Mundo
Semana Internacional
Gordon Brown rende Tony Blair na chefia do Governo britânico. Menos de 48 horas depois da nomeação do novo primeiro-ministro, Londres volta a experimentar a ameaça do terrorismo.
Segunda-feira, 25 de Junho
Ehud Olmert compromete-se, diante do Presidente da Autoridade Palestiniana, a permitir a libertação de 250 militantes da Fatah detidos em Israel. O “gesto de boa vontade” do primeiro-ministro israelita, resultado mais significativo da cimeira israelo-árabe de Charm el-Cheikh, visa dois objectivos: apoiar Mahmud Abbas e o seu movimento secular e aumentar o isolamento do Hamas.
O primeiro-ministro israelita chega à estância egípcia do Mar Vermelho com a mesma mensagem que vem repetindo há quase duas semanas, desde a tomada da Faixa de Gaza pelas milícias do movimento islamita Hamas. Para o Governo de Olmert, o Presidente da Autoridade Palestiniana é o único interlocutor legítimo nos territórios palestinianos, agora cindidos entre a Cisjordânia, onde Abbas e a Fatah prevalecem, e a Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas e o seu braço armado, as Brigadas Ezzedine Al-Qassam.
Sob os auspícios do Presidente egípcio Hosni Mubarak – e com a participação do monarca Abdallah II da Jordânia -, a cimeira de Charm el-Cheikh oferece o ensejo para o primeiro encontro entre Abbas e Olmert em mais de dois meses. Da mesa de conversações entre os quatro líderes regionais secundados pelo Ocidente saem sobretudo declarações de abertura à via do diálogo entre o Governo israelita e a Autoridade Palestiniana; as mais sonantes cabem a Ehud Olmert.
“Estou optimista, especialmente nestes dias turbulentos, quanto à criação de uma oportunidade que permita avançar seriamente no processo de paz regional. Não quero deixar escapar esta oportunidade”, afirma o primeiro-ministro israelita após a cimeira.
“Como gesto de boa vontade para com os palestinianos, anunciei hoje a minha intenção de libertar 250 prisioneiros, membros da Fatah que não têm sangue nas mãos, com o compromisso de não se envolverem com o terrorismo”, adianta Olmert.
O chefe do Governo israelita anuncia, ainda, a intenção de ressuscitar o programa de encontros quinzenais com Mahmud Abbas – um compromisso assumido durante uma deslocação ao Médio Oriente da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, e jamais concretizado.
O apoio de Telavive à Presidência da Autoridade Palestiniana passará, ainda segundo Olmert, pelo levantamento de sanções económicas e pela transferência, “numa base regular”, dos 600 milhões de dólares de taxas fiscais e aduaneiras colectadas pelo Governo israelita. Nas declarações do chefe do Governo israelita sobressai, também, a promessa de “melhorar os movimentos das populações na Cisjordânia de uma forma significativa”.
Ficam assim atendidos os principais apelos deixados por Mahmud Abbas. O Presidente da Autoridade Palestiniana apresentou-se em Charm el-Cheikh “de mão estendida”, tendo em vista “lançar as bases de uma paz justa, global e durável”.
“A nossa região encontra-se hoje numa encruzilhada histórica: o caminho da paz e da moderação ou o caminho da violência, do caos, do extremismo e da efusão de sangue”, frisa Mahmud Abbas.
A braços com um isolamento em crescendo, o Hamas descreve a cimeira do Mar Vermelho como um mero exercício de reverência perante “as miragens dos norte-americanos e dos israelitas”. A avaliação pertence a Ismail Haniyeh, chefe do Governo de unidade nacional destituído por Abbas. Ainda assim, o dirigente do Hamas afirma-se preparado para “responder favoravelmente” ao apelo do anfitrião do encontro de Charm el-Cheikh, Hosni Mubarak, para uma “reunificação das fileiras palestinianas através do diálogo”.
À margem da cimeira, o Hamas marca o dia com a difusão, na sua página na Internet, de uma mensagem áudio do soldado israelita Gilad Shalit, capturado há um ano, em território israelita, por um grupo de militantes palestinianos. Na gravação, Shalit pede tratamento médico e exorta as autoridades israelitas e libertarem prisioneiros palestinianos.
Terça-feira, 26 de Junho
A Justiça de Madrid abre um inquérito para investigar o atentado que provocou as mortes de seis pára-quedistas do contingente espanhol integrado na Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL). As cerimónias fúnebres dos seis operacionais realizam-se terça-feira, dia de luto nacional, com honras militares e religiosas.
A abertura da investigação às circunstâncias do atentado é decretada pelo juiz de instrução Fernando Grande-Marlaska, da Audiência Nacional. O magistrado proíbe a cremação dos corpos dos soldados, para a eventualidade de uma segunda autópsia.
O inquérito decretado pelo juiz da Audiência Nacional, a mais alta instância penal de Espanha, tem por base o artigo 23.4 da lei orgânica do poder judiciário, segundo o qual a Justiça espanhola “é competente para julgar os factos cometidos por espanhóis ou estrangeiros fora do território nacional susceptíveis de serem qualificados como crimes de genocídio e terrorismo”.
Nos termos da deliberação de Fernando Grande-Marlaska, os ministérios da Defesa e dos Negócios Estrangeiros deverão submeter à Audiência Nacional relatórios separados sobre aquele que é o primeiro atentado contra capacetes azuis da UNIFIL desde o fim do conflito entre Israel e o Hezbollah, no Verão de 2006.
Os seis pára-quedistas – três espanhóis e três colombianos entre os 18 e os 21 anos – sucumbiram no domingo à explosão de uma viatura armadilhada numa estrada do vale de Khiam, a escassos seis quilómetros da fronteira entre o Líbano e Israel.
Também o Hezbollah decide empreender um inquérito ao atentado, a par das investigações já desencadeadas pela UNIFIL e pelo exército libanês. O movimento xiita libanês já veio condenar o atentado de domingo, chegando ao ponto de afirmar que a acção “foi dirigida contra a resistência e os habitantes do Sul do Líbano”. O “Partido de Deus” teme estar a ser visado por sunitas conotados com a al Qaeda.
“Foi obra de profissionais altamente qualificados e executada por células adormecidas”, afirma um porta-voz do Hezbollah, citado pela France Presse.
Outra das teses em relevo aponta para uma possível ligação entre o ataque de Khiam e os combates que, desde 20 de Maio, opõem o exército regular libanês ao grupo extremista Fatah al-Islam no Norte do Líbano. Em declarações ao jornal libanês Daily Star, Timur Goksel, antigo conselheiro da UNIFIL, fala de uma “operação de solidariedade” levada a efeito por “um grupo que quer ser membro da al Qaeda”.
Segundo o diário espanhol ABC, que cita fontes militares, o atentado teria por alvo o contingente de Espanha. Uma fonte governamental espanhola confirma que essa é uma das teses em análise, mas indica que os indícios recolhidos até ao momento apontam para um atentado contra a UNIFIL em geral.
Na segunda-feira, o ministro espanhol da Defesa, José Antonio Alonso, pronunciara-se no mesmo sentido: “Não tenho qualquer dúvida de que se tratou de um atentado terrorista para desestabilizar o Sul do Líbano e pôr em causa a missão da UNIFIL.
Em dia de luto nacional, o titular da pasta da Defesa anuncia que os veículos blindados utilizados pelo contingente espanhol (1.110 operacionais destacados para o sudeste do Líbano) serão protegidos com um sistema de “inibidores”, que dificultam a activação de engenhos explosivos à distância.
As cerimónias fúnebres dos seis militares realizam-se em Paracuellos del Jarama, arredores de Madrid. Cobertos com a bandeira de Espanha, os caixões dos operacionais são tratados com honras militares e religiosas, num cerimonial de hora e meia presidido pelo príncipe Felipe de Bourbon. Acompanhado da esposa, o herdeiro da coroa espanhola apresenta condolências aos familiares dos pára-quedistas.
O primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero, e oito dos seus ministros assistem às exéquias.
Quarta-feira, 27 de Junho
Gordon Brown sucede a Tony Blair na chefia do Governo britânico. Chamado a formar Governo pela rainha Isabel II, o 52.º primeiro-ministro do Reino Unido franqueia a porta número 10 de Downing Street com a promessa de tomar em mãos “o desafio da mudança”. Blair põe um ponto final em dez anos de poder com uma derradeira defesa do esforço de guerra no Iraque.
Obreiro da refundação do Partido Trabalhista britânico - que em 1997 ditaria a ascensão ao poder do New Labour de Blair - Gordon Brown cumpre agora o desígnio que acalentou durante anos. Para trás fica uma década nas funções de ministro das Finanças, “apagado” pela sombra de Tony Blair. Aos 56 anos, o político austero e partidário de uma abordagem atlantista da política externa rasga o sorriso da missão cumprida na chegada a Downing Street. “Que comece o trabalho da mudança”, afirma ao lado da mulher, Sarah.
A transição nos corredores do poder executivo britânico prolongou-se por sete semanas. A 10 de Maio, após meses de especulações, Tony Blair anunciava que deporia as rédeas do Governo no dia 27 de Julho. Seguir-se-ia o processo de eleição da nova liderança dos trabalhistas. Livre de oposição interna – os seus potenciais adversários não lograram reunir suficiente capital de apoio -, Gordon Brown seria eleito para a liderança do New Labour três dias antes da demissão de Blair, num conclave partidário sem traço de surpresa.
Pela primeira vez em 17 anos, a rainha Isabel II investe um primeiro-ministro sem a realização de eleições gerais.
Gordon Brown chega ao Palácio de Buckingham pouco depois de Tony Blair apresentar a demissão à rainha, numa breve audiência de 28 minutos. É já na qualidade de primeiro-ministro que promete “dar o melhor” para responder às prioridades do seu consulado – os sectores da Educação e da Saúde e a tarefa de restaurar a confiança dos governados nos governantes, face a um desgaste em larga medida decorrente do alinhamento de Tony Blair com a política belicista da Administração Bush.
“Este será um novo governo com novas prioridades”, afirma Gordon Brown, sublinhando que se sente “privilegiado por ter a oportunidade de servir o país”. “Em todos os momentos serei forte nos propósitos, firme na vontade, resoluto na acção ao serviço daquilo que interessa ao povo britânico, indo ao encontro das preocupações e aspirações de todo o país”.
Adiante, o novo primeiro-ministro promete formar um executivo “de todos os talentos”.
“Se conseguirmos realizar o potencial e os talentos do nosso povo, então estou absolutamente seguro de que a Grã-Bretanha pode tornar-se a grande história de sucesso global deste século”.
Despedida no Parlamento
Ao deixar o número 10 de Downing Street, Tony Blair substitui as palavras por um sorriso. Antes da audiência com a rainha, comparecera no Parlamento para a sua última sessão semanal de interpelação. Na Câmara dos Comuns, fez uma derradeira defesa da intervenção no Iraque, para acabar saudado de pé por todos os deputados. Do líder conservador, David Cameron, ao líder dos liberais democratas, Menzies Campbell, Blair colhe palavras de reconhecimento pelos capítulos mais unânimes do seu trabalho – as conquistas no processo de paz na Irlanda do Norte são citadas pelo chefe dos Tories (Partido Conservador).
“Sei que alguns poderão pensar que foram confrontados com estes perigos em vão. Não penso assim e jamais pensarei”, declarou Blair, dizendo-se “extremamente desolado pelos perigos enfrentados pelos soldados no Iraque e no Afeganistão”.
O discurso foi rematado com um tributo ao “trabalho nobre” dos deputados. “Desejo boa sorte a todos, amigos ou inimigos, e isso é tudo, é o fim”.
Blair assumirá, de ora em diante, um novo papel na cena internacional enquanto enviado especial do Quarteto para o Médio Oriente (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e ONU). A nomeação do ex-primeiro-ministro para o cargo é confirmada na tarde de quarta-feira por Michèle Montas, porta-voz das Nações Unidas. Pouco depois, Blair renuncia ao lugar de deputado por Sedgefield (nordeste de Inglaterra).
Composição do novo Executivo britânico
Gordon Brown – primeiro-ministro
Alistair Darling – ministro das Finanças (Chancellor of the Exchequer)
David Miliband – ministro dos Negócios Estrangeiros
Jack Straw – ministro da Justiça e presidente da Câmara dos Lordes (Lord Chancellor)
Jacqui Smith – ministra do Interior
Des Browne – ministro da Defesa
Alan Johnson – ministro da Saúde
Hilary Benn – ministro do Ambiente, da Alimentação e dos Assuntos Rurais
Douglas Alexander – ministro para o Desenvolvimento Internacional
John Hutton – ministro do Comércio, das Empresas e da Reforma Regulatória
Harriet Harman – ministra das Mulheres, líder dos Comuns e presidente do Labour
Peter Hain – ministro do Trabalho e das Reformas
Ruth Kelly – ministra dos Transportes
Hazel Blears – ministra das Comunidades e do Governo Local
Ed Balls – ministro das Crianças, das Escolas e da Família
Ed Miliband – Ministro da Presidência e chanceler do ducado de Lancaster
James Purnell – ministro da Cultura, dos Media e dos Desportos
Shaun Woodward – ministro para a Irlanda do Norte
Andy Burnham – ministro do Tesouro
John Denham – ministro de Estado para a Inovação, Universidades e Aptidões
Geoff Hoon – líder do grupo parlamentar (Chief Whip)
Catherine Ashton – líder dos Lordes
Quinta-feira, 28 de Junho
O Presidente cessante de Israel, envolvido num processo de delitos sexuais, escapa ao cenário de uma pena de prisão efectiva através de um acordo com a Justiça. Com as funções suspensas desde Janeiro, Moshé Katsav declara-se culpado de “assédio e actos indecentes” contra duas das suas ex-funcionárias e aceita apresentar a demissão.
O desfecho do processo de Katsav é anunciado em conferência de imprensa pelo procurador-geral israelita Menachem Mazuz. Nos termos do acordo, o Presidente de Israel, cujo mandato expirava em Julho, “reconheceu a sua responsabilidade numa longa série de delitos sexuais, nomeadamente assédio e actos indecentes”. O procurador-geral adianta, ainda, que Katsav admitiu ter exercido pressões sobre uma das testemunhas do processo. De fora do acervo de “delitos” citado por Mazuz fica, no entanto, a acusação de violação, uma decisão tomada por “falta de provas suficientes”.
Apesar do recuo face às alegações de violação, o procurador-geral salienta o facto de Katsav ter de apresentar a demissão e viver com “uma vergonha que o acompanhará para sempre”. “De primeiro cidadão de Israel ele passa a criminoso condenado por ofensas sexuais”, afirma.
Depois de ter clamado inocência, Moshé Katsav acabou por “admitir ser responsável por uma parte das acusações” que lhe eram movidas, prossegue Menachem Mazuz, que é também conselheiro jurídico do Governo de Ehud Olmert. “Se ele fosse considerado culpado, essas acusações ter-lhe-iam valido sete anos de prisão, mas escapa graças a este compromisso”.
Inicialmente, o procurador-geral afirmara pretender acusar Katsav de violação, assédio sexual, obstrução à Justiça e suborno de testemunhas. O Presidente demissionário será agora condenado a uma pena de prisão suspensa e ao pagamento de indemnizações às duas queixosas.
Citado pela rádio pública de Israel, o Chefe de Estado cessante argumenta que aceitou assumir a responsabilidade por actos que não cometeu para “poupar mais sofrimento à família”.
Kinneret Barachi, representante legal de uma das ex-funcionárias de Katsav, critica o acordo negociado pela Procuradoria-Geral, afirmando que a sua cliente “sente-se como uma vítima pela segunda vez”. “Este compromisso é uma mensagem lamentável dirigida aos violadores”, atira.
Nascido em 1945 no Irão, Moshé Katsav imigrou para Israel no início da década de 1950. Com apenas 24 anos tornou-se o mais jovem presidente de câmara do Estado hebraico. A sua carreira política, nas fileiras do partido de direita Likud, inclui funções parlamentares e alguns cargos governamentais. Em 2000, bateu o decano Shimon Peres na eleição parlamentar para a Presidência.
O lugar de Katsav será agora ocupado por Peres, eleito pelo Parlamento a 13 de Junho.
Sexta-feira, 29 de Junho
A Scotland Yard detecta e neutraliza, às primeiras horas da madrugada, uma viatura armadilhada perto de Picadilly Circus, no coração de Londres. Instalado no interior de um automóvel parqueado em Haymarket, o engenho explosivo poderia, segundo a polícia britânica, ter causado “um número importante de mortos e feridos”.
A polícia foi alertada para a presença de uma viatura suspeita em Haymarket, no bairro turístico de West End, à 1h00 de sexta-feira. Depois de ter avistado fumo no interior do automóvel - um Mercedes verde metalizado estacionado nas imediações do clube nocturno “Tiger Tiger” -, a equipa de uma ambulância contactou de imediato a Scotland Yard.
Ao chegar ao local, os efectivos do comando de contra-terrorismo da polícia britânica depararam-se com o que viriam a descrever como “engenho explosivo potencialmente viável”. No interior do carro foram encontrados pregos, 60 litros de gasolina e botijas de gás.
A área é delimitada por um cordão policial. Enquanto a polícia investiga o automóvel, a estação de metro de Picadilly Circus é fechada ao público. Após uma análise minuciosa, os agentes acabam por neutralizar a bomba com uma explosão controlada e o Mercedes é retirado do local a bordo de um camião.
Em conferência de imprensa, o chefe do comando de contra-terrorismo da Scotland Yard afirma que o engenho explosivo detectado no centro da capital teria capacidade para provocar elevados danos humanos e materiais. “É óbvio”, declara Peter Clarke, “que se o engenho tivesse sido detonado poderia haver ferimentos significativos ou perda de vidas”.
Peter Clarke sublinha ser cedo para apontar “responsáveis”, ainda que o incidente comporte a mesma marca de outras conspirações terroristas frustradas. Fontes das autoridades citadas pela BBC admitem a possibilidade de se tratar de uma acção orquestrada por “elementos internacionais”.
“Todas as opções estão em aberto”, indica uma fonte dos serviços secretos em declarações à agência britânica Press Association.
De acordo com fontes citadas pelo canal britânico Sky News, a polícia crê que o engenho explosivo poderia ser detonado por controlo remoto, através de um telemóvel.
Algumas horas depois do alerta, a nova ministra britânica do Interior, Jacqui Smith, preside a uma reunião do gabinete “Cobra”, uma unidade de emergência do Governo que congrega os principais órgãos do poder executivo, os serviços de informações (MI5 e MI6) e a Scotland Yard.
A Grã-Bretanha, afirma Jacqui Smith, “enfrenta uma ameaça à segurança muito grave e muito apoiada pelo terrorismo internacional”.
Ao início da tarde, a polícia britânica fecha os acessos às artérias Oxford Street e Park Lane, perto de Hyde Park, para inspeccionar um segundo veículo suspeito num parque subterrâneo. A polícia concentra, ainda, atenções em Fleet Street, no centro da capital - a rua é também encerrada depois de os agentes serem chamados ao local para investigar um terceiro automóvel.
Dois dias depois da nomeação de Gordon Brown para o cargo de primeiro-ministro, a ameaça do terrorismo volta a sobressaltar Londres. Dentro de pouco mais de uma semana, a Grã-Bretanha assinalará o segundo aniversário dos atentados de 07 de Julho de 2005. Confrontado com o seu primeiro alerta terrorista enquanto chefe do Governo, Brown coloca a ênfase na “necessidade de manter a vigilância”.
“O primeiro dever do Governo é a segurança das pessoas e, como a polícia e os serviços de segurança têm dito em numerosas ocasiões, estamos confrontados com uma ameaça à segurança constante e grave”, frisa o primeiro-ministro britânico.
O público, prossegue Gordon Brown, “deve estar alerta face a potenciais incidentes”.
Em Novembro de 2006, a então directora-geral do MI5 veio a público revelar a existência de pelo menos 30 conspirações terroristas referenciadas pelos serviços secretos. Pouco antes de deixar o cargo, Eliza Manningham-Buller indicava que os seus serviços tinham conhecimento de “cerca de 200 grupos ou redes” e de mais de 1.600 indivíduos “activamente envolvidos na preparação ou assistência a actos terroristas” na Grã-Bretanha ou “no Estrangeiro”.
O nível de ameaça terrorista na Grã-Bretanha é considerado “grave” desde 14 de Agosto de 2006.
Segunda viatura com explosivos
Ao cair da noite de sexta-feira, o chefe do comando de contra-terrorismo da Scotland Yard, Peter Clarke, confirma que a polícia detectou uma segunda viatura com uma "quantidade considerável" de explosivos estacionada nas proximidades do primeiro veículo.
O segundo carro armadilhado - um Mercedes de cor azul - foi posteriormente transportado para um parque de estacionamento subterrâneo de Park Lane, onde os agentes procederam à neutralização dos explosivos.
A descoberta, afirma Clarke, está "manifestamente ligada" aos acontecimentos da madrugada.
Ehud Olmert compromete-se, diante do Presidente da Autoridade Palestiniana, a permitir a libertação de 250 militantes da Fatah detidos em Israel. O “gesto de boa vontade” do primeiro-ministro israelita, resultado mais significativo da cimeira israelo-árabe de Charm el-Cheikh, visa dois objectivos: apoiar Mahmud Abbas e o seu movimento secular e aumentar o isolamento do Hamas.O primeiro-ministro israelita chega à estância egípcia do Mar Vermelho com a mesma mensagem que vem repetindo há quase duas semanas, desde a tomada da Faixa de Gaza pelas milícias do movimento islamita Hamas. Para o Governo de Olmert, o Presidente da Autoridade Palestiniana é o único interlocutor legítimo nos territórios palestinianos, agora cindidos entre a Cisjordânia, onde Abbas e a Fatah prevalecem, e a Faixa de Gaza, controlada pelo Hamas e o seu braço armado, as Brigadas Ezzedine Al-Qassam.
Sob os auspícios do Presidente egípcio Hosni Mubarak – e com a participação do monarca Abdallah II da Jordânia -, a cimeira de Charm el-Cheikh oferece o ensejo para o primeiro encontro entre Abbas e Olmert em mais de dois meses. Da mesa de conversações entre os quatro líderes regionais secundados pelo Ocidente saem sobretudo declarações de abertura à via do diálogo entre o Governo israelita e a Autoridade Palestiniana; as mais sonantes cabem a Ehud Olmert.
“Estou optimista, especialmente nestes dias turbulentos, quanto à criação de uma oportunidade que permita avançar seriamente no processo de paz regional. Não quero deixar escapar esta oportunidade”, afirma o primeiro-ministro israelita após a cimeira.
“Como gesto de boa vontade para com os palestinianos, anunciei hoje a minha intenção de libertar 250 prisioneiros, membros da Fatah que não têm sangue nas mãos, com o compromisso de não se envolverem com o terrorismo”, adianta Olmert.O chefe do Governo israelita anuncia, ainda, a intenção de ressuscitar o programa de encontros quinzenais com Mahmud Abbas – um compromisso assumido durante uma deslocação ao Médio Oriente da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, e jamais concretizado.
O apoio de Telavive à Presidência da Autoridade Palestiniana passará, ainda segundo Olmert, pelo levantamento de sanções económicas e pela transferência, “numa base regular”, dos 600 milhões de dólares de taxas fiscais e aduaneiras colectadas pelo Governo israelita. Nas declarações do chefe do Governo israelita sobressai, também, a promessa de “melhorar os movimentos das populações na Cisjordânia de uma forma significativa”.
Ficam assim atendidos os principais apelos deixados por Mahmud Abbas. O Presidente da Autoridade Palestiniana apresentou-se em Charm el-Cheikh “de mão estendida”, tendo em vista “lançar as bases de uma paz justa, global e durável”.
“A nossa região encontra-se hoje numa encruzilhada histórica: o caminho da paz e da moderação ou o caminho da violência, do caos, do extremismo e da efusão de sangue”, frisa Mahmud Abbas.
A braços com um isolamento em crescendo, o Hamas descreve a cimeira do Mar Vermelho como um mero exercício de reverência perante “as miragens dos norte-americanos e dos israelitas”. A avaliação pertence a Ismail Haniyeh, chefe do Governo de unidade nacional destituído por Abbas. Ainda assim, o dirigente do Hamas afirma-se preparado para “responder favoravelmente” ao apelo do anfitrião do encontro de Charm el-Cheikh, Hosni Mubarak, para uma “reunificação das fileiras palestinianas através do diálogo”.
À margem da cimeira, o Hamas marca o dia com a difusão, na sua página na Internet, de uma mensagem áudio do soldado israelita Gilad Shalit, capturado há um ano, em território israelita, por um grupo de militantes palestinianos. Na gravação, Shalit pede tratamento médico e exorta as autoridades israelitas e libertarem prisioneiros palestinianos.
Terça-feira, 26 de Junho
A Justiça de Madrid abre um inquérito para investigar o atentado que provocou as mortes de seis pára-quedistas do contingente espanhol integrado na Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL). As cerimónias fúnebres dos seis operacionais realizam-se terça-feira, dia de luto nacional, com honras militares e religiosas.A abertura da investigação às circunstâncias do atentado é decretada pelo juiz de instrução Fernando Grande-Marlaska, da Audiência Nacional. O magistrado proíbe a cremação dos corpos dos soldados, para a eventualidade de uma segunda autópsia.
O inquérito decretado pelo juiz da Audiência Nacional, a mais alta instância penal de Espanha, tem por base o artigo 23.4 da lei orgânica do poder judiciário, segundo o qual a Justiça espanhola “é competente para julgar os factos cometidos por espanhóis ou estrangeiros fora do território nacional susceptíveis de serem qualificados como crimes de genocídio e terrorismo”.
Nos termos da deliberação de Fernando Grande-Marlaska, os ministérios da Defesa e dos Negócios Estrangeiros deverão submeter à Audiência Nacional relatórios separados sobre aquele que é o primeiro atentado contra capacetes azuis da UNIFIL desde o fim do conflito entre Israel e o Hezbollah, no Verão de 2006.
Os seis pára-quedistas – três espanhóis e três colombianos entre os 18 e os 21 anos – sucumbiram no domingo à explosão de uma viatura armadilhada numa estrada do vale de Khiam, a escassos seis quilómetros da fronteira entre o Líbano e Israel.Também o Hezbollah decide empreender um inquérito ao atentado, a par das investigações já desencadeadas pela UNIFIL e pelo exército libanês. O movimento xiita libanês já veio condenar o atentado de domingo, chegando ao ponto de afirmar que a acção “foi dirigida contra a resistência e os habitantes do Sul do Líbano”. O “Partido de Deus” teme estar a ser visado por sunitas conotados com a al Qaeda.
“Foi obra de profissionais altamente qualificados e executada por células adormecidas”, afirma um porta-voz do Hezbollah, citado pela France Presse.
Outra das teses em relevo aponta para uma possível ligação entre o ataque de Khiam e os combates que, desde 20 de Maio, opõem o exército regular libanês ao grupo extremista Fatah al-Islam no Norte do Líbano. Em declarações ao jornal libanês Daily Star, Timur Goksel, antigo conselheiro da UNIFIL, fala de uma “operação de solidariedade” levada a efeito por “um grupo que quer ser membro da al Qaeda”.
Segundo o diário espanhol ABC, que cita fontes militares, o atentado teria por alvo o contingente de Espanha. Uma fonte governamental espanhola confirma que essa é uma das teses em análise, mas indica que os indícios recolhidos até ao momento apontam para um atentado contra a UNIFIL em geral.
Na segunda-feira, o ministro espanhol da Defesa, José Antonio Alonso, pronunciara-se no mesmo sentido: “Não tenho qualquer dúvida de que se tratou de um atentado terrorista para desestabilizar o Sul do Líbano e pôr em causa a missão da UNIFIL.
Em dia de luto nacional, o titular da pasta da Defesa anuncia que os veículos blindados utilizados pelo contingente espanhol (1.110 operacionais destacados para o sudeste do Líbano) serão protegidos com um sistema de “inibidores”, que dificultam a activação de engenhos explosivos à distância.
As cerimónias fúnebres dos seis militares realizam-se em Paracuellos del Jarama, arredores de Madrid. Cobertos com a bandeira de Espanha, os caixões dos operacionais são tratados com honras militares e religiosas, num cerimonial de hora e meia presidido pelo príncipe Felipe de Bourbon. Acompanhado da esposa, o herdeiro da coroa espanhola apresenta condolências aos familiares dos pára-quedistas.
O primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodriguez Zapatero, e oito dos seus ministros assistem às exéquias.
Quarta-feira, 27 de Junho
Gordon Brown sucede a Tony Blair na chefia do Governo britânico. Chamado a formar Governo pela rainha Isabel II, o 52.º primeiro-ministro do Reino Unido franqueia a porta número 10 de Downing Street com a promessa de tomar em mãos “o desafio da mudança”. Blair põe um ponto final em dez anos de poder com uma derradeira defesa do esforço de guerra no Iraque.Obreiro da refundação do Partido Trabalhista britânico - que em 1997 ditaria a ascensão ao poder do New Labour de Blair - Gordon Brown cumpre agora o desígnio que acalentou durante anos. Para trás fica uma década nas funções de ministro das Finanças, “apagado” pela sombra de Tony Blair. Aos 56 anos, o político austero e partidário de uma abordagem atlantista da política externa rasga o sorriso da missão cumprida na chegada a Downing Street. “Que comece o trabalho da mudança”, afirma ao lado da mulher, Sarah.
A transição nos corredores do poder executivo britânico prolongou-se por sete semanas. A 10 de Maio, após meses de especulações, Tony Blair anunciava que deporia as rédeas do Governo no dia 27 de Julho. Seguir-se-ia o processo de eleição da nova liderança dos trabalhistas. Livre de oposição interna – os seus potenciais adversários não lograram reunir suficiente capital de apoio -, Gordon Brown seria eleito para a liderança do New Labour três dias antes da demissão de Blair, num conclave partidário sem traço de surpresa.
Pela primeira vez em 17 anos, a rainha Isabel II investe um primeiro-ministro sem a realização de eleições gerais.
Gordon Brown chega ao Palácio de Buckingham pouco depois de Tony Blair apresentar a demissão à rainha, numa breve audiência de 28 minutos. É já na qualidade de primeiro-ministro que promete “dar o melhor” para responder às prioridades do seu consulado – os sectores da Educação e da Saúde e a tarefa de restaurar a confiança dos governados nos governantes, face a um desgaste em larga medida decorrente do alinhamento de Tony Blair com a política belicista da Administração Bush.“Este será um novo governo com novas prioridades”, afirma Gordon Brown, sublinhando que se sente “privilegiado por ter a oportunidade de servir o país”. “Em todos os momentos serei forte nos propósitos, firme na vontade, resoluto na acção ao serviço daquilo que interessa ao povo britânico, indo ao encontro das preocupações e aspirações de todo o país”.
Adiante, o novo primeiro-ministro promete formar um executivo “de todos os talentos”.
“Se conseguirmos realizar o potencial e os talentos do nosso povo, então estou absolutamente seguro de que a Grã-Bretanha pode tornar-se a grande história de sucesso global deste século”.
Despedida no Parlamento
Ao deixar o número 10 de Downing Street, Tony Blair substitui as palavras por um sorriso. Antes da audiência com a rainha, comparecera no Parlamento para a sua última sessão semanal de interpelação. Na Câmara dos Comuns, fez uma derradeira defesa da intervenção no Iraque, para acabar saudado de pé por todos os deputados. Do líder conservador, David Cameron, ao líder dos liberais democratas, Menzies Campbell, Blair colhe palavras de reconhecimento pelos capítulos mais unânimes do seu trabalho – as conquistas no processo de paz na Irlanda do Norte são citadas pelo chefe dos Tories (Partido Conservador).“Sei que alguns poderão pensar que foram confrontados com estes perigos em vão. Não penso assim e jamais pensarei”, declarou Blair, dizendo-se “extremamente desolado pelos perigos enfrentados pelos soldados no Iraque e no Afeganistão”.
O discurso foi rematado com um tributo ao “trabalho nobre” dos deputados. “Desejo boa sorte a todos, amigos ou inimigos, e isso é tudo, é o fim”.Blair assumirá, de ora em diante, um novo papel na cena internacional enquanto enviado especial do Quarteto para o Médio Oriente (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e ONU). A nomeação do ex-primeiro-ministro para o cargo é confirmada na tarde de quarta-feira por Michèle Montas, porta-voz das Nações Unidas. Pouco depois, Blair renuncia ao lugar de deputado por Sedgefield (nordeste de Inglaterra).
Composição do novo Executivo britânico
Gordon Brown – primeiro-ministro
Alistair Darling – ministro das Finanças (Chancellor of the Exchequer)
David Miliband – ministro dos Negócios Estrangeiros
Jack Straw – ministro da Justiça e presidente da Câmara dos Lordes (Lord Chancellor)
Jacqui Smith – ministra do Interior
Des Browne – ministro da Defesa
Alan Johnson – ministro da Saúde
Hilary Benn – ministro do Ambiente, da Alimentação e dos Assuntos Rurais
Douglas Alexander – ministro para o Desenvolvimento Internacional
John Hutton – ministro do Comércio, das Empresas e da Reforma Regulatória
Harriet Harman – ministra das Mulheres, líder dos Comuns e presidente do Labour
Peter Hain – ministro do Trabalho e das Reformas
Ruth Kelly – ministra dos Transportes
Hazel Blears – ministra das Comunidades e do Governo Local
Ed Balls – ministro das Crianças, das Escolas e da Família
Ed Miliband – Ministro da Presidência e chanceler do ducado de Lancaster
James Purnell – ministro da Cultura, dos Media e dos Desportos
Shaun Woodward – ministro para a Irlanda do Norte
Andy Burnham – ministro do Tesouro
John Denham – ministro de Estado para a Inovação, Universidades e Aptidões
Geoff Hoon – líder do grupo parlamentar (Chief Whip)
Catherine Ashton – líder dos Lordes
Quinta-feira, 28 de Junho
O Presidente cessante de Israel, envolvido num processo de delitos sexuais, escapa ao cenário de uma pena de prisão efectiva através de um acordo com a Justiça. Com as funções suspensas desde Janeiro, Moshé Katsav declara-se culpado de “assédio e actos indecentes” contra duas das suas ex-funcionárias e aceita apresentar a demissão.O desfecho do processo de Katsav é anunciado em conferência de imprensa pelo procurador-geral israelita Menachem Mazuz. Nos termos do acordo, o Presidente de Israel, cujo mandato expirava em Julho, “reconheceu a sua responsabilidade numa longa série de delitos sexuais, nomeadamente assédio e actos indecentes”. O procurador-geral adianta, ainda, que Katsav admitiu ter exercido pressões sobre uma das testemunhas do processo. De fora do acervo de “delitos” citado por Mazuz fica, no entanto, a acusação de violação, uma decisão tomada por “falta de provas suficientes”.
Apesar do recuo face às alegações de violação, o procurador-geral salienta o facto de Katsav ter de apresentar a demissão e viver com “uma vergonha que o acompanhará para sempre”. “De primeiro cidadão de Israel ele passa a criminoso condenado por ofensas sexuais”, afirma.
Depois de ter clamado inocência, Moshé Katsav acabou por “admitir ser responsável por uma parte das acusações” que lhe eram movidas, prossegue Menachem Mazuz, que é também conselheiro jurídico do Governo de Ehud Olmert. “Se ele fosse considerado culpado, essas acusações ter-lhe-iam valido sete anos de prisão, mas escapa graças a este compromisso”.
Inicialmente, o procurador-geral afirmara pretender acusar Katsav de violação, assédio sexual, obstrução à Justiça e suborno de testemunhas. O Presidente demissionário será agora condenado a uma pena de prisão suspensa e ao pagamento de indemnizações às duas queixosas.
Citado pela rádio pública de Israel, o Chefe de Estado cessante argumenta que aceitou assumir a responsabilidade por actos que não cometeu para “poupar mais sofrimento à família”.
Kinneret Barachi, representante legal de uma das ex-funcionárias de Katsav, critica o acordo negociado pela Procuradoria-Geral, afirmando que a sua cliente “sente-se como uma vítima pela segunda vez”. “Este compromisso é uma mensagem lamentável dirigida aos violadores”, atira.
Nascido em 1945 no Irão, Moshé Katsav imigrou para Israel no início da década de 1950. Com apenas 24 anos tornou-se o mais jovem presidente de câmara do Estado hebraico. A sua carreira política, nas fileiras do partido de direita Likud, inclui funções parlamentares e alguns cargos governamentais. Em 2000, bateu o decano Shimon Peres na eleição parlamentar para a Presidência.
O lugar de Katsav será agora ocupado por Peres, eleito pelo Parlamento a 13 de Junho.
Sexta-feira, 29 de Junho
A Scotland Yard detecta e neutraliza, às primeiras horas da madrugada, uma viatura armadilhada perto de Picadilly Circus, no coração de Londres. Instalado no interior de um automóvel parqueado em Haymarket, o engenho explosivo poderia, segundo a polícia britânica, ter causado “um número importante de mortos e feridos”.A polícia foi alertada para a presença de uma viatura suspeita em Haymarket, no bairro turístico de West End, à 1h00 de sexta-feira. Depois de ter avistado fumo no interior do automóvel - um Mercedes verde metalizado estacionado nas imediações do clube nocturno “Tiger Tiger” -, a equipa de uma ambulância contactou de imediato a Scotland Yard.
Ao chegar ao local, os efectivos do comando de contra-terrorismo da polícia britânica depararam-se com o que viriam a descrever como “engenho explosivo potencialmente viável”. No interior do carro foram encontrados pregos, 60 litros de gasolina e botijas de gás.
A área é delimitada por um cordão policial. Enquanto a polícia investiga o automóvel, a estação de metro de Picadilly Circus é fechada ao público. Após uma análise minuciosa, os agentes acabam por neutralizar a bomba com uma explosão controlada e o Mercedes é retirado do local a bordo de um camião. Em conferência de imprensa, o chefe do comando de contra-terrorismo da Scotland Yard afirma que o engenho explosivo detectado no centro da capital teria capacidade para provocar elevados danos humanos e materiais. “É óbvio”, declara Peter Clarke, “que se o engenho tivesse sido detonado poderia haver ferimentos significativos ou perda de vidas”.
Peter Clarke sublinha ser cedo para apontar “responsáveis”, ainda que o incidente comporte a mesma marca de outras conspirações terroristas frustradas. Fontes das autoridades citadas pela BBC admitem a possibilidade de se tratar de uma acção orquestrada por “elementos internacionais”.
“Todas as opções estão em aberto”, indica uma fonte dos serviços secretos em declarações à agência britânica Press Association.
De acordo com fontes citadas pelo canal britânico Sky News, a polícia crê que o engenho explosivo poderia ser detonado por controlo remoto, através de um telemóvel. Algumas horas depois do alerta, a nova ministra britânica do Interior, Jacqui Smith, preside a uma reunião do gabinete “Cobra”, uma unidade de emergência do Governo que congrega os principais órgãos do poder executivo, os serviços de informações (MI5 e MI6) e a Scotland Yard.
A Grã-Bretanha, afirma Jacqui Smith, “enfrenta uma ameaça à segurança muito grave e muito apoiada pelo terrorismo internacional”.
Ao início da tarde, a polícia britânica fecha os acessos às artérias Oxford Street e Park Lane, perto de Hyde Park, para inspeccionar um segundo veículo suspeito num parque subterrâneo. A polícia concentra, ainda, atenções em Fleet Street, no centro da capital - a rua é também encerrada depois de os agentes serem chamados ao local para investigar um terceiro automóvel.
Dois dias depois da nomeação de Gordon Brown para o cargo de primeiro-ministro, a ameaça do terrorismo volta a sobressaltar Londres. Dentro de pouco mais de uma semana, a Grã-Bretanha assinalará o segundo aniversário dos atentados de 07 de Julho de 2005. Confrontado com o seu primeiro alerta terrorista enquanto chefe do Governo, Brown coloca a ênfase na “necessidade de manter a vigilância”.“O primeiro dever do Governo é a segurança das pessoas e, como a polícia e os serviços de segurança têm dito em numerosas ocasiões, estamos confrontados com uma ameaça à segurança constante e grave”, frisa o primeiro-ministro britânico.
O público, prossegue Gordon Brown, “deve estar alerta face a potenciais incidentes”.
Em Novembro de 2006, a então directora-geral do MI5 veio a público revelar a existência de pelo menos 30 conspirações terroristas referenciadas pelos serviços secretos. Pouco antes de deixar o cargo, Eliza Manningham-Buller indicava que os seus serviços tinham conhecimento de “cerca de 200 grupos ou redes” e de mais de 1.600 indivíduos “activamente envolvidos na preparação ou assistência a actos terroristas” na Grã-Bretanha ou “no Estrangeiro”.
O nível de ameaça terrorista na Grã-Bretanha é considerado “grave” desde 14 de Agosto de 2006.
Segunda viatura com explosivos
Ao cair da noite de sexta-feira, o chefe do comando de contra-terrorismo da Scotland Yard, Peter Clarke, confirma que a polícia detectou uma segunda viatura com uma "quantidade considerável" de explosivos estacionada nas proximidades do primeiro veículo.
O segundo carro armadilhado - um Mercedes de cor azul - foi posteriormente transportado para um parque de estacionamento subterrâneo de Park Lane, onde os agentes procederam à neutralização dos explosivos.
A descoberta, afirma Clarke, está "manifestamente ligada" aos acontecimentos da madrugada.