Mundo
Guerra no Médio Oriente
Será realmente possível neutralizar o programa nuclear do Irão? "Operação terrestre seria equivalente a missão suicida"
Após 17 dias de guerra, o que procuram Estados Unidos e Israel no Irão?
Derrubar o regime iraniano? Vários oficiais de alta patente da Guarda Revolucionária, bem como o antigo Guia Supremo Ali Khamenei foram eliminados num ataque a Teerão no primeiro dia da guerra, 28 de fevereiro.
O líder clerical foi substituído pelo seu filho, Mojtaba Khamenei, que não parece querer desviar-se da linha autocrática seguida pelo pai.
Neutralizar o programa nuclear do Irão? Contrariamente aos anúncios feitos por Donald Trump no verão passado no final da "Guerra dos Doze Dias", o Irão ainda tem as suas reservas de urânio, de acordo com os serviços secretos americanos e a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).
440 quilogramas enriquecidos a 60%, mais precisamente, enterrados a cerca de 200 metros de profundidade sob o território iraniano.
Alain De Nève, investigador do Institut Royal Supérieur de Défense (IRSD), considera que "este objetivo poderia ser utilizado como cortina de fumo para encobrir o primeiro objetivo (o derrube do regime iraniano), que não foi atingido como desejado".
A 8 de março, em declarações aos jornalistas a bordo do Air Force One, o Presidente americano não escondeu a possibilidade de uma ofensiva terrestre para neutralizar definitivamente esta ameaça. "Talvez a dada altura o façamos. Seria uma coisa excelente", declarou, suscitando preocupações na oposição democrata, mas também no estado-maior americano.
De acordo com a imprensa americana, cerca de 2.500 fuzileiros navais americanos e pelo menos um navio de assalto dirigem-se atualmente para o Médio Oriente, o que lança dúvidas sobre uma próxima ofensiva terrestre.
Mas de que tipo de ameaça estamos a falar? E será que uma intervenção terrestre para neutralizar as capacidades nucleares do Irão é realmente credível? O perigo do urânio enriquecido
O urânio natural, que se encontra na terra, tem dois núcleos: o urânio 235 e o urânio 238. O urânio 235 representa apenas 0,7% do urânio natural.
O urânio 235 é necessário para criar as fissões que desencadeiam as reações em cadeia utilizadas nos reatores e nas bombas. Quanto maior for a quantidade, maior será a sua participação na reação de fissão e, consequentemente, maior será a potência da explosão.
Este enriquecimento de urânio é efetuado em centrifugadoras. O teor de urânio 235 é aumentado até se atingir o nível desejado, consoante se trate de uma utilização civil ou militar. Os reatores de investigação - nomeadamente os reatores de piscina utilizados em medicina - necessitam de um nível de cerca de 20%. Um reator nuclear requer uma taxa de cerca de 55%. Para além disso, é utilizado para fins militares.
"De uma forma geral é necessário um enriquecimento de cerca de 90% para fazer uma bomba nuclear 'facilmente', mas a 60% já é possível criar dispositivos que simplesmente terão menos potência", explica Emmanuelle Galichet, professora e investigadora em física nuclear no Conservatório Nacional das Artes e Ofícios (Cnam). "440 quilos representam entre dez e onze bombas nucleares se todo o stock de urânio enriquecido a 60% for aumentado para 90%", acrescenta.
Quando o urânio é utilizado em centrifugadoras para enriquecimento, encontra-se sob a forma gasosa. Uma vez atingido o nível de enriquecimento desejado, sai da centrifugadora sob a forma sólida e cristalina. É depois armazenado em garrafas de aço, do tamanho das garrafas de oxigénio utilizadas para mergulho. "440 quilos equivalem a cerca de quinze garrafas, que cabem na bagageira de um grande jipe", explica o professor-investigador em física nuclear.
O transporte deste material nuclear é, no entanto, altamente regulamentado, nomeadamente pela Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA). Mais do que a sua radioatividade - que se encontra em doses muito baixas dado que o urânio ainda não se fissionou num reator ou numa arma - o perigo reside sobretudo no seu elevado nível de toxicidade química se entrar em contacto com o ar.A dificuldade de localização das reservas
São estas reservas que estão agora na mira dos Estados Unidos e de Israel, mas a sua localização continua a ser um mistério.
O Diretor-Geral da AIEA, Raphael Grossi, disse na semana passada que era provável que metade ainda estivesse nas caves da fábrica de Natanz, perto da cidade de Isfahan, e o resto espalhado por vários outros locais. Os ataques levados a cabo por Washington e Telavive durante a "guerra dos doze dias", em junho passado, apenas teriam atacado as entradas destes locais, sem atingir as reservas de urânio enriquecido.
"De um modo geral, este tipo de reservas de urânio é enterrado em abrigos subterrâneos a profundidades que podem atingir os 200 metros, de modo a dificultar o acesso e, sobretudo, a protegê-lo de qualquer tentativa de destruição por um míssil de alta energia com um penetrador", explica Alain De Nève.
Embora os Estados Unidos e Israel afirmem ser capazes de detetar qualquer tentativa iraniana de aceder aos arsenais para os deslocar, é muito provável que estes arsenais iranianos tenham sido dispersos por vários locais do país para complicar a busca dos inimigos, segundo o investigador do IRSD. "Não é impossível que os iranianos tenham posto em prática uma série de estratagemas para dar a impressão de que deslocaram as reservas para determinados locais, quando não foi esse o caso. É possível que alguns movimentos sejam movimentos de engodo para enganar os serviços secretos americanos e israelitas". "Quase uma missão suicida" Todos estes fatores levam os peritos a considerar que uma intervenção terrestre americana para neutralizar estes arsenais seria extremamente arriscada. A deslocação exigiria condições logísticas e de segurança que não estão atualmente reunidas, e a sua destruição implicaria numerosos riscos, bem como um prejuízo financeiro importante.
"Há uma diferença entre uma missão intrépida e uma missão quase suicida", diz Alain De Nève. "Aqui, eu diria que estamos mais perto da segunda hipótese."Isto não significa que, logisticamente, os Estados Unidos não possam levar a cabo este tipo de missão direcionada. Já o demonstraram no passado, por exemplo, durante a operação de neutralização de Bin Laden. Mas, nessa altura, as condições eram especiais, a zona de intervenção situava-se num terreno praticamente conquistado militarmente, o que não é de todo o caso aqui no Irão. Além disso, uma tal operação provocaria sem dúvida um certo número de baixas que não seriam necessariamente toleradas pelo povo americano para este tipo de objetivo, ao contrário de Bin Laden que era um objetivo legítimo aos olhos da população americana, tendo em conta os atentados de 11 de setembro de 2001."Irão tem capacidade para se reconstruir
Mesmo que uma operação militar conduza à destruição ou à remoção das reservas nucleares iranianas, Emmanuelle Galichet salienta que o Irão possui os conhecimentos científicos necessários para recuperar.
"O Irão é um grande país científico", sublinha. "O país forma cerca de 230.000 engenheiros por ano, contra 46.000 em França. O seu projeto político mudou para um projeto militar, mas são muito fortes do ponto de vista científico. É por isso que, mesmo que se destrua ou retire uma quantidade de urânio que possa ser utilizada para uma bomba, é difícil ter a certeza de que não o voltarão a fazer. Já vimos que começaram a reconstruir-se desde os ataques de junho".
É por isso que, para o investigador, se a comunidade internacional não conseguir encontrar uma solução, o Irão tornar-se-á em breve o décimo país a possuir uma bomba nuclear.
Victor de Thier / 16 março 2026 05:05 GMT
Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP