Mundo
Semana Internacional
No dia em que as tropas britânicas entregam o Palácio de Bassorá ao exército iraquiano, o avião do Presidente dos Estados Unidos faz uma escala em Anbar. Após um “conselho de guerra” com o general Petraeus, Bush avisa os seus críticos em Washington: a retirada de tropas do Iraque será concretizada a partir de uma “posição de força e sucesso”.
Segunda-feira, 03 de Setembro
O exército iraquiano assume o controlo de Bassorá. Pela primeira vez desde Março de 2003, a maior cidade do Sul do Iraque vê-se privada da presença contínua de tropas estrangeiras, num processo de transferência de responsabilidades que culminará, no Outono, com a entrega de toda a província de maioria xiita.
A derradeira guarnição de 500 operacionais britânicos começou a retirar do Palácio de Bassorá durante a noite de domingo. Às primeiras horas da manhã de segunda-feira, a bandeira iraquiana era hasteada sobre o complexo que - desde os primeiros capítulos da invasão anglo-americana do Iraque - servia de quartel-general às forças da Grã-Bretanha. O contingente de Bassorá juntou-se aos cinco mil soldados estacionados perto do aeroporto da cidade, a 25 quilómetros do coração urbano. Uma movimentação de tropas que Londres se apressa a justificar.
Em declarações à BBC Radio 4, o primeiro-ministro britânico descarta a ideia de um primeiro marco de “derrota” das forças britânicas em território iraquiano, ou de uma fuga . “Deixem-me ser muito claro. Esta é uma mudança pré-planeada e organizada do Palácio de Bassorá para a Base Aérea de Bassorá”, enfatiza Gordon Brown. Para de imediato acrescentar que o número de operacionais destacados no Iraque, agora limitados a um papel de “vigilância”, não deverá sofrer grandes alterações num horizonte próximo.
Espera-se que até ao final de 2007 o contingente britânico no Iraque passe de 5.500 para cinco mil efectivos.
As tropas britânicas, assegura o sucessor de Tony Blair, “respeitarão os seus compromissos”. Na prática, os “compromissos” de Londres passam, a partir de agora, a privilegiar a preparação das forças regulares iraquianas. E os soldados da Grã-Bretanha só poderão tomar parte em operações de combate ou patrulhamento a pedido das autoridades do Iraque.
Para lá das garantias saídas do número 10 de Downing Street, a “mudança” operada na segunda maior cidade do Iraque (dois milhões de habitantes) e praça de exportação de petróleo tem lugar numa altura pouco oportuna para a Administração republicana em Washington, também ela pressionada para encetar uma estratégia de saída do esforço de guerra.
A pressão que se abate sobre a Casa Branca é movida, em grande parte, pelo campo democrata, mas começa também a ganhar consistência em círculos do Partido Republicano. Decorridos mais de quatro anos de guerra - com um balanço de mais de 3.700 baixas norte-americanas -, os críticos de George W. Bush exigem que a Casa Branca faça saber ao primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, que o compromisso dos Estados Unidos para com o Iraque não é eterno. O Presidente norte-americano pede paciência, esforçando-se por demonstrar as virtudes da sua estratégia de reforço das tropas em 30 mil operacionais.
Em comunicado, o Ministério britânico da Defesa (MoD) afirma que as cúpulas militar e política de Washington foram consultadas a propósito do plano de transferência em Bassorá: “A decisão constitui uma iniciativa liderada pelos iraquianos e é parte de um processo endossado pela coligação”.
Ademais, salienta o MoD, as forças britânicas vão “manter a responsabilidade pela segurança” até à transferência de comando em toda a província de Bassorá.
Em complemento das declarações do MoD, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, David Miliband, vem afirmar que as movimentações em Bassorá “reflectem a situação no terreno, acima de tudo a capacidade crescente das forças iraquianas”.
Nas ruas da principal cidade do Sul do Iraque, a notícia da saída das tropas britânicas motiva, para já, os festejos dos homens do Exército Mehdi, milícia do clérigo radical xiita Moqtada al-Sadr.
O processo de transferência em Bassorá coincide com uma visita surpresa do Presidente norte-americano ao Iraque – acompanham-no a secretária de Estado, Condoleeza Rice, e o conselheiro de Segurança Nacional, Steven Hadley; o secretário da Defesa, Robert Gates, chega separadamente.
O avião de George W. Bush aterra na base aérea de Al Assad, em Anbar, 180 quilómetros a Oeste de Bagdade. A escala do Air Force One - que transportará o Presidente norte-americano até Sydney, Austrália, para a cimeira Ásia-Pacífico (APEC) - é feita a uma semana da apresentação de um relatório dos comandantes no terreno.
A escolha é simbólica. Outrora um bastião da insurreição sunita, Anbar conheceu uma relativa pacificação nos últimos meses, muito por força da crescente revolta de líderes tribais contra a acção da al Qaeda. Quando testemunharem, a 10 de Setembro, perante o Congresso, o general David Petraeus, comandante das forças norte-americanas no Iraque, e Ryan Crocker, embaixador em Bagdade, deverão centrar em Anbar os argumentos a favor da estratégia assinada por Bush.
”Conselho de guerra”
Para além de um “conselho de guerra” com o general Petraeus e Ryan Crocker - destinado a tomar o pulso à realidade no terreno antes do braço-de-ferro com o Congresso -, as seis horas da agenda de Bush em Anbar compreendem uma reunião com o Presidente iraquiano, Jalal Talabani, e o primeiro-ministro, Nuri al-Maliki.
Perante os militares estacionados em Al Assad, o Presidente dos Estados Unidos deixa duas ideias: a manter-se o “tipo de sucesso” verificado na província de Anbar, “será possível garantir a mesma segurança com menos tropas americanas”; ainda assim, uma eventual redução de efectivos no Iraque resultará de uma cuidada ponderação, a partir de uma “posição de força e sucesso” e a salvo da “reacção nervosa” dos “políticos” de Washington.
Bush colherá novo revés interno na terça-feira, com a divulgação de um relatório preparado pelo organismo independente que avalia a actividade governativa nos Estados Unidos. O Governo iraquiano, conclui o relatório do GAO (Government Accountability Office), falhou 11 dos 18 objectivos políticos e militares fixados em Maio pelo Congresso norte-americano e os resultados do “plano de segurança” implementado em Bagdade são incertos.
Terça-feira, 04 de Setembro
Os serviços de informações da polícia dinamarquesa (PET) anulam uma presumível célula terrorista que estaria a preparar um atentado com explosivos. Uma investigação “prolongada” levou às detenções, em Copenhaga, de oito homens suspeitos de ligações à al Qaeda.
Os contornos da operação antiterrorista são revelados na manhã de terça-feira pelo director-geral do PET, Jakob Scharf. As detenções, efectuadas a coberto da noite, permitiram “prevenir um atentado terrorista”, nas palavras do responsável.
“Podemos descrever os principais suspeitos como militantes islamistas com contactos internacionais, incluindo um líder da al Qaeda”, declara Scharf. As autoridades dinamarquesas omitem, por ora, os alvos alegadamente escolhidos pelos homens agora à guarda da polícia, ou a identidade do citado chefe da rede terrorista. A “ligação directa” à al Qaeda é para já a nota dominante no discurso do director-geral dos serviços de informações.
Com idades entre os 19 e os 28 anos, os suspeitos são oriundos de Afeganistão, Paquistão, Somália e Turquia. Seis deles têm, no entanto, nacionalidade dinamarquesa. Outros dois, estrangeiros, são portadores de autorizações de residência.
“As detenções são o resultado de uma vigilância prolongada de pessoas suspeitas de preparar um acto terrorista com utilização de explosivos. Encontrámos, em buscas realizadas esta noite e durante a manhã, uma série de objectos e materiais importantes para o caso”, indica ainda Scharf.
Os suspeitos, prossegue o responsável, “estavam a produzir um explosivo instável numa área densamente povoada”.
A captura, que decorreu “sem incidentes”, teve lugar em dois raids separados, levados a efeito pelas forças de segurança às 02h00 de terça-feira. Foram 11 os locais abarcados pela operação policial, no centro e nos arredores da capital dinamarquesa. O distrito de Noerrebro e o subúrbio de Ishoej, habitados por comunidades de imigrantes, estão entre os alvos da polícia; segundo o canal dinamarquês TV2, os agentes terão feito pelo menos duas detenções nesses locais – um taxista e um electricista - , investigados por brigadas especializadas em explosivos.
Sem adiantar mais detalhes, a Agência de Gestão de Emergência da Dinamarca revela que a sua unidade de químicos “assistiu” os agentes da polícia nas operações de Copenhaga.
Dois dos detidos ficam em prisão preventiva depois de serem ouvidos pelas autoridades. Os demais serão libertados ao fim do dia.
A polícia dinamarquesa havia já lançado, desde 2005, duas grandes operações contra células terroristas.
Em Fevereiro deste ano, Abdul Basit Abu Lifa, um cidadão dinamarquês de origem palestiniana, foi condenado a sete anos de prisão por envolvimento na preparação de um atentado em solo europeu; outros três suspeitos acabaram por ser absolvidos; um deles aguarda novo julgamento.
Quatro homens detidos em 2006 na cidade de Odense começarão a ser julgados quarta-feira, em Copenhaga, por alegada conspiração para um ataque terrorista contra alvos na Dinamarca ou na Europa.
Quarta-feira, 05 de Setembro
As autoridades da Alemanha afirmam ter frustrado uma conspiração terrorista para perpetrar “atentados à bomba em massa” contra alvos norte-americanos em território alemão. Ao cabo de seis meses de apertada vigilância, a polícia deteve três homens conotados com a célula alemã de um movimento denominado União da Jihad Islâmica.
Vinte e quatro horas depois das operações da polícia dinamarquesa em Copenhaga, a ameaça do terrorismo volta a ascender ao topo da actualidade na Europa. Desta feita na Alemanha, onde as autoridades locais garantem ter suprimido “as mais graves tentativas de atentados” alguma vez planeadas no país.
O anúncio das detenções de três suspeitos é feito pela procuradora-geral federal, Monika Harms, que fala de “um bom dia para a segurança da Alemanha”. A seu lado, o director do gabinete para o crime federal descreve o potencial de destruição dos engenhos que estariam em preparação. As bombas, explica Jörg Ziercke, teriam o mesmo impacto de 550 quilos de TNT. Os danos evocariam os cenários vividos nos ataques de Madrid, em 2004, ou em Londres, em 2005.
Durante as buscas, efectuadas num apartamento da pequena localidade de Medebach-Oberschledorn, no Estado da Renânia do Norte-Vestefália (Centro-oeste da Alemanha), os agentes da polícia encontraram 12 bidões com 700 quilos do agente químico peróxido de hidrogénio.
O conjunto de alvos potenciais incluía clubes nocturnos e pubs frequentados por cidadãos norte-americanos. Mas os alegados terroristas teriam também por alvo infra-estruturas aeroportuárias. A base militar dos Estados Unidos em Ramstein e o aeroporto de Frankfurt estão entre os alvos referidos. Segundo Monika Harms, os planos passariam pela utilização de viaturas armadilhadas.
As detenções tiveram lugar às 14h30 de terça-feira. Os três suspeitos, dois alemães de 22 e 28 anos convertidos ao Islão e um turco de 28 anos, terão sido treinados em campos de terroristas no Paquistão.
Facção dissidente do Movimento Islâmico do Uzbequistão (MIU), de Juma Namangani, a União da Jihad Islâmica é um movimento sunita com sede implantada na Ásia Central. Tal como o MIU, professa os alicerces ideológicos da al Qaeda. O grupo, afirma Jörg Ziercke, “distingue-se por um profundo ódio aos cidadãos norte-americanos”.
Em declarações ao canal televisivo alemão N24, o deputado democrata-cristão Wolfgang Bosbach afirma que os suspeitos pretenderiam fazer coincidir as acções terroristas com o aniversário dos atentados de 11 de Setembro de 2001.
Para a procuradora-geral, os planos agora desvendados deixam patente que a Alemanha “representa, para o terrorismo internacional de motivação islâmica, um alvo de atentado e não apenas uma base de retaguarda para terroristas”.
Cooperação internacional
A polícia alemã contou com a colaboração de serviços de segurança estrangeiros durante as investigações ao trio de Medebach-Oberschledorn, indica o ministro alemão do Interior, Wolfgang Schäuble.
“Foram impedidos graves atentados terroristas em estreita colaboração com serviços estrangeiros”, afirma o governante alemão, que agradece ainda o trabalho “de vários meses e a excelente cooperação de todos os serviços envolvidos nos planos regional e federal.
Schäuble estabelece ainda um paralelo com as operações que permitiram evitar, em Julho de 2006, um atentado contra dois comboios regionais em Coblence e Dortmund. Os autores, assinala o ministro alemão, “eram também profissionais, tinham sido visivelmente treinados no Paquistão e incitados para aqueles actos pela mesma rede terrorista”.
Segundo dados das autoridades, pelo menos sete conspirações para atentados na Alemanha foram eliminadas desde 2000 e estão referenciados 70 a 80 militantes islamistas dispostos a cometer actos violentos.
Quinta-feira, 06 de Setembro
Os investigadores de contraterrorismo da polícia alemã continuam a desenredar os detalhes da alegada conspiração suprimida na terça-feira em Medebach-Oberschledorn. Depois das detenções de três homens conotados com a União da Jihad Islâmica, as autoridades lançam-se agora no encalço de uma dezena de suspeitos de participação no planeamento dos ataques.
As atenções das autoridades recaem, quinta-feira, sobre um vasto conjunto de documentos, discos rígidos e computadores entretanto apreendidos no decurso de buscas em cerca de 30 locais. Um dos alvos da investigação é o centro de informação islâmica da localidade de Ulm. Um dos três suspeitos detidos pela unidade de elite GSG9, o alemão Fritz Martin G., de 28 anos, vivia naquela localidade do Estado de Bade-Wurtemberg, apontada como centro do islamismo radical em território alemão. Martin G. assumiria, segundo os investigadores, uma posição de liderança sobre os seus cúmplices directos, o alemão Daniel Martin, de 21 anos, e o turco Adem Y., de 28.
Fritz Martin G. era alvo da atenção das autoridades desde o final de 2006, quando foi detectado a observar uma caserna norte-americana em Hanau, perto de Frankfurt.
Segundo o secretário de Estado do Interior alemão, a polícia crê que os três alegados conspiradores terão sido coadjuvados, de diferentes formas, por uma dezena de cúmplices ou “instigadores”. Estes últimos são procurados dentro e fora da Alemanha.
“Os atentados terroristas exigem uma preparação e nós estamos a tentar identificar todas as pessoas que possam estar envolvidas”, adianta August Hanning à cadeia televisiva alemã ARD. Entre os indivíduos procurados há “alemães, turcos e pessoas de outras nacionalidades”.
O governante alemão coloca, ainda, a tónica na comunicação on-line, instrumento de “doutrina, recrutamento e troca de informações”. A Internet seria o veículo de eleição da célula alemã desmantelada terça-feira.
O ministro alemão do Interior poderá colher, nas mais recentes revelações sobre o caso de Medebach-Oberschledorn, mais argumentos a favor das suas teses de robustecimento dos meios colocados à disposição dos investigadores. Retorna à tona, na Alemanha, o debate em torno da oportunidade de levar a efeito alterações à legislação que enquadrem o registo on-line dos computadores pessoais. Wolfgang Schäuble defende, por exemplo, a espionagem de computadores pertencentes a potenciais terroristas através da disseminação de “cavalos de tróia”, vírus informáticos que permitiriam o escrutínio de dados considerados pertinentes.
Entre os conservadores da família política da chanceler Angela Merkel, multiplicam-se as vozes em defesa da criminalização das estadas em campos de treino ligados ao terrorismo, ou mesmo da publicação de informações sobre a produção de engenhos explosivos. Uma tal reforma conta, para já, com o sonoro apoio do secretário-geral do Conselho Central dos Muçulmanos da Alemanha, Aiman Mazyek, voz do islamismo moderado.
De acordo com as autoridades, a célula alemã da União da Jihad Islâmica terá sido treinada no Paquistão, mais concretamente na região tribal do Waziristão, sector mais volátil da fronteira com o Afeganistão.
Na quarta-feira, ao anunciar as detenções efectuadas na Renânia do Norte-Vestefália, a procuradora-geral federal, Monika Harms, referia-se às montanhas do Waziristão como um alfobre de militantes do islamismo radical.
Sexta-feira, 07 de Setembro
Agudiza-se a tensão latente entre a Síria e Israel, agora alimentada por uma alegada incursão da aviação israelita em espaço aéreo sírio. As estruturas militares do regime de Damasco garantem que as suas defesas anti-aéreas foram accionadas, na quinta-feira, para repelir um aparelho da Força Aérea israelita. As pontes de comando política e militar de Israel guardam silêncio, à excepção do ministro da Ciência, Cultura e Desporto, que fala de incursões regulares nos céus da Síria.
A resposta dos responsáveis militares israelitas indicia uma preocupação dominante: obviar uma espiral de ameaças e contra-ameaças entre os dois países, formalmente em guerra desde 1948, e evitar, assim, um sismo no delicado equilíbrio construído sobre sucessivos acordos de cessar-fogo e armistícios.
Citados pela emissora de rádio das Forças de Defesa de Israel, membros da hierarquia militar descartam um cenário de escalada entre os dois países. Mas não deixam de desferir um misto de acusação e aviso na direcção de Damasco. Israel, afirmam, deve ter em conta a possibilidade de o regime vir a fomentar “ataques terroristas” contra alvos israelitas.
Nos corredores do poder em Israel, a ambiguidade é a fórmula mais empregue para abordar a questão síria. E os últimos meses ilustram-no. A par de declarações de apaziguamento para com o regime do Presidente Bachar al-Assad, o Tsahal (exército israelita) continuou a manobrar nos Montes Golã, ocupados desde 1967.
O mais recente incidente foi relatado na quinta-feira pela agência oficial Sana, com base nas declarações de um porta-voz do exército sírio. Segundo este responsável, a aviação “inimiga” de Israel teria “penetrado no espaço aéreo da Síria a partir das fronteiras do Norte, vinda do Mediterrâneo em direcção à região nordeste”. O aparelho israelita, acrescentou o porta-voz, teria ainda “despejado munições” antes de ser obrigado a recuar pelos disparos das anti-aéreas. Numa primeira reacção, as Forças de Defesa de Israel escolheram o silêncio, sublinhando que os comentários a “este tipo de relatos” não são prática instituída. Dos militares aos gabinetes do Governo, as declarações tiveram um denominador comum.
Vago, o primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, disse desconhecer o incidente, no que seria imitado, mais tarde, pela ministra dos Negócios Estrangeiros, Tzipi Livni. O diário israelita Haaretz dá conta da ironia de Olmert quando confrontado com as informações chegadas de Damasco durante um evento da sua formação política, o Kadima. “Não pareço tranquilo?”, perguntou.
Menos polido, o ministro sírio da Informação, Mohsen Bilal, surgia perante as câmaras da Al-Jazeera com um aviso: “A Síria reserva-se o direito de determinar a qualidade, o tipo e a natureza da sua resposta ao ataque israelita. A liderança síria está a ponderar seriamente a sua resposta”.
A primeira brecha nas fileiras do Governo de Olmert surge na sexta-feira. Em declarações citadas nas edições on-line do Haaretz e do Jerusalem Post, o ministro israelita da Ciência, Cultura e Desporto deixa escapar que os caças da Força Aérea de Israel sobrevoam regularmente o espaço aéreo sírio. Embora garanta não ter informações concretas sobre os acontecimentos de quinta-feira, Ghaleb Majadle admite que “os aviões tenham entrado no espaço aéreo sírio para tirar fotografias ou por erro”.
A tese de uma missão de reconhecimento ganha, aliás, consistência nos media israelitas.
Em declarações citadas pela France Presse, Mark Heller, analista do centro de estudos estratégicos Yaffe, da Universidade de Telavive, sustenta que o voo denunciado por Damasco – a ter ocorrido – “só pode tratar-se de uma operação rotineira de observação, talvez destinada a testar a defesa anti-aérea síria”.
Sem surpresa, o regime sírio colhe o apoio do Irão, aliado tradicional. “Este acto provocador visa transportar as crises e os problemas internos (de Israel) para lá das fronteiras e criar insegurança na região”, afirma Mohammad Ali Hosseini, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão.
O último incidente do género ocorrera a 28 de Junho de 2006. Na versão de Telavive, quatro caças israelitas sobrevoaram, então, o palácio do Presidente sírio perto de Latakia, no nordeste do país; a Síria referiu apenas dois aparelhos, afastados pela defesa anti-aérea quando sobrevoavam a costa do país.
O exército iraquiano assume o controlo de Bassorá. Pela primeira vez desde Março de 2003, a maior cidade do Sul do Iraque vê-se privada da presença contínua de tropas estrangeiras, num processo de transferência de responsabilidades que culminará, no Outono, com a entrega de toda a província de maioria xiita.A derradeira guarnição de 500 operacionais britânicos começou a retirar do Palácio de Bassorá durante a noite de domingo. Às primeiras horas da manhã de segunda-feira, a bandeira iraquiana era hasteada sobre o complexo que - desde os primeiros capítulos da invasão anglo-americana do Iraque - servia de quartel-general às forças da Grã-Bretanha. O contingente de Bassorá juntou-se aos cinco mil soldados estacionados perto do aeroporto da cidade, a 25 quilómetros do coração urbano. Uma movimentação de tropas que Londres se apressa a justificar.
Em declarações à BBC Radio 4, o primeiro-ministro britânico descarta a ideia de um primeiro marco de “derrota” das forças britânicas em território iraquiano, ou de uma fuga . “Deixem-me ser muito claro. Esta é uma mudança pré-planeada e organizada do Palácio de Bassorá para a Base Aérea de Bassorá”, enfatiza Gordon Brown. Para de imediato acrescentar que o número de operacionais destacados no Iraque, agora limitados a um papel de “vigilância”, não deverá sofrer grandes alterações num horizonte próximo.
Espera-se que até ao final de 2007 o contingente britânico no Iraque passe de 5.500 para cinco mil efectivos.
As tropas britânicas, assegura o sucessor de Tony Blair, “respeitarão os seus compromissos”. Na prática, os “compromissos” de Londres passam, a partir de agora, a privilegiar a preparação das forças regulares iraquianas. E os soldados da Grã-Bretanha só poderão tomar parte em operações de combate ou patrulhamento a pedido das autoridades do Iraque.Para lá das garantias saídas do número 10 de Downing Street, a “mudança” operada na segunda maior cidade do Iraque (dois milhões de habitantes) e praça de exportação de petróleo tem lugar numa altura pouco oportuna para a Administração republicana em Washington, também ela pressionada para encetar uma estratégia de saída do esforço de guerra.
A pressão que se abate sobre a Casa Branca é movida, em grande parte, pelo campo democrata, mas começa também a ganhar consistência em círculos do Partido Republicano. Decorridos mais de quatro anos de guerra - com um balanço de mais de 3.700 baixas norte-americanas -, os críticos de George W. Bush exigem que a Casa Branca faça saber ao primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, que o compromisso dos Estados Unidos para com o Iraque não é eterno. O Presidente norte-americano pede paciência, esforçando-se por demonstrar as virtudes da sua estratégia de reforço das tropas em 30 mil operacionais.
Em comunicado, o Ministério britânico da Defesa (MoD) afirma que as cúpulas militar e política de Washington foram consultadas a propósito do plano de transferência em Bassorá: “A decisão constitui uma iniciativa liderada pelos iraquianos e é parte de um processo endossado pela coligação”.
Ademais, salienta o MoD, as forças britânicas vão “manter a responsabilidade pela segurança” até à transferência de comando em toda a província de Bassorá.Em complemento das declarações do MoD, o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, David Miliband, vem afirmar que as movimentações em Bassorá “reflectem a situação no terreno, acima de tudo a capacidade crescente das forças iraquianas”.
Nas ruas da principal cidade do Sul do Iraque, a notícia da saída das tropas britânicas motiva, para já, os festejos dos homens do Exército Mehdi, milícia do clérigo radical xiita Moqtada al-Sadr.
O processo de transferência em Bassorá coincide com uma visita surpresa do Presidente norte-americano ao Iraque – acompanham-no a secretária de Estado, Condoleeza Rice, e o conselheiro de Segurança Nacional, Steven Hadley; o secretário da Defesa, Robert Gates, chega separadamente.
O avião de George W. Bush aterra na base aérea de Al Assad, em Anbar, 180 quilómetros a Oeste de Bagdade. A escala do Air Force One - que transportará o Presidente norte-americano até Sydney, Austrália, para a cimeira Ásia-Pacífico (APEC) - é feita a uma semana da apresentação de um relatório dos comandantes no terreno.
A escolha é simbólica. Outrora um bastião da insurreição sunita, Anbar conheceu uma relativa pacificação nos últimos meses, muito por força da crescente revolta de líderes tribais contra a acção da al Qaeda. Quando testemunharem, a 10 de Setembro, perante o Congresso, o general David Petraeus, comandante das forças norte-americanas no Iraque, e Ryan Crocker, embaixador em Bagdade, deverão centrar em Anbar os argumentos a favor da estratégia assinada por Bush.
”Conselho de guerra”
Para além de um “conselho de guerra” com o general Petraeus e Ryan Crocker - destinado a tomar o pulso à realidade no terreno antes do braço-de-ferro com o Congresso -, as seis horas da agenda de Bush em Anbar compreendem uma reunião com o Presidente iraquiano, Jalal Talabani, e o primeiro-ministro, Nuri al-Maliki.Perante os militares estacionados em Al Assad, o Presidente dos Estados Unidos deixa duas ideias: a manter-se o “tipo de sucesso” verificado na província de Anbar, “será possível garantir a mesma segurança com menos tropas americanas”; ainda assim, uma eventual redução de efectivos no Iraque resultará de uma cuidada ponderação, a partir de uma “posição de força e sucesso” e a salvo da “reacção nervosa” dos “políticos” de Washington.
Bush colherá novo revés interno na terça-feira, com a divulgação de um relatório preparado pelo organismo independente que avalia a actividade governativa nos Estados Unidos. O Governo iraquiano, conclui o relatório do GAO (Government Accountability Office), falhou 11 dos 18 objectivos políticos e militares fixados em Maio pelo Congresso norte-americano e os resultados do “plano de segurança” implementado em Bagdade são incertos.
Terça-feira, 04 de Setembro
Os serviços de informações da polícia dinamarquesa (PET) anulam uma presumível célula terrorista que estaria a preparar um atentado com explosivos. Uma investigação “prolongada” levou às detenções, em Copenhaga, de oito homens suspeitos de ligações à al Qaeda.Os contornos da operação antiterrorista são revelados na manhã de terça-feira pelo director-geral do PET, Jakob Scharf. As detenções, efectuadas a coberto da noite, permitiram “prevenir um atentado terrorista”, nas palavras do responsável.
“Podemos descrever os principais suspeitos como militantes islamistas com contactos internacionais, incluindo um líder da al Qaeda”, declara Scharf. As autoridades dinamarquesas omitem, por ora, os alvos alegadamente escolhidos pelos homens agora à guarda da polícia, ou a identidade do citado chefe da rede terrorista. A “ligação directa” à al Qaeda é para já a nota dominante no discurso do director-geral dos serviços de informações.
Com idades entre os 19 e os 28 anos, os suspeitos são oriundos de Afeganistão, Paquistão, Somália e Turquia. Seis deles têm, no entanto, nacionalidade dinamarquesa. Outros dois, estrangeiros, são portadores de autorizações de residência.
“As detenções são o resultado de uma vigilância prolongada de pessoas suspeitas de preparar um acto terrorista com utilização de explosivos. Encontrámos, em buscas realizadas esta noite e durante a manhã, uma série de objectos e materiais importantes para o caso”, indica ainda Scharf.
Os suspeitos, prossegue o responsável, “estavam a produzir um explosivo instável numa área densamente povoada”.A captura, que decorreu “sem incidentes”, teve lugar em dois raids separados, levados a efeito pelas forças de segurança às 02h00 de terça-feira. Foram 11 os locais abarcados pela operação policial, no centro e nos arredores da capital dinamarquesa. O distrito de Noerrebro e o subúrbio de Ishoej, habitados por comunidades de imigrantes, estão entre os alvos da polícia; segundo o canal dinamarquês TV2, os agentes terão feito pelo menos duas detenções nesses locais – um taxista e um electricista - , investigados por brigadas especializadas em explosivos.
Sem adiantar mais detalhes, a Agência de Gestão de Emergência da Dinamarca revela que a sua unidade de químicos “assistiu” os agentes da polícia nas operações de Copenhaga.
Dois dos detidos ficam em prisão preventiva depois de serem ouvidos pelas autoridades. Os demais serão libertados ao fim do dia.
A polícia dinamarquesa havia já lançado, desde 2005, duas grandes operações contra células terroristas.
Em Fevereiro deste ano, Abdul Basit Abu Lifa, um cidadão dinamarquês de origem palestiniana, foi condenado a sete anos de prisão por envolvimento na preparação de um atentado em solo europeu; outros três suspeitos acabaram por ser absolvidos; um deles aguarda novo julgamento.
Quatro homens detidos em 2006 na cidade de Odense começarão a ser julgados quarta-feira, em Copenhaga, por alegada conspiração para um ataque terrorista contra alvos na Dinamarca ou na Europa.
Quarta-feira, 05 de Setembro
As autoridades da Alemanha afirmam ter frustrado uma conspiração terrorista para perpetrar “atentados à bomba em massa” contra alvos norte-americanos em território alemão. Ao cabo de seis meses de apertada vigilância, a polícia deteve três homens conotados com a célula alemã de um movimento denominado União da Jihad Islâmica.Vinte e quatro horas depois das operações da polícia dinamarquesa em Copenhaga, a ameaça do terrorismo volta a ascender ao topo da actualidade na Europa. Desta feita na Alemanha, onde as autoridades locais garantem ter suprimido “as mais graves tentativas de atentados” alguma vez planeadas no país.
O anúncio das detenções de três suspeitos é feito pela procuradora-geral federal, Monika Harms, que fala de “um bom dia para a segurança da Alemanha”. A seu lado, o director do gabinete para o crime federal descreve o potencial de destruição dos engenhos que estariam em preparação. As bombas, explica Jörg Ziercke, teriam o mesmo impacto de 550 quilos de TNT. Os danos evocariam os cenários vividos nos ataques de Madrid, em 2004, ou em Londres, em 2005.Durante as buscas, efectuadas num apartamento da pequena localidade de Medebach-Oberschledorn, no Estado da Renânia do Norte-Vestefália (Centro-oeste da Alemanha), os agentes da polícia encontraram 12 bidões com 700 quilos do agente químico peróxido de hidrogénio.
O conjunto de alvos potenciais incluía clubes nocturnos e pubs frequentados por cidadãos norte-americanos. Mas os alegados terroristas teriam também por alvo infra-estruturas aeroportuárias. A base militar dos Estados Unidos em Ramstein e o aeroporto de Frankfurt estão entre os alvos referidos. Segundo Monika Harms, os planos passariam pela utilização de viaturas armadilhadas.As detenções tiveram lugar às 14h30 de terça-feira. Os três suspeitos, dois alemães de 22 e 28 anos convertidos ao Islão e um turco de 28 anos, terão sido treinados em campos de terroristas no Paquistão.
Facção dissidente do Movimento Islâmico do Uzbequistão (MIU), de Juma Namangani, a União da Jihad Islâmica é um movimento sunita com sede implantada na Ásia Central. Tal como o MIU, professa os alicerces ideológicos da al Qaeda. O grupo, afirma Jörg Ziercke, “distingue-se por um profundo ódio aos cidadãos norte-americanos”.
Em declarações ao canal televisivo alemão N24, o deputado democrata-cristão Wolfgang Bosbach afirma que os suspeitos pretenderiam fazer coincidir as acções terroristas com o aniversário dos atentados de 11 de Setembro de 2001.
Para a procuradora-geral, os planos agora desvendados deixam patente que a Alemanha “representa, para o terrorismo internacional de motivação islâmica, um alvo de atentado e não apenas uma base de retaguarda para terroristas”.
Cooperação internacional
A polícia alemã contou com a colaboração de serviços de segurança estrangeiros durante as investigações ao trio de Medebach-Oberschledorn, indica o ministro alemão do Interior, Wolfgang Schäuble.
“Foram impedidos graves atentados terroristas em estreita colaboração com serviços estrangeiros”, afirma o governante alemão, que agradece ainda o trabalho “de vários meses e a excelente cooperação de todos os serviços envolvidos nos planos regional e federal.
Schäuble estabelece ainda um paralelo com as operações que permitiram evitar, em Julho de 2006, um atentado contra dois comboios regionais em Coblence e Dortmund. Os autores, assinala o ministro alemão, “eram também profissionais, tinham sido visivelmente treinados no Paquistão e incitados para aqueles actos pela mesma rede terrorista”.
Segundo dados das autoridades, pelo menos sete conspirações para atentados na Alemanha foram eliminadas desde 2000 e estão referenciados 70 a 80 militantes islamistas dispostos a cometer actos violentos.
Quinta-feira, 06 de Setembro
Os investigadores de contraterrorismo da polícia alemã continuam a desenredar os detalhes da alegada conspiração suprimida na terça-feira em Medebach-Oberschledorn. Depois das detenções de três homens conotados com a União da Jihad Islâmica, as autoridades lançam-se agora no encalço de uma dezena de suspeitos de participação no planeamento dos ataques.As atenções das autoridades recaem, quinta-feira, sobre um vasto conjunto de documentos, discos rígidos e computadores entretanto apreendidos no decurso de buscas em cerca de 30 locais. Um dos alvos da investigação é o centro de informação islâmica da localidade de Ulm. Um dos três suspeitos detidos pela unidade de elite GSG9, o alemão Fritz Martin G., de 28 anos, vivia naquela localidade do Estado de Bade-Wurtemberg, apontada como centro do islamismo radical em território alemão. Martin G. assumiria, segundo os investigadores, uma posição de liderança sobre os seus cúmplices directos, o alemão Daniel Martin, de 21 anos, e o turco Adem Y., de 28.
Fritz Martin G. era alvo da atenção das autoridades desde o final de 2006, quando foi detectado a observar uma caserna norte-americana em Hanau, perto de Frankfurt.
Segundo o secretário de Estado do Interior alemão, a polícia crê que os três alegados conspiradores terão sido coadjuvados, de diferentes formas, por uma dezena de cúmplices ou “instigadores”. Estes últimos são procurados dentro e fora da Alemanha.
“Os atentados terroristas exigem uma preparação e nós estamos a tentar identificar todas as pessoas que possam estar envolvidas”, adianta August Hanning à cadeia televisiva alemã ARD. Entre os indivíduos procurados há “alemães, turcos e pessoas de outras nacionalidades”.
O governante alemão coloca, ainda, a tónica na comunicação on-line, instrumento de “doutrina, recrutamento e troca de informações”. A Internet seria o veículo de eleição da célula alemã desmantelada terça-feira.
O ministro alemão do Interior poderá colher, nas mais recentes revelações sobre o caso de Medebach-Oberschledorn, mais argumentos a favor das suas teses de robustecimento dos meios colocados à disposição dos investigadores. Retorna à tona, na Alemanha, o debate em torno da oportunidade de levar a efeito alterações à legislação que enquadrem o registo on-line dos computadores pessoais. Wolfgang Schäuble defende, por exemplo, a espionagem de computadores pertencentes a potenciais terroristas através da disseminação de “cavalos de tróia”, vírus informáticos que permitiriam o escrutínio de dados considerados pertinentes.Entre os conservadores da família política da chanceler Angela Merkel, multiplicam-se as vozes em defesa da criminalização das estadas em campos de treino ligados ao terrorismo, ou mesmo da publicação de informações sobre a produção de engenhos explosivos. Uma tal reforma conta, para já, com o sonoro apoio do secretário-geral do Conselho Central dos Muçulmanos da Alemanha, Aiman Mazyek, voz do islamismo moderado.
De acordo com as autoridades, a célula alemã da União da Jihad Islâmica terá sido treinada no Paquistão, mais concretamente na região tribal do Waziristão, sector mais volátil da fronteira com o Afeganistão.
Na quarta-feira, ao anunciar as detenções efectuadas na Renânia do Norte-Vestefália, a procuradora-geral federal, Monika Harms, referia-se às montanhas do Waziristão como um alfobre de militantes do islamismo radical.
Sexta-feira, 07 de Setembro
Agudiza-se a tensão latente entre a Síria e Israel, agora alimentada por uma alegada incursão da aviação israelita em espaço aéreo sírio. As estruturas militares do regime de Damasco garantem que as suas defesas anti-aéreas foram accionadas, na quinta-feira, para repelir um aparelho da Força Aérea israelita. As pontes de comando política e militar de Israel guardam silêncio, à excepção do ministro da Ciência, Cultura e Desporto, que fala de incursões regulares nos céus da Síria.A resposta dos responsáveis militares israelitas indicia uma preocupação dominante: obviar uma espiral de ameaças e contra-ameaças entre os dois países, formalmente em guerra desde 1948, e evitar, assim, um sismo no delicado equilíbrio construído sobre sucessivos acordos de cessar-fogo e armistícios.
Citados pela emissora de rádio das Forças de Defesa de Israel, membros da hierarquia militar descartam um cenário de escalada entre os dois países. Mas não deixam de desferir um misto de acusação e aviso na direcção de Damasco. Israel, afirmam, deve ter em conta a possibilidade de o regime vir a fomentar “ataques terroristas” contra alvos israelitas.
Nos corredores do poder em Israel, a ambiguidade é a fórmula mais empregue para abordar a questão síria. E os últimos meses ilustram-no. A par de declarações de apaziguamento para com o regime do Presidente Bachar al-Assad, o Tsahal (exército israelita) continuou a manobrar nos Montes Golã, ocupados desde 1967.O mais recente incidente foi relatado na quinta-feira pela agência oficial Sana, com base nas declarações de um porta-voz do exército sírio. Segundo este responsável, a aviação “inimiga” de Israel teria “penetrado no espaço aéreo da Síria a partir das fronteiras do Norte, vinda do Mediterrâneo em direcção à região nordeste”. O aparelho israelita, acrescentou o porta-voz, teria ainda “despejado munições” antes de ser obrigado a recuar pelos disparos das anti-aéreas. Numa primeira reacção, as Forças de Defesa de Israel escolheram o silêncio, sublinhando que os comentários a “este tipo de relatos” não são prática instituída. Dos militares aos gabinetes do Governo, as declarações tiveram um denominador comum.
Vago, o primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, disse desconhecer o incidente, no que seria imitado, mais tarde, pela ministra dos Negócios Estrangeiros, Tzipi Livni. O diário israelita Haaretz dá conta da ironia de Olmert quando confrontado com as informações chegadas de Damasco durante um evento da sua formação política, o Kadima. “Não pareço tranquilo?”, perguntou.Menos polido, o ministro sírio da Informação, Mohsen Bilal, surgia perante as câmaras da Al-Jazeera com um aviso: “A Síria reserva-se o direito de determinar a qualidade, o tipo e a natureza da sua resposta ao ataque israelita. A liderança síria está a ponderar seriamente a sua resposta”.
A primeira brecha nas fileiras do Governo de Olmert surge na sexta-feira. Em declarações citadas nas edições on-line do Haaretz e do Jerusalem Post, o ministro israelita da Ciência, Cultura e Desporto deixa escapar que os caças da Força Aérea de Israel sobrevoam regularmente o espaço aéreo sírio. Embora garanta não ter informações concretas sobre os acontecimentos de quinta-feira, Ghaleb Majadle admite que “os aviões tenham entrado no espaço aéreo sírio para tirar fotografias ou por erro”.
A tese de uma missão de reconhecimento ganha, aliás, consistência nos media israelitas.
Em declarações citadas pela France Presse, Mark Heller, analista do centro de estudos estratégicos Yaffe, da Universidade de Telavive, sustenta que o voo denunciado por Damasco – a ter ocorrido – “só pode tratar-se de uma operação rotineira de observação, talvez destinada a testar a defesa anti-aérea síria”.
Sem surpresa, o regime sírio colhe o apoio do Irão, aliado tradicional. “Este acto provocador visa transportar as crises e os problemas internos (de Israel) para lá das fronteiras e criar insegurança na região”, afirma Mohammad Ali Hosseini, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão.
O último incidente do género ocorrera a 28 de Junho de 2006. Na versão de Telavive, quatro caças israelitas sobrevoaram, então, o palácio do Presidente sírio perto de Latakia, no nordeste do país; a Síria referiu apenas dois aparelhos, afastados pela defesa anti-aérea quando sobrevoavam a costa do país.