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Semana Internacional
Lisboa acolhe a I Cimeira entre União Europeia e Brasil, ponto de partida de uma parceria estratégica que atribui ao maior país da América do Sul um papel privilegiado na aproximação entre os 27 e o Mercosul.
Segunda-feira, 02 de Julho
A escassos cinco dias do segundo aniversário dos ataques terroristas de 07 de Julho de 2005, e depois das três tentativas falhadas de novos ataques em Londres e Glasgow, as autoridades britânicas mantêm desde sábado o nível máximo de alerta terrorista em todo o território do Reino Unido. Com uma intensa caça ao homem a ter lugar por todo o reino, a ministra britânica do Interior, Jacqui Smith, numa alocução à câmara dos comuns, comunicou o rápido progresso dos inquéritos policiais, que conduziram a novas detenções.
A mesma nota da rapidez com que estão a ser desenvolvidas as investigações era dada pelo chefe da secção antiterrorista da Scotland Yard, Peter Clarke. Novas informações caem “a cada minuto”, sublinhou. No final desta segunda-feira, o número de detidos por presumível envolvimento nos atentados frustrados de sexta-feira em Londres e sábado em Glasgow, na Escócia, já se elevava a oito.
Após a detenção de um médico jordano e a sua mulher no sábado, numa auto-estrada próximo de Liverpool, bem como dos dois ocupantes que lançaram uma viatura em chamas contra o terminal principal do aeroporto de Glasgow - também um deles médico, de nacionalidade iraquiana - e de uma quinta detenção no domingo, essa em Liverpool, o número de detidos subiu para oito com duas novas acções policiais. Uma respeitante a dois suspeitos em Glasgow e outra relativamente a um homem detido em Brisbane, na Austrália.
Os detidos estão a ser mantidos em guarda à vista e o ambiente é de profunda tensão, com o Executivo britânico a fazer reunir pela quinta vez em quatro dias o Comité Cobra, comissão que em caso de ameaça extrema à segurança nacional do Reino Unido junta os responsáveis dos principais órgãos governamentais, os serviços secretos e de informações (MI5, MI6) e a Scotland Yard. Além dos planos postos em marcha no Reino Unido, as autoridades solicitaram a colaboração de países como o Paquistão para estabelecer possíveis ligações relativamente aos suspeitos. Segundo um responsável governamental está igualmente a ser investigado o eventual envolvimento de terroristas de nacionalidade britânica.
É a luta contra um novo fôlego terrorista que está a assinalar a entrada ao serviço do recém-empossado primeiro-ministro Gordon Brown, que na passada quarta-feira tomou o lugar após uma década de governação de Tony Blair. À semelhança do que acontecera há dois anos, quando uma série de explosões no sistema de transportes abalaram a capital britânica durante a hora do rush fazendo 52 vítimas mortais - precisamente um dia depois de Londres ter sido nomeada como sede dos Jogos Olímpicos de 2012 -, também a passagem de testemunho no N.º 10 de Downing Street acabou por ser assinalada com novas tentativas de movimentos extremistas.
Trata-se da mais séria ameaça extremista em terras britânicas no último par de anos, depois de os núcleos de combate ao terrorismo terem esporadicamente assinalado importantes acções que terão frustrado outras tentativas de ataque, atribuídas a grupos fundamentalistas. Este laço aos grupos fundamentalistas com ligação à al Qaeda parece ser já um dado adquirido, tendo Gordon Brown sublinhado esse facto. “É claro para nós que estas pessoas mantêm laços com a al Qaeda”, referiu o chefe do executivo britânico, lançando contudo o apelo para que o Reino Unido “não ceda” e “não se deixe intimidar” face à ameaça que está aí para “durar”.
Já depois de o primeiro-ministro ter referido que os ataques levavam a impressão digital da al Qaeda, o novo conselheiro do chefe do Executivo britânico para a luta antiterrorista, Lord Stevens, classificou no domingo as acções falhadas de Londres e Glasgow como a importação para terras europeias dos métodos de ataque utilizados pelos grupos extremistas no Iraque e em Bali. Para Lord Stevens, esta nova onda de violência representa por esse motivo "uma escalada muito significativa da guerra lançada (contra o povo britânico) pelo terrorismo islâmico".
Logo no sábado, as autoridades estabeleceram uma relação clara entre os ataques frustrados de sexta-feira no centro de Londres e a acção que culminou com um carro em chamas a embater no principal terminal do aeroporto de Glasgow, também esta uma tentativa falhada de provocar uma explosão, o que levaria a consequências imprevisíveis. “Posso confirmar que é nossa convicção que o incidente no aeroporto está relacionado com os acontecimentos de ontem (sexta-feira)”, declarou Willie Rae, chefe da políciade Strathclyde
A tentativa de atentado no aeroporto acabava também por consubstanciar os receios das autoridades, que pediam aos seus cidadãos para “se manterem alerta”. Nessa outra acção falhada, dois homens percorreram o principal terminal do aeroporto num jipe, uma corrida que acabaria com o veículo em chamas mas sem que os ocupantes lograssem fazê-lo explodir, o que seria o objectivo da acção, já que, tal como os veículos preparados no dia anterior no centro da capital, estaria carregado com garrafas de gás.
É assim num estado de alerta máximo - a ministra Jacqui Smith sublinhou que tal significava que podia “estar iminente novo atentado” - que as autoridades britânicas estão a desenvolver múltiplas buscas por todo o território. Sinal da intensificação desta caça ao homem, é o ritmo a que que se sucederam as detenções nos últimos três dias. A responsável pela segurança interna fala em 19 locais inspeccionados pelas equipas de segurança.
À medida que eram desenvolvidas estas investigações, o Executivo reforçou as medidas de segurança nos aeroportos, nas estações de comboios e nos metropolitanos, aumentou o número de patrulhas polícias nas ruas de Londres e procurou até acautelar a normalidade em redor do Torneio de Ténis de Wimbledon. Durante o fim-de-semana, os sinais de nervosismo eram mais do que evidentes quando uma nova suspeita levou ao encerramento do aeroporto londrino de Heathrow e também do aeroporto de Liverpool.
Um pormenor que tem estado a merecer a atenção das autoridades e dos meios de comunicação tem a ver com a actividade profissional dos detidos. Os media britânicos avançavam esta segunda-feira que pelo menos cinco dos oito detidos eram médicos que entraram legalmente no país e se encontravam a exercer em hospitais do reino. A polícia apenas confirma a detenção de Mohammed J. Asha, 26 anos, médico de origem palestiniana que viaja com passaporte jordano, detido com a sua mulher na auto-estrada M6, perto de Liverpool, e Bilal Abdullah, médico iraquiano que seria um dos ocupantes do Jeep Cherokee que invadiu o aeroporto de Glasgow.
Está ainda a ser avançado que o cérebro dos ataques seria o médico jordano, colocado no Hospital de Stoke-on-Trent, em Staffordshire, Centro-Oeste, para tirar uma especialização em neurologia. Menos dados são avançados em relação a Bilal Abdullah - apenas que era clínico no Hospital Royal Alexandra de Paisley, Oeste de Glasgow, onde se encontra internado o outro ocupante do jipe, com queimaduras graves. Já ao fim do dia, foi possível identificar o oitavo detido como sendo um indivíduo de 27 anos que tentava abandonar a Austrália e seria funcionário administrativo de hospital.
Em consequência das investigações, a polícia procedeu ainda no domingo à explosão controlada de uma viatura que se encontrava no parque daquela unidade de saúde. Esta segunda-feira, agentes regressaram ao local, onde procederam a novas explosões numa segunda viatura estacionada próximo dos alojamentos do pessoal médico.
Terça-feira, 03 de Julho
O regime norte-coreano desdobra-se em sinais de abertura à via diplomática, mostrando-se inclinado a cooperar com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Num encontro em Pyongyang com o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Il, apela a todos os interlocutores do dossier nuclear para que comecem a aplicar o acordo multilateral firmado a 13 de Fevereiro em Pequim.
“Recentemente, a situação na Península Coreana conheceu alguns sinais de desanuviamento”, afirma o líder do regime norte-coreano, citado pela agência Nova China. As declarações de Kim Jong-Il, proferidas na presença do chefe da diplomacia chinesa, Yang Jiechi, parecem consubstanciar o optimismo moderado da Administração norte-americana e do seu emissário para as questões relacionadas com o programa nuclear da Coreia do Norte, o subsecretário de Estado Christopher Hill (ver síntese de 18-06 a 22-06).
Numa alusão ao acordo de Pequim, que enquadra o desmantelamento do programa nuclear e a desactivação do reactor de Yongbyon, Kim Jong-Il acrescenta: “Todas as partes devem pôr em prática as acções iniciais”.
Após o encontro, o chefe da diplomacia chinesa adopta a mesma linguagem diplomática, afirmando esperar que as seis partes envolvidas nas discussões sobre o dossier nuclear norte-coreano (China, Japão, Estados Unidos, Rússia, Coreia do Sul e Coreia do Norte) continuem a “tomar medidas positivas, a aplicar seriamente os seus compromissos e a pôr totalmente em prática as acções iniciais de uma forma equilibrada”, sublinha Yang Jiechi.
Na letra do acordo de 16 de Fevereiro, a Coreia do Norte comprometeu-se a encerrar o complexo de Yongbyon (estrutura do época soviética situada 130 quilómetros a Norte de Pyongyang) em troca de remessas de combustível - 50 mil toneladas numa primeira fase e 900 mil toneladas suplementares depois de a AIEA verificar a supressão integral dos projectos de armamento nuclear.
A reunião entre Kim Jong-Il e o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros ocorre na sequência do regresso dos inspectores da AIEA à Coreia do Norte. No sábado, os inspectores anunciavam ter definido com os responsáveis do regime os procedimentos de supervisão do encerramento de Yongbyon, pilar do programa nuclear. Falta, contudo, fixar uma data para os primeiros passos do desarmamento.
A menos de uma semana da próxima reunião do conselho de governadores da AIEA, o director-geral da Agência da ONU, Mohamed ElBaradei, adianta que vai recomendar uma nova missão dos inspectores a território norte-coreano. Antes disso, porém, os cinco interlocutores da Coreia do Norte terão de estabelecer um calendário para o desmantelamento do complexo de Yongbyon.
A par dos sinais de progressos, surgem dados contraditórios que poderão indiciar mais atrasos. Segundo a agência Reuters, alguns responsáveis de Washington não escondem a sua preocupação face a novas exigências por parte da Coreia do Norte, que pretenderá, agora, começar a receber os carregamentos de combustível antes de encerrar o reactor.
Os 35 membros do conselho de governadores da AIEA recebem, terça-feira, um relatório confidencial de ElBaradei sobre os resultados dos cinco dias da visita preparatória dos inspectores à Coreia do Norte. O documento, cujos contornos são revelados pela Reuters, define também um roteiro de 11 capítulos para a verificação do desarmamento do regime.
Fontes diplomáticas em Berlim indicam, por seu turno, à France Presse que o regime se mostra preparado para uma ampla cooperação com a AIEA.
Para além de reiterar à Agência a intenção de encerrar o reactor de Yongbyon, a Coreia do Norte promete facultar aos inspectores o acesso a todas as instalações do complexo, incluindo as unidades de processamento de plutónio e produção de combustível nuclear, um reactor de 50 megawatts ainda em construção e laboratórios de pesquisa. Ademais, os inspectores poderão documentar, através de fotografia ou vídeo, todas as informações sobre os planos de construção das estruturas desmanteladas.
O documento de ElBaradei, que terá de ser aprovado pelo conselho de governadores na reunião de 09 de Julho, produz uma estimativa dos custos da futura missão dos inspectores: 1.7 milhões de euros este ano e 2.2 milhões de euros em 2008.
Quarta-feira, 04 de Julho
Brasil e UE lançam, em Lisboa, os alicerces de uma parceria estratégica que confere ao maior país da América do Sul um papel de destaque na aproximação do bloco europeu ao Mercosul. A I Cimeira entre União Europeia e Brasil é o primeiro marco histórico da presidência portuguesa, iniciada a 01 de Julho.
A agenda da Cimeira de Lisboa, primeira etapa de uma parceria equiparável aos estatutos atribuídos a países como China e Rússia, compreendia três capítulos de peso: a aproximação da União Europeia ao mercado comum da América Latina, elegendo o Brasil como interlocutor privilegiado, o impasse em torno da Ronda de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a capitalização da liderança brasileira no domínio dos biocombustíveis.
Todos os protagonistas do encontro de Lisboa são unânimes em apontar o sucesso das conversações. A parceria estratégica agora lançada afigura-se, para europeus e brasileiros, essencial no reforço das relações comerciais com a América do Sul. E poderá catapultar as bloqueadas negociações da Ronda de Doha, como sublinha o Presidente brasileiro no final da Cimeira.
“Precisamos de forma muito madura voltar a sentarmo-nos à mesa. Com certeza que o Brasil terá cartas na manga, assim como outros países terão”, afirma Luiz Inácio Lula da Silva, prometendo envidar todos os esforços para obter um “acordo em que os países mais pobres tenham um pequeno ganho”.
Na mesma linha, o primeiro-ministro português e presidente em exercício do Conselho de líderes dos 27 assinala que o encontro de Lisboa lega uma “mensagem positiva” no que diz respeito às negociações sobre a liberalização do comércio mundial. Europeus e brasileiros, enfatiza José Sócrates, “não desistem de alcançar o sucesso das negociações”.
O impasse das negociações no quadro da OMC assenta em dissonâncias de fundo sobre questões como os subsídios agrícolas na União Europeia e nos Estados Unidos. As últimas conversações no âmbito da Ronda de Doha, realizadas em Potsdam, Alemanha, acabaram com a saída de brasileiros e indianos, avessos à concorrência desleal promovida pelos subsídios atribuídos aos produtores europeus e norte-americanos.
Em Lisboa, Lula da Silva retoma os argumentos que levaram o Brasil a abandonar a mesa das negociações em Potsdam: “Se comprador e vendedor saírem de um negócio com a convicção de que ambos receberam o que era justo, então o acordo é bom. Mas se uns tiverem de fazer mais cedências do que outros, então teremos dificuldade em fazer um acordo”.
Segundo Sócrates, a Ronda de Doha terá de culminar com “um resultado benéfico para uma regulação equilibrada e justa da globalização”, tendo presente “a necessidade de se procurar um equilíbrio entre maior liberdade económica e desenvolvimento e maior espaço de afirmação para os países em desenvolvimento”.
Sócrates e Lula da Silva convergem, também, quanto ao significado da parceria estabelecida na capital portuguesa.
“A parceria estratégica entre a União Europeia e o Brasil e, com certeza, entre a UE e o Mercosul vão permitir que as coisas que funcionam bem continuem bem e as que não funcionam bem sejam aperfeiçoadas”, sustenta o Presidente brasileiro.
Depois de vincar a concretização de uma das prioridades estabelecidas pela presidência portuguesa, José Sócrates afirma que “a política externa da UE sai mais enriquecida em profundidade, mais enriquecida em coerência e mais enriquecida no seu alcance”.
“Há um novo capítulo que se abre entre a UE e o Brasil, uma potência cada vez mais relevante no Mundo”, considera, por sua vez, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.
Questionados sobre eventuais escolhos levantados pelos demais países da América do Sul à nova parceria estratégica com o Brasil, o primeiro-ministro português e o Presidente brasileiro apressam-se a descartar um cenário de ressentimento.
Na condição de maior país da América do Sul, o Brasil “não poderia deixar de ser a trave mestra nesta relação”, advoga Sócrates.
Já Lula da Silva compromete-se a fazer chegar aos parceiros sul-americanos a mensagem “de que o acordo poderá ser benéfico para todos”. “As parcerias com empresários europeus são importantes para nós”, acrescenta.
À margem da Cimeira – e para vincar a abertura do bloco europeu ao investimento no sector de biocombustíveis – a Galp Energia e a brasileira Petrobras assinam um acordo para a produção de biodiesel nas refinarias da empresa portuguesa com base em óleos vegetais do Brasil. No âmbito do acordo de joint-venture, que enquadra a criação de “uma sociedade detida em 50 por cento por cada uma das empresas, serão produzidas 600 mil toneladas/ano de óleos vegetais. O investimento ascende a 350 milhões de euros.
“Ou diminuímos as emissões de gás ou criamos um novo combustível para resolver o problema. Em menos de 20 anos o biocombustível será a principal matriz energética”, defende o Presidente do Brasil.
Para além do primeiro-ministro português e do presidente da Comissão Europeia, a UE esteve representada em Lisboa pelo alto representante para a Política Externa, Javier Solana, e pelo comissário para o Comércio, Peter Mandelson. À mesa dos trabalhos estiveram ainda o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, o chefe do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, a chanceler alemã, Angela Merkel, e os primeiros-ministros de Itália, Romano Prodi, da Eslovénia, Janez Jansa, e da Holanda, Jan Peter Balkenende.
A Cimeira terminou com um banquete no Centro Cultural de Belém oferecido pelo Presidente da República, Cavaco Silva.
Quinta-feira, 05 de Julho
O nexo entre os recursos petrolíferos do Iraque e o envolvimento da Austrália no esforço de guerra agita os meandros políticos de Camberra. Em declarações inéditas, o ministro australiano da Defesa reconhece que a protecção dos aprovisionamentos de petróleo é um factor-chave na base do envolvimento militar. O primeiro-ministro australiano apressa-se a emendar as afirmações de Brendan Nelson, mas não escapa às críticas da Oposição.
As declarações do titular da pasta da Defesa no Executivo australiano surgem a par da apresentação de um relatório sobre as prioridades estratégicas das estruturas militares da Austrália. Numa entrevista à cadeia australiana ABC, Brendan Nelson estabelece, pela primeira vez, uma ligação entre o destacamento de tropas para o Iraque e as reservas de combustíveis fósseis daquele país.
“A actualização da nossa estratégia de defesa, que hoje publicamos, define várias prioridades para a defesa da segurança da Austrália e assegurar recursos é uma delas”, começa por afirmar o governante.
“Evidentemente, o Médio Oriente - não apenas o Iraque, mas toda a região – é um importante fornecedor de energia, em particular de petróleo, para o resto do Mundo”, propugna Brendan Nelson, acrescentando que “qualquer retirada prematura do Iraque deve ser objecto de reflexão”.
A “segurança energética” figura, de acordo com Nelson, entre os principais fundamentos da política de Camberra para o Iraque e o Médio Oriente, a par da violência sectária entre sunitas e xiitas e do combate ao terrorismo. “Por todas estas razões, entre as quais a segurança energética, é extremamente importante que a Austrália esteja consciente de que é do nosso interesse garantir uma saída do Médio Oriente, particularmente do Iraque, numa situação de segurança duradoura”.
Para o ministro da Defesa, a perspectiva de eleições legislativas, previstas para o final do ano, não terá qualquer influência nas opções militares da Austrália, que continuarão a privilegiar o Iraque enquanto isso se revelar necessário.
O primeiro-ministro australiano não tarda em emendar a mão. Em conferência de imprensa, o conservador John Howard, um dos mais fiéis aliados da Administração norte-americana, garante que a Austrália “não está (no Iraque) por causa do petróleo”.
As explicações do chefe do Governo não convencem, no entanto, os actores políticos no campo da Oposição. É o caso do líder trabalhista Kevin Rudd, para quem o Governo de Howard “vai inventando à medida que avança no Iraque”.
Envolvida nas operações do Iraque desde 2003, a Austrália mantém naquele país um contingente de 1.575 operacionais.
Sexta-feira, 06 de Julho
Concluído o escrutínio das legislativas de Timor-Leste, vencedores e vencidos continuam a medir forças num combate político pelo poder executivo. Quatro partidos timorenses congregam-se numa coligação para obstar à formação de um Governo da FRETILIN, a formação que venceu sem maioria absoluta as eleições de 30 de Junho.
A aliança para “uma nova maioria” é formalizada na sexta-feira, um dia depois de a Comissão Nacional de Eleições ter anunciado os resultados finais, ainda com carácter provisório – o escrutínio terá de ser validado pelo Tribunal de Recurso.
A FRETILIN, de Mari Alkatiri e Francisco Guterres “Lu Olo”, foi a formação mais votada, mas não foi além de uma maioria relativa de 29 por cento. Com o ex-Presidente Xanana Gusmão a encabeçar a lista para as legislativas, o Congresso Nacional de Reconstrução de Timor-Leste (CNRT) obteve 24 por cento dos votos, seguido da Coligação Aliança Democrática (ASDT/PSD), com 15,7 por cento, e do Partido Democrático (PD), com 11,3 por cento. Em quinto lugar surge o Partido de Unidade Nacional (PUN), que obteve 4,5 por cento.
CNRT, ASDT/PSD e PD formam agora uma coligação pós-eleitoral para impedir o partido de Alkatiri de formar o próximo executivo timorense. A aliança, apoiada pelo PUN, de Fernanda Borges, é anunciada em conferência de imprensa pelos líderes dos quatro partidos, Xanana Gusmão, Francisco Xavier do Amaral, Mário Carrascalão e Fernando “La Sama” de Araújo. Juntas, as quatro forças políticas reúnem mais de 50 por cento dos votos, formando uma maioria parlamentar consolidada.
Na antecâmara da assinatura do acordo de coligação, o líder dos sociais-democratas timorenses, Mário Carrascalão, resumia, em declarações à agência Lusa, os argumentos na base da aliança: “Podemos garantir a estabilidade que a FRETILIN não pode”.
Para o secretário-geral do partido vencedor, o acordo de coligação põe em causa o “veredicto popular”.
“Numa situação normal, todos aqueles que aceitaram ir para o veredicto popular deveriam respeitá-lo. O que significa esperar que o partido mais votado tome iniciativas para ver quais as alianças que quer fazer e não curto-circuitar essa possibilidade, frustrando as expectativas do eleitorado”, afirma o secretário-geral da FRETILIN e antigo primeiro-ministro, Mari Alkatiri.
Na quinta-feira, logo após a divulgação dos resultados, Alkatiri fora lesto em rejeitar um cenário de coligação com o CNRT, advogando que tal solução governativa seria o equivalente a “matar a democracia”. “Não abdicamos da vitória, em qualquer cenário”, disse.
Vinte e quatro horas depois, o discurso do dirigente da FRETILIN apresenta-se mais flexível, mantendo a porta entreaberta a uma eventual aliança que inclua o partido de Xanana Gusmão.
“O CNRT é um partido como qualquer outro e, se estamos abertos a todos os partidos, não podemos fechar as portas a nenhum, muito menos ao que obteve o segundo lugar. Mas é bom não personalizar os partidos, não identificar os partidos com pessoas”, afirma Mari Alkatiri.
Pouco depois da conferência de imprensa no Hotel Timor, a coligação para “uma nova maioria” apresenta a sua solução de governo ao Presidente da República, Ramos-Horta.
“Estamos prontos a formar governo e concordamos com o Presidente da República, que a decisão tem que ser imediata”, propugna o presidente do conselho nacional do PSD, Zacarias da Costa, citado pela Lusa. O dirigente insiste na urgência de encetar os trabalhos do novo Parlamento, “devido à crise”.
O Chefe de Estado timorense coloca, para já, a ênfase no carácter “informal” das últimas consultas. E deixa claro que há “duas possibilidades em aberto” para a constituição do IV Governo Constitucional de Timor-Leste. “Se os partidos conseguirem entender-se e ter uma solução que saia deles todos, o Presidente da República aceitará”.
“Ontem reuni com a direcção da FRETILIN e amanhã vou reunir com os bispos (de Díli e Baucau) e depois, provavelmente, voltarei a estar com a FRETILIN. Na próxima semana tomarei uma decisão”, indica Ramos-Horta.
Resultados
FRETILIN (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) - 29,0 por cento
CNRT (Congresso Nacional de Reconstrução de Timor-Leste) - 24,0 por cento
ASDT/PSD (Associação Social Democrática Timorense/Partido Social-Democrata) - 15,7 por cento
PD (Partido Democrático) - 11,3 por cento
PUN (Partido da Unidade Nacional) - 4,5 por cento
AD-KOTA/PPT (Aliança Democrática – Partido KOTA/Partido Popular Timorense) - 3,1 por cento
UNDERTIM (Unidade Nacional da Resistência Timorense) - 3,1 por cento
PNT (Partido Nacionalista Timorense) - 2,4 por cento
PDRT (Partido Democrático República de Timor) - 1,8 por cento
PR (Partido Republicano) - 1,1 por cento
PDC (Partido Democrata Cristão) - 1,0 por cento
PST (Partido Socialista de Timor) - 0,9 por cento
UDT (União Democrática Timorense) - 0,8 por cento
PMD (Partido Milenium Democrático) - 0,6 por cento
A escassos cinco dias do segundo aniversário dos ataques terroristas de 07 de Julho de 2005, e depois das três tentativas falhadas de novos ataques em Londres e Glasgow, as autoridades britânicas mantêm desde sábado o nível máximo de alerta terrorista em todo o território do Reino Unido. Com uma intensa caça ao homem a ter lugar por todo o reino, a ministra britânica do Interior, Jacqui Smith, numa alocução à câmara dos comuns, comunicou o rápido progresso dos inquéritos policiais, que conduziram a novas detenções.A mesma nota da rapidez com que estão a ser desenvolvidas as investigações era dada pelo chefe da secção antiterrorista da Scotland Yard, Peter Clarke. Novas informações caem “a cada minuto”, sublinhou. No final desta segunda-feira, o número de detidos por presumível envolvimento nos atentados frustrados de sexta-feira em Londres e sábado em Glasgow, na Escócia, já se elevava a oito.
Após a detenção de um médico jordano e a sua mulher no sábado, numa auto-estrada próximo de Liverpool, bem como dos dois ocupantes que lançaram uma viatura em chamas contra o terminal principal do aeroporto de Glasgow - também um deles médico, de nacionalidade iraquiana - e de uma quinta detenção no domingo, essa em Liverpool, o número de detidos subiu para oito com duas novas acções policiais. Uma respeitante a dois suspeitos em Glasgow e outra relativamente a um homem detido em Brisbane, na Austrália.
Os detidos estão a ser mantidos em guarda à vista e o ambiente é de profunda tensão, com o Executivo britânico a fazer reunir pela quinta vez em quatro dias o Comité Cobra, comissão que em caso de ameaça extrema à segurança nacional do Reino Unido junta os responsáveis dos principais órgãos governamentais, os serviços secretos e de informações (MI5, MI6) e a Scotland Yard. Além dos planos postos em marcha no Reino Unido, as autoridades solicitaram a colaboração de países como o Paquistão para estabelecer possíveis ligações relativamente aos suspeitos. Segundo um responsável governamental está igualmente a ser investigado o eventual envolvimento de terroristas de nacionalidade britânica.
É a luta contra um novo fôlego terrorista que está a assinalar a entrada ao serviço do recém-empossado primeiro-ministro Gordon Brown, que na passada quarta-feira tomou o lugar após uma década de governação de Tony Blair. À semelhança do que acontecera há dois anos, quando uma série de explosões no sistema de transportes abalaram a capital britânica durante a hora do rush fazendo 52 vítimas mortais - precisamente um dia depois de Londres ter sido nomeada como sede dos Jogos Olímpicos de 2012 -, também a passagem de testemunho no N.º 10 de Downing Street acabou por ser assinalada com novas tentativas de movimentos extremistas.
Trata-se da mais séria ameaça extremista em terras britânicas no último par de anos, depois de os núcleos de combate ao terrorismo terem esporadicamente assinalado importantes acções que terão frustrado outras tentativas de ataque, atribuídas a grupos fundamentalistas. Este laço aos grupos fundamentalistas com ligação à al Qaeda parece ser já um dado adquirido, tendo Gordon Brown sublinhado esse facto. “É claro para nós que estas pessoas mantêm laços com a al Qaeda”, referiu o chefe do executivo britânico, lançando contudo o apelo para que o Reino Unido “não ceda” e “não se deixe intimidar” face à ameaça que está aí para “durar”.
Já depois de o primeiro-ministro ter referido que os ataques levavam a impressão digital da al Qaeda, o novo conselheiro do chefe do Executivo britânico para a luta antiterrorista, Lord Stevens, classificou no domingo as acções falhadas de Londres e Glasgow como a importação para terras europeias dos métodos de ataque utilizados pelos grupos extremistas no Iraque e em Bali. Para Lord Stevens, esta nova onda de violência representa por esse motivo "uma escalada muito significativa da guerra lançada (contra o povo britânico) pelo terrorismo islâmico".Logo no sábado, as autoridades estabeleceram uma relação clara entre os ataques frustrados de sexta-feira no centro de Londres e a acção que culminou com um carro em chamas a embater no principal terminal do aeroporto de Glasgow, também esta uma tentativa falhada de provocar uma explosão, o que levaria a consequências imprevisíveis. “Posso confirmar que é nossa convicção que o incidente no aeroporto está relacionado com os acontecimentos de ontem (sexta-feira)”, declarou Willie Rae, chefe da políciade Strathclyde
A tentativa de atentado no aeroporto acabava também por consubstanciar os receios das autoridades, que pediam aos seus cidadãos para “se manterem alerta”. Nessa outra acção falhada, dois homens percorreram o principal terminal do aeroporto num jipe, uma corrida que acabaria com o veículo em chamas mas sem que os ocupantes lograssem fazê-lo explodir, o que seria o objectivo da acção, já que, tal como os veículos preparados no dia anterior no centro da capital, estaria carregado com garrafas de gás.É assim num estado de alerta máximo - a ministra Jacqui Smith sublinhou que tal significava que podia “estar iminente novo atentado” - que as autoridades britânicas estão a desenvolver múltiplas buscas por todo o território. Sinal da intensificação desta caça ao homem, é o ritmo a que que se sucederam as detenções nos últimos três dias. A responsável pela segurança interna fala em 19 locais inspeccionados pelas equipas de segurança.
À medida que eram desenvolvidas estas investigações, o Executivo reforçou as medidas de segurança nos aeroportos, nas estações de comboios e nos metropolitanos, aumentou o número de patrulhas polícias nas ruas de Londres e procurou até acautelar a normalidade em redor do Torneio de Ténis de Wimbledon. Durante o fim-de-semana, os sinais de nervosismo eram mais do que evidentes quando uma nova suspeita levou ao encerramento do aeroporto londrino de Heathrow e também do aeroporto de Liverpool.
Um pormenor que tem estado a merecer a atenção das autoridades e dos meios de comunicação tem a ver com a actividade profissional dos detidos. Os media britânicos avançavam esta segunda-feira que pelo menos cinco dos oito detidos eram médicos que entraram legalmente no país e se encontravam a exercer em hospitais do reino. A polícia apenas confirma a detenção de Mohammed J. Asha, 26 anos, médico de origem palestiniana que viaja com passaporte jordano, detido com a sua mulher na auto-estrada M6, perto de Liverpool, e Bilal Abdullah, médico iraquiano que seria um dos ocupantes do Jeep Cherokee que invadiu o aeroporto de Glasgow.
Está ainda a ser avançado que o cérebro dos ataques seria o médico jordano, colocado no Hospital de Stoke-on-Trent, em Staffordshire, Centro-Oeste, para tirar uma especialização em neurologia. Menos dados são avançados em relação a Bilal Abdullah - apenas que era clínico no Hospital Royal Alexandra de Paisley, Oeste de Glasgow, onde se encontra internado o outro ocupante do jipe, com queimaduras graves. Já ao fim do dia, foi possível identificar o oitavo detido como sendo um indivíduo de 27 anos que tentava abandonar a Austrália e seria funcionário administrativo de hospital.
Em consequência das investigações, a polícia procedeu ainda no domingo à explosão controlada de uma viatura que se encontrava no parque daquela unidade de saúde. Esta segunda-feira, agentes regressaram ao local, onde procederam a novas explosões numa segunda viatura estacionada próximo dos alojamentos do pessoal médico.
Terça-feira, 03 de Julho
O regime norte-coreano desdobra-se em sinais de abertura à via diplomática, mostrando-se inclinado a cooperar com a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Num encontro em Pyongyang com o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Il, apela a todos os interlocutores do dossier nuclear para que comecem a aplicar o acordo multilateral firmado a 13 de Fevereiro em Pequim.“Recentemente, a situação na Península Coreana conheceu alguns sinais de desanuviamento”, afirma o líder do regime norte-coreano, citado pela agência Nova China. As declarações de Kim Jong-Il, proferidas na presença do chefe da diplomacia chinesa, Yang Jiechi, parecem consubstanciar o optimismo moderado da Administração norte-americana e do seu emissário para as questões relacionadas com o programa nuclear da Coreia do Norte, o subsecretário de Estado Christopher Hill (ver síntese de 18-06 a 22-06).
Numa alusão ao acordo de Pequim, que enquadra o desmantelamento do programa nuclear e a desactivação do reactor de Yongbyon, Kim Jong-Il acrescenta: “Todas as partes devem pôr em prática as acções iniciais”.
Após o encontro, o chefe da diplomacia chinesa adopta a mesma linguagem diplomática, afirmando esperar que as seis partes envolvidas nas discussões sobre o dossier nuclear norte-coreano (China, Japão, Estados Unidos, Rússia, Coreia do Sul e Coreia do Norte) continuem a “tomar medidas positivas, a aplicar seriamente os seus compromissos e a pôr totalmente em prática as acções iniciais de uma forma equilibrada”, sublinha Yang Jiechi.
Na letra do acordo de 16 de Fevereiro, a Coreia do Norte comprometeu-se a encerrar o complexo de Yongbyon (estrutura do época soviética situada 130 quilómetros a Norte de Pyongyang) em troca de remessas de combustível - 50 mil toneladas numa primeira fase e 900 mil toneladas suplementares depois de a AIEA verificar a supressão integral dos projectos de armamento nuclear.A reunião entre Kim Jong-Il e o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros ocorre na sequência do regresso dos inspectores da AIEA à Coreia do Norte. No sábado, os inspectores anunciavam ter definido com os responsáveis do regime os procedimentos de supervisão do encerramento de Yongbyon, pilar do programa nuclear. Falta, contudo, fixar uma data para os primeiros passos do desarmamento.
A menos de uma semana da próxima reunião do conselho de governadores da AIEA, o director-geral da Agência da ONU, Mohamed ElBaradei, adianta que vai recomendar uma nova missão dos inspectores a território norte-coreano. Antes disso, porém, os cinco interlocutores da Coreia do Norte terão de estabelecer um calendário para o desmantelamento do complexo de Yongbyon.
A par dos sinais de progressos, surgem dados contraditórios que poderão indiciar mais atrasos. Segundo a agência Reuters, alguns responsáveis de Washington não escondem a sua preocupação face a novas exigências por parte da Coreia do Norte, que pretenderá, agora, começar a receber os carregamentos de combustível antes de encerrar o reactor.
Os 35 membros do conselho de governadores da AIEA recebem, terça-feira, um relatório confidencial de ElBaradei sobre os resultados dos cinco dias da visita preparatória dos inspectores à Coreia do Norte. O documento, cujos contornos são revelados pela Reuters, define também um roteiro de 11 capítulos para a verificação do desarmamento do regime.Fontes diplomáticas em Berlim indicam, por seu turno, à France Presse que o regime se mostra preparado para uma ampla cooperação com a AIEA.
Para além de reiterar à Agência a intenção de encerrar o reactor de Yongbyon, a Coreia do Norte promete facultar aos inspectores o acesso a todas as instalações do complexo, incluindo as unidades de processamento de plutónio e produção de combustível nuclear, um reactor de 50 megawatts ainda em construção e laboratórios de pesquisa. Ademais, os inspectores poderão documentar, através de fotografia ou vídeo, todas as informações sobre os planos de construção das estruturas desmanteladas.
O documento de ElBaradei, que terá de ser aprovado pelo conselho de governadores na reunião de 09 de Julho, produz uma estimativa dos custos da futura missão dos inspectores: 1.7 milhões de euros este ano e 2.2 milhões de euros em 2008.
Quarta-feira, 04 de Julho
Brasil e UE lançam, em Lisboa, os alicerces de uma parceria estratégica que confere ao maior país da América do Sul um papel de destaque na aproximação do bloco europeu ao Mercosul. A I Cimeira entre União Europeia e Brasil é o primeiro marco histórico da presidência portuguesa, iniciada a 01 de Julho.A agenda da Cimeira de Lisboa, primeira etapa de uma parceria equiparável aos estatutos atribuídos a países como China e Rússia, compreendia três capítulos de peso: a aproximação da União Europeia ao mercado comum da América Latina, elegendo o Brasil como interlocutor privilegiado, o impasse em torno da Ronda de Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a capitalização da liderança brasileira no domínio dos biocombustíveis.
Todos os protagonistas do encontro de Lisboa são unânimes em apontar o sucesso das conversações. A parceria estratégica agora lançada afigura-se, para europeus e brasileiros, essencial no reforço das relações comerciais com a América do Sul. E poderá catapultar as bloqueadas negociações da Ronda de Doha, como sublinha o Presidente brasileiro no final da Cimeira.
“Precisamos de forma muito madura voltar a sentarmo-nos à mesa. Com certeza que o Brasil terá cartas na manga, assim como outros países terão”, afirma Luiz Inácio Lula da Silva, prometendo envidar todos os esforços para obter um “acordo em que os países mais pobres tenham um pequeno ganho”.Na mesma linha, o primeiro-ministro português e presidente em exercício do Conselho de líderes dos 27 assinala que o encontro de Lisboa lega uma “mensagem positiva” no que diz respeito às negociações sobre a liberalização do comércio mundial. Europeus e brasileiros, enfatiza José Sócrates, “não desistem de alcançar o sucesso das negociações”.
O impasse das negociações no quadro da OMC assenta em dissonâncias de fundo sobre questões como os subsídios agrícolas na União Europeia e nos Estados Unidos. As últimas conversações no âmbito da Ronda de Doha, realizadas em Potsdam, Alemanha, acabaram com a saída de brasileiros e indianos, avessos à concorrência desleal promovida pelos subsídios atribuídos aos produtores europeus e norte-americanos.
Em Lisboa, Lula da Silva retoma os argumentos que levaram o Brasil a abandonar a mesa das negociações em Potsdam: “Se comprador e vendedor saírem de um negócio com a convicção de que ambos receberam o que era justo, então o acordo é bom. Mas se uns tiverem de fazer mais cedências do que outros, então teremos dificuldade em fazer um acordo”.
Segundo Sócrates, a Ronda de Doha terá de culminar com “um resultado benéfico para uma regulação equilibrada e justa da globalização”, tendo presente “a necessidade de se procurar um equilíbrio entre maior liberdade económica e desenvolvimento e maior espaço de afirmação para os países em desenvolvimento”.Sócrates e Lula da Silva convergem, também, quanto ao significado da parceria estabelecida na capital portuguesa.
“A parceria estratégica entre a União Europeia e o Brasil e, com certeza, entre a UE e o Mercosul vão permitir que as coisas que funcionam bem continuem bem e as que não funcionam bem sejam aperfeiçoadas”, sustenta o Presidente brasileiro.
Depois de vincar a concretização de uma das prioridades estabelecidas pela presidência portuguesa, José Sócrates afirma que “a política externa da UE sai mais enriquecida em profundidade, mais enriquecida em coerência e mais enriquecida no seu alcance”.
“Há um novo capítulo que se abre entre a UE e o Brasil, uma potência cada vez mais relevante no Mundo”, considera, por sua vez, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.
Questionados sobre eventuais escolhos levantados pelos demais países da América do Sul à nova parceria estratégica com o Brasil, o primeiro-ministro português e o Presidente brasileiro apressam-se a descartar um cenário de ressentimento.
Na condição de maior país da América do Sul, o Brasil “não poderia deixar de ser a trave mestra nesta relação”, advoga Sócrates.
Já Lula da Silva compromete-se a fazer chegar aos parceiros sul-americanos a mensagem “de que o acordo poderá ser benéfico para todos”. “As parcerias com empresários europeus são importantes para nós”, acrescenta.
À margem da Cimeira – e para vincar a abertura do bloco europeu ao investimento no sector de biocombustíveis – a Galp Energia e a brasileira Petrobras assinam um acordo para a produção de biodiesel nas refinarias da empresa portuguesa com base em óleos vegetais do Brasil. No âmbito do acordo de joint-venture, que enquadra a criação de “uma sociedade detida em 50 por cento por cada uma das empresas, serão produzidas 600 mil toneladas/ano de óleos vegetais. O investimento ascende a 350 milhões de euros.
“Ou diminuímos as emissões de gás ou criamos um novo combustível para resolver o problema. Em menos de 20 anos o biocombustível será a principal matriz energética”, defende o Presidente do Brasil.
Para além do primeiro-ministro português e do presidente da Comissão Europeia, a UE esteve representada em Lisboa pelo alto representante para a Política Externa, Javier Solana, e pelo comissário para o Comércio, Peter Mandelson. À mesa dos trabalhos estiveram ainda o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, o chefe do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, a chanceler alemã, Angela Merkel, e os primeiros-ministros de Itália, Romano Prodi, da Eslovénia, Janez Jansa, e da Holanda, Jan Peter Balkenende.A Cimeira terminou com um banquete no Centro Cultural de Belém oferecido pelo Presidente da República, Cavaco Silva.
Quinta-feira, 05 de Julho
O nexo entre os recursos petrolíferos do Iraque e o envolvimento da Austrália no esforço de guerra agita os meandros políticos de Camberra. Em declarações inéditas, o ministro australiano da Defesa reconhece que a protecção dos aprovisionamentos de petróleo é um factor-chave na base do envolvimento militar. O primeiro-ministro australiano apressa-se a emendar as afirmações de Brendan Nelson, mas não escapa às críticas da Oposição.As declarações do titular da pasta da Defesa no Executivo australiano surgem a par da apresentação de um relatório sobre as prioridades estratégicas das estruturas militares da Austrália. Numa entrevista à cadeia australiana ABC, Brendan Nelson estabelece, pela primeira vez, uma ligação entre o destacamento de tropas para o Iraque e as reservas de combustíveis fósseis daquele país.
“A actualização da nossa estratégia de defesa, que hoje publicamos, define várias prioridades para a defesa da segurança da Austrália e assegurar recursos é uma delas”, começa por afirmar o governante.
“Evidentemente, o Médio Oriente - não apenas o Iraque, mas toda a região – é um importante fornecedor de energia, em particular de petróleo, para o resto do Mundo”, propugna Brendan Nelson, acrescentando que “qualquer retirada prematura do Iraque deve ser objecto de reflexão”.
A “segurança energética” figura, de acordo com Nelson, entre os principais fundamentos da política de Camberra para o Iraque e o Médio Oriente, a par da violência sectária entre sunitas e xiitas e do combate ao terrorismo. “Por todas estas razões, entre as quais a segurança energética, é extremamente importante que a Austrália esteja consciente de que é do nosso interesse garantir uma saída do Médio Oriente, particularmente do Iraque, numa situação de segurança duradoura”.
Para o ministro da Defesa, a perspectiva de eleições legislativas, previstas para o final do ano, não terá qualquer influência nas opções militares da Austrália, que continuarão a privilegiar o Iraque enquanto isso se revelar necessário.
O primeiro-ministro australiano não tarda em emendar a mão. Em conferência de imprensa, o conservador John Howard, um dos mais fiéis aliados da Administração norte-americana, garante que a Austrália “não está (no Iraque) por causa do petróleo”.
As explicações do chefe do Governo não convencem, no entanto, os actores políticos no campo da Oposição. É o caso do líder trabalhista Kevin Rudd, para quem o Governo de Howard “vai inventando à medida que avança no Iraque”.
Envolvida nas operações do Iraque desde 2003, a Austrália mantém naquele país um contingente de 1.575 operacionais.
Sexta-feira, 06 de Julho
Concluído o escrutínio das legislativas de Timor-Leste, vencedores e vencidos continuam a medir forças num combate político pelo poder executivo. Quatro partidos timorenses congregam-se numa coligação para obstar à formação de um Governo da FRETILIN, a formação que venceu sem maioria absoluta as eleições de 30 de Junho.A aliança para “uma nova maioria” é formalizada na sexta-feira, um dia depois de a Comissão Nacional de Eleições ter anunciado os resultados finais, ainda com carácter provisório – o escrutínio terá de ser validado pelo Tribunal de Recurso.
A FRETILIN, de Mari Alkatiri e Francisco Guterres “Lu Olo”, foi a formação mais votada, mas não foi além de uma maioria relativa de 29 por cento. Com o ex-Presidente Xanana Gusmão a encabeçar a lista para as legislativas, o Congresso Nacional de Reconstrução de Timor-Leste (CNRT) obteve 24 por cento dos votos, seguido da Coligação Aliança Democrática (ASDT/PSD), com 15,7 por cento, e do Partido Democrático (PD), com 11,3 por cento. Em quinto lugar surge o Partido de Unidade Nacional (PUN), que obteve 4,5 por cento.
CNRT, ASDT/PSD e PD formam agora uma coligação pós-eleitoral para impedir o partido de Alkatiri de formar o próximo executivo timorense. A aliança, apoiada pelo PUN, de Fernanda Borges, é anunciada em conferência de imprensa pelos líderes dos quatro partidos, Xanana Gusmão, Francisco Xavier do Amaral, Mário Carrascalão e Fernando “La Sama” de Araújo. Juntas, as quatro forças políticas reúnem mais de 50 por cento dos votos, formando uma maioria parlamentar consolidada.Na antecâmara da assinatura do acordo de coligação, o líder dos sociais-democratas timorenses, Mário Carrascalão, resumia, em declarações à agência Lusa, os argumentos na base da aliança: “Podemos garantir a estabilidade que a FRETILIN não pode”.
Para o secretário-geral do partido vencedor, o acordo de coligação põe em causa o “veredicto popular”.
“Numa situação normal, todos aqueles que aceitaram ir para o veredicto popular deveriam respeitá-lo. O que significa esperar que o partido mais votado tome iniciativas para ver quais as alianças que quer fazer e não curto-circuitar essa possibilidade, frustrando as expectativas do eleitorado”, afirma o secretário-geral da FRETILIN e antigo primeiro-ministro, Mari Alkatiri.Na quinta-feira, logo após a divulgação dos resultados, Alkatiri fora lesto em rejeitar um cenário de coligação com o CNRT, advogando que tal solução governativa seria o equivalente a “matar a democracia”. “Não abdicamos da vitória, em qualquer cenário”, disse.
Vinte e quatro horas depois, o discurso do dirigente da FRETILIN apresenta-se mais flexível, mantendo a porta entreaberta a uma eventual aliança que inclua o partido de Xanana Gusmão.
“O CNRT é um partido como qualquer outro e, se estamos abertos a todos os partidos, não podemos fechar as portas a nenhum, muito menos ao que obteve o segundo lugar. Mas é bom não personalizar os partidos, não identificar os partidos com pessoas”, afirma Mari Alkatiri.
Pouco depois da conferência de imprensa no Hotel Timor, a coligação para “uma nova maioria” apresenta a sua solução de governo ao Presidente da República, Ramos-Horta.
“Estamos prontos a formar governo e concordamos com o Presidente da República, que a decisão tem que ser imediata”, propugna o presidente do conselho nacional do PSD, Zacarias da Costa, citado pela Lusa. O dirigente insiste na urgência de encetar os trabalhos do novo Parlamento, “devido à crise”.
O Chefe de Estado timorense coloca, para já, a ênfase no carácter “informal” das últimas consultas. E deixa claro que há “duas possibilidades em aberto” para a constituição do IV Governo Constitucional de Timor-Leste. “Se os partidos conseguirem entender-se e ter uma solução que saia deles todos, o Presidente da República aceitará”.“Ontem reuni com a direcção da FRETILIN e amanhã vou reunir com os bispos (de Díli e Baucau) e depois, provavelmente, voltarei a estar com a FRETILIN. Na próxima semana tomarei uma decisão”, indica Ramos-Horta.
Resultados
FRETILIN (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) - 29,0 por cento
CNRT (Congresso Nacional de Reconstrução de Timor-Leste) - 24,0 por cento
ASDT/PSD (Associação Social Democrática Timorense/Partido Social-Democrata) - 15,7 por cento
PD (Partido Democrático) - 11,3 por cento
PUN (Partido da Unidade Nacional) - 4,5 por cento
AD-KOTA/PPT (Aliança Democrática – Partido KOTA/Partido Popular Timorense) - 3,1 por cento
UNDERTIM (Unidade Nacional da Resistência Timorense) - 3,1 por cento
PNT (Partido Nacionalista Timorense) - 2,4 por cento
PDRT (Partido Democrático República de Timor) - 1,8 por cento
PR (Partido Republicano) - 1,1 por cento
PDC (Partido Democrata Cristão) - 1,0 por cento
PST (Partido Socialista de Timor) - 0,9 por cento
UDT (União Democrática Timorense) - 0,8 por cento
PMD (Partido Milenium Democrático) - 0,6 por cento