Serviço secreto alemão detém um dos seus agentes por espionagem para os EUA

O BND alemão deteve na quarta feira um agente que oferecia os seus préstimos aos serviços secretos russos e, ao investigar a actividade do indivíduo, descobriu que ele tem estado, nos últimos anos, na lista de pagamentos da "secreta" norte-americana. O incidente vem azedar ainda mais as relações germano-americanas e suscita especulações sobre a eventualidade de Edward Snowden ser, afinal, autorizado a prestar depoimento em território alemão.

RTP /
Gerhard Schindler, presidente da BND Michaela Rehle, Reuters

O serviço alemão Bundesnachrichtendienst (BND) deteve o agente, apanhado em flagrante a oferecer, por e-mail, os seus serviços à "secreta" russa e, segundo Der Spiegel, rapidamente chegou à conclusão que esse delito na forma tentada pouco significava em comparação com o delito na forma consumada: o fornecimento de pelo menos 200 a 300 documentos secretos do BND aos serviços de informações norte-americanos, que terá ocorrido entre 2012 e 2014.

Segundo foi apurado nas investigações realizadas até agora, o agente detido também iniciou a sua colaboração com os norte-americanos pela mesma via algo tosca que utilizou para tomar contacto com os russos: enviando, por e-mail, uma mensagem para a Embaixada dos EUA na Alemanha.

Mas a partir daí, os cuidados conspirativos tornaram-se mais sofisticados. O presidente do BND , Gerhard Schindler, revelou ontem à comissão parlamentar de controlo dos serviços secretos que o agente duplo, que não chegou a ser triplo, se encontrava com os seus interlocutores norte-americanos em distintas localidades austríacas. Os pagamentos parecem ter sido generosos, em tranches de 10.000 euros cada uma.Parlamento espiado, parlamento indignado
Além de fornecer aos EUA documentos secretos do seu próprio empregador, o agente terá espiado atentamente as actividades da comissão parlamentar de controlo sobre as "secretas", com especial incidência para o caso de Edward Snowden, que essa comissão queria ouvir, mas evitando permitir-lhe a entrada em território alemão.

Com excepção do partido da chanceler Angela Merkel (CDU) e do seu partido-irmão na Baviera (CSU), todos os outros partidos parlamentares reagiram com invulgar indignação às notícias de estarem a ser alvo de espionagem norte-americana.

O líder da bancada social-democrata, Thomas Oppermann, embora esteja agora integrado na nova maioria de Governo, não hesitou em declarar: "Se se confirmar a suspeita de espionagem, trata-se de um atentado inaudito contra a nossa liberdade parlamentar. Não há justificação possível para qualquer país ou potência recrutar agentes secretos para espiar parlamentos".

A presidente da fracção parlamentar dos Verdes, Katrin Göring-Eckardt, foi mais longe e exigiu que se tirem consequências práticas do incidente: "Se se confirmar a suspeita de actividades de espionagem contra a comissão parlamentar de inquérito, isso representa um descalabro gigantesco para o BND e para o Governo federal. Todas as cooperações dos serviços de segurança alemães com serviços amigos devem ser reexaminadas".

Por seu lado, o líder parlamentar do Partido da Esquerda, Gregor Gysi, afirmou que "este caso de espionagem prova que a NSA [National Security Agency, dos EUA] não recua perante nada na Alemanha. Se a chanceler e o seu Governo não aumentam a pressão, mas teimam em se encolher, estarão a violar o juramento da sua tomada de posse".

O Governo começou por reagir com perfil baixo, fazendo saber pelo seu porta-voz Steffen Seibert que "a actividade de espionagem para serviços secretos estrangeiros não é alguma coisa que nós encaremos com ligeireza". Daí passou para uma atitude mais musculada, embora ainda aquém do que pedem oposição e SPD: chamou o embaixador norte-americano ao Auswärtiges Amt (o MNE alemão) para lhe pedir explicações.
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