Serralves quer cruzar Coleção Joan Miró com outras obras do artista catalão

Pádua, Itália, 10 mar (Lusa) -- A Fundação de Serralves quer acolher, no Porto, várias exposições em que se cruzam obras da Coleção Joan Miró, propriedade do Estado, e de outras instituições com obras do artista catalão, disse à Lusa a presidente do Conselho de Administração.

Lusa /

Segundo Ana Pinho, o objetivo é imprimir "dinamismo" e atrair mais público, aproveitando a coleção de 85 obras de Miró (1893-1983), para organizar mostras integradas com coleções de outras instituições.

A presidente de Serralves falou à Lusa à margem da inauguração da exposição "Joan Miró: Materialidade e Metamorfose", na sexta-feira, no Palácio Zabarella, onde está sediada a Fondazione Bano, que vai acolher as obras, propriedade do Estado português, até 22 de junho, na primeira exposição no estrangeiro, depois da Casa de Serralves, no Porto, e do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa.

Organizada por Serralves, a mostra é coordenada por Marta Almeida, diretora-adjunta do museu, e comissariada pelo especialista mundial na obra de Miró, o norte-americano Robert Lubar Messeri, tendo sido vista por 240.048 pessoas, no Porto, e 49.265, em Lisboa.

Em Pádua, foi possível expor todas as 85 obras da coleção, como já tinha acontecido no Palácio Nacional da Ajuda, onde foram ocupados 700 metros quadrados, mas a Casa de Serralves, com menos área disponível, recebeu menos obras.

A presidente da fundação explicou à Lusa que Serralves precisa "de algumas adaptações" que permitam aumentar a acessibilidade do espaço, como um elevador, e que o arquiteto Álvaro Siza Vieira "está a trabalhar num projeto para isso; [é algo] que está a ser analisado".

Ainda assim, de acordo com a diretora adjunta, Marta Almeida, o objetivo de uma "intervenção, que será sempre cuidada", é o de "tornar a Casa [de Serralves] mais acessível a ser visitada, uma vez que tem muitas especificidades", para que "possibilite a toda a gente a visita à exposição que estiver patente".

Para Ana Pinho, o objetivo é imprimir "dinamismo" a partir da Coleção Joan Miró e, com isso, conseguir "atrair cada vez mais portugueses e estrangeiros para a ver", mantendo "um núcleo em constante exposição, que terá de ir rodando, por razões de conservação ou empréstimos".

Outra das estratégias é "tentar organizar exposições com outras instituições que tenham importantes `coleções Miró`, que poderão ser mostradas em Portugal e no estrangeiro". "É esse o nosso objetivo maior", afirmou.

A diretora adjunta do Museu de Serralves acrescentou, por seu lado, que a criação de diferentes exposições, a partir deste conjunto de 85 obras, cria uma experiência "enriquecedora", porque, "ao abarcar seis décadas, a coleção possibilita a construção de outras curadorias e outros conceitos em torno das peças", em conjugação com outras.

O comissário da exposição revelou à Lusa já existirem "conversas preliminares com outras instituições", com vista à possibilidade de "juntar os variados recursos" para criar exposições em conjunto, e fomentar o diálogo e a multiplicidade de leituras, mesmo tendo em conta as dificuldades, "hoje em dia", "com os seguros, o transporte, as dificuldades na economia, e a conservação".

"Agora, há uma oportunidade para começar a preparar as bases para um programa museológico, não só colocar os trabalhos nas paredes", acrescentou Lubar Messeri.

Segundo o especialista mundial na obra de Joan Miró, uma coleção de arte pressupõe "uma responsabilidade de a trabalhar e de fazer coisas interessantes, e isso requer esforço, comprometimento e, claro, orçamento".

Em 2016, a Câmara Municipal do Porto anunciou que aquela coleção de arte iria permanecer na cidade, na Casa de Serralves.

Um acordo entre as duas partes "ainda não está formalmente assinado", mas a indicação é de que vai surgir, desejando Ana Pinho que sucedesse "o mais rapidamente possível".

"Podemos fazer desta coleção um sucesso ainda maior do que já tem tido. Para isso, é bom que as coisas estejam oficializadas e definidas", rematou.

A coleção de Joan Miró ficou na posse do Estado Português, após a nacionalização do BPN em 2008.

Em março do ano passado, o Governo anunciou que tinha chegado a acordo com a leiloeira Christie`s para revogar o contrato de venda em leilão da coleção Joan Miró, cujo valor a obter deveria servir para abater parte dos créditos do Estado português, no banco.

Entre as obras há seis pinturas da conhecida série sobre masonite de 1936, seis tapeçarias de 1972 e 1973, uma das telas queimadas, de uma série de cinco, criada para a grande retrospetiva de Miró no Grand Palais de Paris, em 1974, obras como "La Fornarina (d`apré Raphaël)", de 1929, "Femme dans la nuit", de 1944, ou "Après les constellations", duas pinturas feitas em 1976, também sobre masonite.

Destacam-se igualmente quadros como "Mulher e Pássaro", óleo sobre tela de 1959, e "Mulheres e Pássaros", óleo de 1968, "L`Oiseau blessé", de 1970, "Cabeça", óleo e colagem sobre tela, de 1973, "Personnage, étoile, mer", de 1978, além de outros óleos, `guaches`, desenhos, colagens e decalques, sobre diferentes superfícies, que se estendem ao longo de quase todo o percurso criativo do artista, dos anos de 1920 à década de 1980.

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