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Sentinel do Norte: o isolamento em nome da sobrevivência
A morte de um missionário norte-americano por indígenas da ilha de Sentinel, no arquipélago de Andamán, sob administração da Índia, tem feito as notícias das últimas semanas. Será interessante perceber se deve falar-se de morte ou de homicídio e perceber o porquê da reacção dos indígenas. Muitas vezes, estas tribos defendem o seu isolamento em nome da própria sobrevivência.
John Allen Chau foi morto por uma chuva de setas na praia de Sentinel quando tentava entrar em contacto com os indígenas. Não era a primeira vez que o missionário cristão norte-americano tentava chegar à ilha. Alguns sites de informação referem que já o tentara um punhado de vezes. Conseguiu-o desta vez, o que resultaria na sua morte. A questão é esta: podemos falar aqui de homicídio?Nas Sentinel do Norte, “a presença de estrangeiros está proibida nas suas imediações, mas investigadores locais apontam a falta de controlo marítimo na zona”.
Os povos indígenas destas ilhas que se mantêm relativamente isoladas do mundo estão protegidos por legislação aprovada nas Nações Unidas em 2007: a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas, um documento fechado ao fim de duas décadas de negociação e onde se reconhece o direito à propriedade da terra, aos recursos naturais dos seus territórios, ao respeito das suas tradições e à auto-determinação.
É neste sentido que a antropóloga Luisa Abad, da Universidade de Castilla-La Mancha, lembra que “todos os contactos que estas comunidades estabeleceram com povos dominantes tiveram consequências negativas”. Foi o caso dos vizinhos dos sentineleses que agora fazem as notícias. De acordo com a ONG Survival, essas tribos “foram aniquiladas depois de os britânicos terem colonizado as suas ilhas”.
Os pescadores da região que ajudaram John Allen Chau a chegar à ilha foram entretanto detidos para interrogatório. A razão está relacionada com as regras que proibiam qualquer contacto com os nativos da ilha, eventualmente apenas possível se permitido pelas autoridades da Índia, que tem a jurisdição sobre a região e sobre aquele arquipélago.
O missionário terá atentado contra pelo menos um destes princípios, o que não significa que a reacção dos sentineleses tenha sido proporcional. A razão – ou conjunto de razões – por que reagiram com uma chuva de flechas será outra. A interacção com agentes externos foi a causa do desaparecimento de muitas tribos que foram tardiamente descobertas pela civilização. Na maioria dos casos contra a sua vontade.
As consequências que advieram destes contactos e que posteriormente precipitaram o declínio de determinadas tribos têm a ver com fenómenos já conhecidos durante o período expansionista dos europeus nos séculos XV e XVI: o contágio com doenças para as quais não tinham qualquer defesa (o sarampo ou a gripe podem ser mortais), a tentativa de extorsão dos bens naturais ou a simples imposição de um padrão de existência hostil.Luisa Abad recorda “a experiência traumática que foi o genocídio em finais do século XIX de tribos no Amazonas em consequência da extração da borracha (…) actualmente o problema prossegue a contas das empresas de extração de gás, hidrocarbonetos e madeira”.
É, portanto, natural que a passagem destas histórias por povos vizinhos que viveram a experiência da convivência com estrangeiros provoque uma atitude de extrema precaução face ao contacto com o exterior. Como recorda Fernando Monge, “não há razão para pensar que por estarem isolados estes povos desconheçam por completo o mundo”.
Actualmente, são cerca de uma centena as tribos que vivem nestas condições, de acordo com as organizações internacionais que tratam do tema dos povos isolados ou não contactados, a maior parte na América do sul e Nova guiné, mas também no centro do continente africano e nas ilhas do Índico, como é o caso dos sentineleses.
Alguns destes povos enfrentam particularmente a ameaça exterior quando ocupam áreas ricas em recursos naturais. É este o caso de muitas tribos da Amazónia (o governo brasileiro fala em 77, a National Geographic refere 84), frequentemente em conflito com os madeireiros ou empresas dedicadas à cultura da borracha. Razões que os legisladores da ONU consideram suficientes para legitimar o desejo de se fecharem dentro dos seus limites.