário, insiste, “romper com os comportamentos do passado e o conformismo intelectual que fez tanto mal à nossa democracia”. Ressurge no discurso de Sarkozy um dos propósitos que mais incendiou os seus adversários: “liquidar” o lastro do Maio de 68 e instaurar a “exigência da ordem”. É também neste capítulo que se inscrevem medidas como a prometida criação de um “Ministério da Imigração e da Identidade Nacional”.

No domínio da política externa, o homem que afasta o cenário de uma União Europeia com as fronteiras a abarcar a Turquia, ou a possibilidade de voltar a referendar uma nova versão do Tratado Constitucional europeu, propõe-se pugnar “por uma Europa que protege, porque o sentido do ideal europeu é proteger os cidadãos da Europa”.

“Farei da defesa dos Direitos Humanos e da luta contra as alterações climáticas as prioridades da acção diplomática da França”, promete o novo Presidente, cuja estratégia para arena internacional passa, também, por uma reaproximação sóbria ao Estados Unidos.

Apologista do princípio da “imigração selectiva”, Sarkozy afirma querer trabalhar tendo em vista a “união do Mediterrâneo”: “Ao virar as costas ao Mediterrâneo, a França vira as costas ao seu passado. Com efeito, ela vira as costas ao seu futuro”.

“Bater-me-ei pelo desenvolvimento de África porque os destinos da Europa e de África estão incontestavelmente ligados”, conclui.

Após a tomada de posse, Nicolas Sarkozy percorre, a bordo de um automóvel descapotável, a avenida dos Campos Elíseos até ao Arco do Triunfo, para depositar uma coroa de flores no túmulo do soldado desconhecido e saudar as associações de antigos combatentes.

Quebrará o protocolo por duas ocasiões, apeando-se para cumprimentar populares. Mais tarde rumará ao Bosque de Bolonha, na periferia da capital, onde prestará homenagem a 35 resistentes franceses executados em Agosto de 1944 pelos alemães.

Primeira escala: Alemanha

Acordar a União Europeia da “paralisia”. É este o desígnio que o novo Presidente francês transporta na bagagem para a sua primeira visita além-fronteiras. Escassas horas depois de tomar posse no Palácio do Eliseu, Nicolas Sarkozy efectua uma visita simbólica a Berlim. Ao lado da chanceler alemã, Angela Merkel, o recém-empossado Presidente garante que a França não prosseguirá, na Europa, uma “política de imobilismo”.

Os gestos de Sarkozy em solo alemão denotam um propósito claro. O mesmo político que se mostrou, outrora, pouco entusiasta com as virtudes do eixo franco-alemão, apartando-se de Chirac, aparece agora como impulsionador – ainda assim mais moderado - da proximidade com Berlim. Alemanha e França “têm naturalmente uma influência maior nos assuntos da Europa e do Mundo” se actuarem em concertação, advoga Sarkozy na moldura do sorriso de Merkel. Por mais de uma ocasião, sublinha as suas palavras com demonstrações de cumplicidade.

“Para a França, a amizade franco-alemã é sagrada e nada poderia pô-la em causa”, remata.

A chanceler alemã corresponde: “Senhor Presidente, caro Nicolas, é para mim uma alegria particular que este encontro possa ter lugar no primeiro dia da tua Presidência. Vejo nisso um sinal da extraordinária amizade franco-alemã”.

Na chancelaria de Berlim, Sarkozy volta a recitar as ideias-emblema que lhe valeram a vitória eleitoral: “A política da França não será marcada pelo selo da espera. A espera, o imobilismo, o conservadorismo não podem ser soluções”.

Com ou sem recurso à segunda pessoa do singular, o principal ponto de afastamento entre Paris e Berlim poderá residir no capítulo da reforma institucional da UE. Sarkozy quer ver elaborada uma versão mais simples do Tratado Constitucional, circunscrita à melhoria do funcionamento de um bloco a 27 e a aprovar nos parlamentos, a salvo dos riscos de um novo processo referendário. Já Merkel prefere um texto mais abrangente, que extravase as questões da engrenagem institucional.

Com o Conselho Europeu de 21 e 22 de Junho a ganhar forma no horizonte, recai sobre a presidência alemã a tarefa de obter um consenso entre os 27 e preparar um roteiro para o futuro Tratado Constitucional.

Sarkozy evoca, em Berlim, uma prioridade: “Retirar a UE da sua actual paralisia”.

“Parece-me necessário que não percamos um minuto”, reforça o Presidente francês.

Quinta-feira, 17 de Maio

O conservador moderado François Fillon sucede a Dominique de Villepin na chefia do Governo francês. Obreiro da ascensão de Nicolas Sarkozy à Presidência da República Francesa, o novo primeiro-ministro terá por missão imediata desencadear o processo de reformas económicas e sociais prometido pelo novo inquilino do Eliseu.

A nomeação do senador Fillon, um dos políticos mais próximos de Nicolas Sarkozy, é confirmada na manhã de quinta-feira pela Presidência francesa. Sem sombra de surpresa, o comunicado é divulgado depois de os dois novos protagonistas da cúpula política francesa se sentarem à mesa, no Palácio do Eliseu, para um pequeno-almoço de trabalho. Segue-se o trajecto protocolar do novo primeiro-ministro. François Fillon é recebido por Dominique de Villepin no palácio Matignon. Um dia depois do cerimonial do Eliseu, é agora a vez da passagem de testemunho no quartel-general do chefe do Executivo em Paris.

A sobriedade - marca distintiva de Fillon, o rosto da “ruptura tranquila” - pauta as primeiras declarações do novo primeiro-ministro francês.

“As eleições presidenciais levaram os nossos concidadãos a escolher uma nova política. É esse o meu dever, é esse o meu mandato”, afirma. “Respeitarei todos os compromissos que assumimos porque a renovação da vida política tem esse preço”.

François Fillon, jurista e adepto confesso do presidencialismo, apresenta no seu currículo de profissional da política uma substancial experiência governativa. Foram três as pastas-chave que assumiu entre 2002 e 2005 – Assuntos Sociais, Trabalho e Solidariedade e Educação.

Excluído, no final de Maio de 2005, da remodelação governamental promovida por Jacques Chirac e Dominique de Villepin, ensaiou uma aproximação definitiva ao presidenciável Sarkozy (num rasgo de estratégia, o nome de Fillon figurava, desde a derrota da direita nas regionais de 2004, entre os conselheiros da “estrela em ascensão” da UMP). Seria o próprio a admiti-lo. “Ao afastarem-me, tornaram-me director de campanha de Nicolas Sarkozy”, atirava o discreto conservador. Discrição essa que deporia, por um instante, para apontar uma farpa ao então Presidente francês: “Quando fizermos o balanço de Chirac, não nos lembraremos de nada, apenas das minhas reformas”.

Quedavam-se sepultadas as divergências do final de 2003, quando François Fillon se dizia “extremamento chocado” com as aspirações presidenciais de Sarkozy.

As anteriores passagens de Fillon pelos corredores do poder ficam sobretudo marcadas pela reforma das pensões que empreendeu em 2003. Mau grado o burburinho de críticas que perpassava a sua própria família política, propôs-se deitar as garras aos regimes especiais de reformas que beneficiavam 1,6 milhões de ex-funcionários de empresas públicas. Em 2005, já à frente do Ministério da Educação Nacional, seria forçado a recuar nas suas políticas para o Ensino, diante de expressivas manifestações de estudantes e sucessivos bloqueios de escolas.

Aos 53 anos, o político a quem muitos reservam a classificação de gaulliste social terá de tomar em mãos a aplicação das reformas preconizadas por Sarkozy, sob o signo da “exigência de mudança”. E reformular as relações entre o Eliseu e o Matignon, em face de uma esperada presidencialização do regime. Significativamente ou não, Fillon já avisou que não vê no seu horizonte a perspectiva de se transformar num “super-director de gabinete” do novo Presidente.

De acordo com o artigo 8.º da Constituição, o novo primeiro-ministro terá agora de propor ao Presidente da República os nomes do seu governo - uma mera formalidade, pois Fillon e Sarkozy desenham há vários dias, em apertada concertação, a geometria do elenco.

A composição do novo Governo francês – um Executivo limitado a 15 pastas e quatro secretarias de Estado, que integra oito homens e sete mulheres e abre as portas ao centro-esquerda - será conhecida na manhã de sexta-feira.

Elenco de ministros

Alain Juppé – Estado, Ecologia, Desenvolvimento e Planeamento Sustentáveis
Jean-Louis Borloo – Economia, Finanças e Emprego
Eric Woerth – Orçamento, Contas Públicas e Função Pública
Michèle Alliot-Marie – Interior, Ultramar e Colectividades Territoriais
Bernard Kouchner (socialista) – Negócios Estrangeiros e Europeus
Brice Hortefeux – Imigração, Integração, Identidade Nacional e Co-desenvolvimento
Rachida Dati – Justiça
Xavier Bertrand – Trabalho, Relações Sociais e Solidariedade
Xavier Darcos – Educação Nacional
Valérie Pécresse – Ensino Superior e Investigação
Hervé Morin (centrista) – Defesa
Roselyne Bachelot-Narquin – Saúde, Juventude e Desporto
Christine Boutin – Habitação e Cidades
Christine Lagarde – Agricultura e Pescas
Christine Albanel – Cultura e Comunicação (porta-voz do Executivo)

Sexta-feira, 18 de Maio

O caos propaga-se em Gaza. Pelo segundo dia consecutivo, a Força Aérea israelita cruza os céus da cidade palestiniana em resposta a sucessivos disparos de rockets Qassam contra Sderot, no Sul de Israel. Enquanto as vagas de ataques aéreos castigam posições do Hamas, as ruas são ainda o teatro de confrontos entre facções palestinianas.

A ordem para o regresso da aviação israelita à Faixa de Gaza saiu da secretária do primeiro-ministro israelita na quarta-feira. Para trás ficavam três dias de incessantes disparos de rockets Qassam – mais de 50 - contra a região do Negev e a cidade de Sderot, com um balanço de pelo menos seis feridos. Pressionado para agir, Ehud Olmert ordenou uma “resposta severa”. Em pouco mais de 24 horas, 15 palestinianos sucumbiram aos raids israelitas. Em Gaza, as Brigadas Ezzedin al-Qassam, braço armado do Hamas, deixam em aberto a possibilidade de retomar os atentados suicidas em território israelita, mais de dois anos depois de um dos seus bombistas ter semeado a destruição no colonato de Gush Katif.

A par dos bombardeamentos aéreos, o Tsahal (exército israelita) posicionou baterias de artilharia ao longo da linha de fronteira entre Israel e Gaza. E pela primeira vez desde Novembro do ano passado, a infantaria e os tanques israelitas penetraram cerca de um quilómetro em território palestiniano, ocupando posições no extremo Norte da Faixa de Gaza.

Na quinta-feira, uma sequência de cinco bombardeamentos da Força Aérea israelita sobre Gaza fez seis mortos. Uma das bombas lançadas pela aviação atingiu um edifício de dois andares ocupado pela Força Executiva do Hamas. Pelo menos 45 pessoas, entre as quais vários civis, tombaram feridas entre os escombros do edifício. Um militante do movimento do primeiro-ministro palestiniano perdeu a vida.

Os mísseis israelitas visaram, ainda, uma roulotte que albergava o corpo de guarda-costas de um dirigente do Hamas. Dois dos homens morreram. Mais tarde, um helicóptero do Tsahal pulverizava uma carrinha em Rafah, no Sul da Faixa de Gaza. A bordo seguiam três palestinianos - um pai e os seus dois filhos adolescentes, na versão de fontes palestinianas; os autores de disparos de rockets Qassam contra a localidade israelita de Kerem Shalom, segundo a Força Aérea de Israel.

A manhã de sexta-feira rompe sem sinais de que a acção dos militantes palestinianos possa vir a esmorecer. Pelo menos oito rockets abatem-se sobre o Sul de Israel, três deles na castigada Sderot. O primeiro ataque do dia, que não provoca vítimas, é reivindicado por Hamas e Jihad Islâmica. É o culminar de uma madrugada marcada por contínuos bombardeamentos israelitas.

Às primeiras horas da manhã, os caças de Israel concentravam os ataque a Leste da cidade de Gaza, sobre uma alegada plataforma de lançamento de mísseis; terão sido abatidos pelo menos cinco operacionais do Hamas em duas vagas de bombardeamentos.

Enquanto Israel reorienta a máquina de guerra para os territórios palestinianos, prossegue o conflito fratricida. Nas ruas de Gaza, em redor de edifícios da administração pública e estabelecimentos de ensino, continuam a ecoar tiros e detonações - militantes do Hamas e da Fatah são alheios às tréguas negociadas em gabinetes.

Em oito dias o conflito entre palestinianos provocou perto de meia centena de mortes.

Ante a degradação da ordem, o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahumud Abbas, cancelou, quinta-feira, uma visita à cidade, onde deveria reunir-se com o primeiro-ministro para tentar pôr cobro à violência e segurar um Governo de unidade que ameaça ruir como os edifícios varridos pela aviação israelita.

Do lado da Fatah saem acusações contra o Hamas. Responsáveis pelos serviços de segurança fiéis a Abbas afirmam ter conhecimento de um plano para assassinar o Presidente.

“O Presidente anulou a sua visita a Gaza por causa da descoberta de um túnel , sob a estrada de Salahedin, repleto de explosivos ali colocados pelas Brigadas Ezzedin Al-Qassam, que os faria explodir à passagem da caravana (presidencial)”, afirma uma das fontes, em declarações citadas pela France Presse.

O Hamas desmente. “Essas informações visam envenenar a atmosfera na Faixa de Gaza”, argumenta um porta-voz das Brigadas.

”Grande contenção”

Enquanto o Presidente dos Estados Unidos circunscreve as suas declarações a um apelo ao diálogo entre as partes, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano afirma que Israel demonstrou uma “grande contenção” ao exercer o “direito de se defender”. Sem se afastar um milímetro daquilo que tem sido o posicionamento de Washington diante da questão palestiniana, Sean McCormark assaca ao Hamas a responsabilidade pela crise. O objectivo de um Estado palestiniano, avisa, jamais será atingido enquanto o movimento não escolher o caminho da paz, em concertação com a Fatah e Mahmud Abbas.

“Não o conseguirão através do lançamento de rockets Qassam contra Israel. Não o conseguirão com ataques às forças de segurança legítimas da Autoridade Palestiniana. Não o conseguirão com o envio de jovens armados com coletes suicidadas para fazer explodir outros jovens israelitas”, sustenta McCormack.

Para já, e oficialmente, as movimentações militares israelitas têm um único objectivo: suprimir os ataques contra o Sul de Israel, sem uma intervenção directa nos confrontos entre facções palestinianas.

“Israel vai tomar todas as medidas defensivas para impedir estes ataques de rockets. Vamos defender os nossos cidadãos contra os rockets, as armas e o Hamas – apoiado pelos iranianos -, que está a atacar Israel”, argumentava na quinta-feira Miri Eisen, porta-voz do Governo israelita.

Apesar das garantias de imparcialidade, a verdade é que os bombardeamentos levados a efeito pela aviação israelita estão a reduzir a mobilidade dos homens do Hamas no terreno. E isto poderá favorecer, a prazo, os militantes da Fatah, que têm revelado escassa capacidade de resposta à supremacia dos adversários. Por outro lado, ao privilegiar alvos do Hamas, Israel fornece mais argumentos aos partidários do movimento, que vêem em Mahmud Abbas uma marioneta de Washington e Telavive.

Ainda a braços com as ondas de choque de um relatório sobre os erros da guerra no Líbano, Ehud Olmert sabe que uma ofensiva em larga escala nos territórios palestinianos comporta o risco de novo resultado inconclusivo e - primeira consequência expectável - de um reforço da base de apoio do Hamas.
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