Serviços secretos vs Joe Biden. Afinal, quem falhou no Afeganistão?

Serviços secretos vs Joe Biden. Afinal, quem falhou no Afeganistão?

O caos registado domingo no aeroporto Hamid Karzai em Cabul e o envio apressado de mais tropas para garantir o êxodo final dos norte-americanos do Afeganistão, a duas semanas da data oficial para o término da retirada, irá manchar para sempre a presidência de Joe Biden. Surge agora a dúvida, se o Presidente foi mal assessorado ou se preferiu ignorar os avisos contidos nos relatórios dos serviços de informação.

Graça Andrade Ramos - RTP / Adicionar como fonte informativa
Soldados norte-americanos garantem a segurança no aeroporto de Cabul, Afeganistão, a 18 de agosto de 2021 Reuters

Em Washington já se afiam facas e se procuram culpados pelo fiasco, incluindo declarações de responsáveis da Casa Branca a apontar o falhanço das previsões de agências como a CIA, sobretudo quanto à capacidade de resistência e de luta do exército afegão.

Até julho, e aparentemente apoiado em relatórios, Joe Biden garantia que a queda do Governo de Cabul não se iria dar. "Não é inevitável que o país caia nas mãos dos taliban", afirmava no dia 8 do mês passado.

"Confio na capacidade militar afegã", respondia ainda Biden aos repórteres reunidos na Casa Branca, numa altura em que os combatentes islamitas já dominavam grande parte do Afeganistão rural e dias antes de começarem a conquistar cidades em catadupa.

Segunda-feira passada, um dia após a queda de Cabul, o Presidente garantia que a sua Administração “planeou todas as contingências” no Afeganistão enquanto reconhecia que a situação “progrediu de forma mais rápida do que o antecipado”.

Joe Biden não foi o único perplexo. O rápido avanço surpreendeu até os taliban, conforme reconheceu o porta-voz do seu gabinete político, em entrevista domingo à noite à televisão do Qatar, a Al Jazeera.
Vitória garantida
Os cálculos dos islamitas talvez coincidissem com as avaliações dos serviços secretos norte-americanos, que eram consensuais quanto a uma vitória taliban mesmo antes de o Presidente Donald Trump acordar a retirada condicional das tropas americanas.

Ninguém conseguia contudo acertar datas para os diversos cenários, numa ampla variedade de linhas temporais, afirmou esta semana o New York Times.

Num artigo de análise, o jornal refere depoimentos de dois altos responsáveis da Administração Trump que reviram algumas das avaliações da CIA sobre o Afeganistão.

Ambos afirmaram que os avisos quanto ao poder dos taliban e das forças de segurança afegãs foram generalizados. Mas a Agência nunca quis fornecer uma janela temporal exata e as avaliações podiam ser muitas vezes interpretadas de várias formas, incluindo tanto que o Afeganistão poderia cair rapidamente como ao longo do tempo, afirmaram.

O consenso generalizado apontava para a resistência do Governo afegão por dois anos, um intervalo mais que suficiente para uma retirada tranquila. Ninguém, mesmo considerando a falta de vontade do exército afegão em combater, previa um colapso em poucas semanas.

Em abril passado o Afeganistão mal era mencionado no documento de Avaliação Anual das Ameaças, elaborado pelo gabinete do Diretor dos Serviços Nacionais de Informação dos EUA. A nota breve indicava somente o alto grau de confiança dos taliban numa vitória militar, lembra o NYT. “Os taliban deverão obter avanços no campo de batalha e o Governo afegão terá dificuldades em manter os taliban afastados se a coligação lhe retirar o apoio”, indicava a Avaliação Anual.

Foi com base num quadro de 18 meses de conquista taliban que o Departamento de Estado anunciou no fim desse mês, a 27 de abril, a saída de pessoal não essencial da embaixada de Cabul.

O rápido avanço dos islamitas, em maio e junho seguintes, terá dado os primeiros sinais de alarme. É aqui que as versões começam a divergir.
Incerteza até ao fim
Um alto responsável da Administração Biden afirmou ao NYT, sob anonimato, que mesmo em julho, quando a situação no terreno era cada vez mais imprevisível, as agências de informação nunca forneceram uma data clara quanto à tomada de poder taliban. E nenhuma previsão fornecida tinha o selo “confiança elevada” dado pelas agências aos relatórios com níveis altos de certeza, referiu.

No início de julho as agências ainda aconselhavam as cedências necessárias do Governo afegão para evitar o colapso e uma semana antes da queda de Cabul os dados globais fornecidos à Administração referiam que a conquista taliban - tal como disse Biden - não era inevitável, acrescentou o mesmo alto responsável.

As porta-vozes da CIA e do Diretor dos Serviços Nacionais de Informação declinaram comentar os relatórios entregues à Casa Branca. Mas alguns responsáveis das agências referiram ao NYT que as análises foram sóbrias e que as previsões se foram alterando nos últimos meses e semanas.

Em julho, um relatório da CIA apontou a perda do controlo das estradas para Cabul por parte das forças de segurança afegãs e alertou que a viabilidade do Governo central corria perigo sério. Outros serviços de informação do Departamento de Estado notaram o fracasso do combate das forças afegãs face aos taliban e sugeriram que as condições de segurança poderiam levar à queda do Governo.
Os culpados foram os afegãos
A análise do NYT refere que, dentro da comunidade da recolha, tratamento e análise de dados, persistiram durante meses grandes desacordos quanto à capacidade de resposta do exército afegão.

Enquanto a CIA denunciava com pessimismo há vários anos o treino das forças de segurança afegãs, a Agência de Informações de Defesa e outros grupos de análise do Pentágono eram muito mais otimistas nas suas avaliações sobre o grau de preparação, de acordo com antigos e atuais responsáveis, afirma o jornal.

O problema-chave em todas as análises parece ter sido a vontade de lutar das forças afegãs leais ao Governo.

“A maioria das avaliações, dentro e fora do Governo norte-americano, tiveram por base o eventual comportamento das forças afegãs em combate. Na realidade, elas nunca combateram sequer”, explicou ao NYT Seth G.Jones, um especialista em Afeganistão do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington.

A origem da falha poderá ter sido a não inclusão nos diversos cenários da tendência calculista afegã de se juntar ao lado vencedor, já verificada noutras ocasiões, incluindo na conquista norte-americana do país, há quase 20 anos.

Outra causa poderá encontrar-se na relutância das chefias militares norte-americanas em reportar fracassos nas missões de treino, deserções ou perdas no campo de batalha. Até mesmo os mais céticos generais acreditavam que as forças afegãs iriam lutar.

A razão final para todas as previsões terem falhado poderá contudo ser ainda mais simples. Uma população “tão cansada e farta de guerra que vai apoiar o lado vencedor para garantir a sobrevivência”, referiu ao NYT Lisa Maddox, uma ex-analista da CIA.
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