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Sismo pode baralhar a política na Turquia em ano de eleições e de centenário
A 17 de agosto de 1999, um sismo devastador em Izmit, na Turquia, provocou a morte de mais de 17 mil pessoas. Na altura, o abalo expôs um país com edifícios mal preparados, falhas de desenvolvimento urbano e práticas corruptas. Em 2002, no rescaldo daquela tragédia, o partido do poder à época saiu derrotado nas urnas e entrava em cena um novo primeiro-ministro: Recep Tayyip Erdogan.
Mais de vinte anos depois, com um novo terramoto de proporções semelhantes ou ainda piores, Erdogan enfrenta circunstâncias idênticas. O dia 6 de fevereiro poderá ter um impacto decisivo nos destinos do país e do partido no poder nas últimas duas décadas, o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP).
Com epicentro perto da cidade de Gaziantep, os dois sismos na madrugada de segunda-feira (o primeiro com escala de 7.8 e logo de seguida outro de 7.5) e réplicas que se seguiram destruíram vários edifícios, alguns construídos após 1999, o que vem levantar suspeitas sobre a preparação sísmica, o respeito pelas regulações, a resposta dos serviços de emergência e, em última análise, as consequências desastrosas que poderiam ter sido evitadas numa área do globo com grande atividade sísmica.
Esta sexta-feira, o presidente turco admitiu que a resposta por parte das equipas de resgate não foi tão rápida quanto o Governo gostaria. “Ainda que tenhamos a maior equipa de busca e salvamento do mundo neste momento, é uma realidade que os esforços de busca não estão a ser tão rápidos quanto gostaríamos”, admitiu Recep Tayyip Erdogan, que confirmou a subida no número de mortes confirmadas em território turco: pelo menos 18.991.
Na última quarta-feira, o presidente turco já tinha reconhecido que a resposta inicial por parte das equipas de emergência tinha sido lenta devido ao mau tempo, estradas destruídas e à vasta área afetada pelos sismos.
De acordo com a presidência turca, há equipas de busca e resgate vindas pelo menos de 94 países. Estima-se que pelo menos 24.4 milhões de pessoas na Turquia e na Síria tenham sido afetadas.
Muitos turcos afetados por esta tragédia têm criticado o Governo de Erdogan e referem que não houve uma atuação rápida e imediata por parte das equipas de emergência. Dois dias após o sismo, o acesso ao Twitter esteve restringido por parte das principais operadoras turcas, enquanto a plataforma recebia publicações em tom crítico da atuação das autoridades turcas.
No entanto, os sobreviventes e as próprias equipas de resgate usavam a rede social para comunicar, pelo que as autoridades turcas reestabeleceram os acessos horas depois.
“Enquanto todas as equipas de resgate comunicam com o Twitter, é uma boa ideia desligar o Twitter para calar dissidentes. Muito bom”, criticou o jornalista turco Fatih Altayli através da rede social. O acesso à rede social foi reestabelecido ao fim de sete horas, de acordo com a Netblocks.
A partir da província de Adiyaman, que também foi afetada pelos abalos, houve registo de roubos e ataques. A evacuação de vilas e cidades continua e devido aos vários edifícios destruídos ou danificados, foram disponibilizados vários abrigos, numa altura em que as temperaturas chegam aos 0 graus Celsius.
Numa visita a um destes abrigos de tendas, o presidente turco disponibilizou a ajuda do Governo turco a todos os desalojados.
“Vamos reconstruir estes edifícios num ano e vamos devolvê-los aos cidadãos. Enquanto isso, vamos pagar a renda dos cidadãos que não quiserem ficar em tendas”, acrescentou.
Os eventos de segunda-feira vieram piorar a situação de um país que já vivia um momento difícil. Para além da elevada inflação do país, acima dos 50 por cento, a Turquia terá agora dificuldades económicas acrescidas para se reerguer após o sismo. No domingo, véspera do terramoto, um artigo da BBC elencava os vários problemas económicos no país, com a inflação e o crescente custo de vida.
A caminho das eleições gerais de maio, o parlamento turco tinha aprovado em outubro último uma nova lei de “desinformação”, apresentada pelo partido no poder, o AKP, e que abrange as publicações jornalísticas e também as redes sociais.
De acordo com várias organizações que defendem a liberdade de expressão e de imprensa, citadas pelo jornal The Guardian, a lei em causa “proporciona uma estrutura para uma censura extensiva das informações online e a criminalização do jornalismo, o que irá permitir ao Governo subjugar e controlar ainda mais o debate público”.
Agora, a esta lei junta-se também o estado de emergência, declarado nas regiões mais afetadas pelo sismo para os próximos três meses. Fazendo as contas, este estado de emergência irá terminar pouco tempo antes das eleições gerais de 14 de maio, sendo que ainda poderá ser estendido por mais meses.
Em 2016, Erdogan declarou estado de emergência em todo o país após o golpe de Estado falhado na Turquia. Esse estado de emergência só viria a ser levantado dois anos mais tarde.
Em Kahramanmaras, numa visita aos sobreviventes após o sismo, o presidente turco pedia à população daquela região que não desse “uma oportunidade aos provocadores”.
“Os media não podem dar-lhes uma oportunidade. Agora é um momento para a unidade, para a solidariedade”, vincou, numa resposta às críticas lançadas contra o Governo.
Emre Peker, diretor da secção europeia do think-thank Eurasia Group, considera que, perante a magnitude do desastre que atingiu o país, a resposta “foi rápida e bastante robusta”.
“Se este nível de intensidade na resposta se mantiver, então Erdogan irá sair beneficiado na preparação para as eleições”, considera o perito, citado pelo Financial Times.
Em sentido contrário, Selim Korum, analista do think-thank Tepav, com sede em Ancara, realça que “as pessoas estão infelizes e tendem a votar pela mudança quando estão infelizes”, o que de resto aconteceu após o sismo de 1999.
Os partidos da oposição na Turquia não perderam tempo e já criticam abertamente a resposta do Governo a esta catástrofe. “Se alguém é responsável por isto é Erdogan. Em mais de 20 anos, este governo não preparou o país para um terramoto”, afirmou Kemal Kılıçdaroğlu, líder do maior partido da oposição, o Partido Republicano do Povo (CHP).
Até ao momento, não houve qualquer confirmação de candidatura à presidência, incluindo o próprio Erdogan. Há até a dúvida se o atual presidente turco pode concorrer, uma vez que a Constituição turca prevê que um candidato só possa ser eleito “por dois mandatos, no máximo”.
Com epicentro perto da cidade de Gaziantep, os dois sismos na madrugada de segunda-feira (o primeiro com escala de 7.8 e logo de seguida outro de 7.5) e réplicas que se seguiram destruíram vários edifícios, alguns construídos após 1999, o que vem levantar suspeitas sobre a preparação sísmica, o respeito pelas regulações, a resposta dos serviços de emergência e, em última análise, as consequências desastrosas que poderiam ter sido evitadas numa área do globo com grande atividade sísmica.
Esta sexta-feira, o presidente turco admitiu que a resposta por parte das equipas de resgate não foi tão rápida quanto o Governo gostaria. “Ainda que tenhamos a maior equipa de busca e salvamento do mundo neste momento, é uma realidade que os esforços de busca não estão a ser tão rápidos quanto gostaríamos”, admitiu Recep Tayyip Erdogan, que confirmou a subida no número de mortes confirmadas em território turco: pelo menos 18.991.
Na última quarta-feira, o presidente turco já tinha reconhecido que a resposta inicial por parte das equipas de emergência tinha sido lenta devido ao mau tempo, estradas destruídas e à vasta área afetada pelos sismos.
De acordo com a presidência turca, há equipas de busca e resgate vindas pelo menos de 94 países. Estima-se que pelo menos 24.4 milhões de pessoas na Turquia e na Síria tenham sido afetadas.
Muitos turcos afetados por esta tragédia têm criticado o Governo de Erdogan e referem que não houve uma atuação rápida e imediata por parte das equipas de emergência. Dois dias após o sismo, o acesso ao Twitter esteve restringido por parte das principais operadoras turcas, enquanto a plataforma recebia publicações em tom crítico da atuação das autoridades turcas.
No entanto, os sobreviventes e as próprias equipas de resgate usavam a rede social para comunicar, pelo que as autoridades turcas reestabeleceram os acessos horas depois.
“Enquanto todas as equipas de resgate comunicam com o Twitter, é uma boa ideia desligar o Twitter para calar dissidentes. Muito bom”, criticou o jornalista turco Fatih Altayli através da rede social. O acesso à rede social foi reestabelecido ao fim de sete horas, de acordo com a Netblocks.
A partir da província de Adiyaman, que também foi afetada pelos abalos, houve registo de roubos e ataques. A evacuação de vilas e cidades continua e devido aos vários edifícios destruídos ou danificados, foram disponibilizados vários abrigos, numa altura em que as temperaturas chegam aos 0 graus Celsius.
Numa visita a um destes abrigos de tendas, o presidente turco disponibilizou a ajuda do Governo turco a todos os desalojados.
“Vamos reconstruir estes edifícios num ano e vamos devolvê-los aos cidadãos. Enquanto isso, vamos pagar a renda dos cidadãos que não quiserem ficar em tendas”, acrescentou.
Os eventos de segunda-feira vieram piorar a situação de um país que já vivia um momento difícil. Para além da elevada inflação do país, acima dos 50 por cento, a Turquia terá agora dificuldades económicas acrescidas para se reerguer após o sismo. No domingo, véspera do terramoto, um artigo da BBC elencava os vários problemas económicos no país, com a inflação e o crescente custo de vida.
A caminho das eleições gerais de maio, o parlamento turco tinha aprovado em outubro último uma nova lei de “desinformação”, apresentada pelo partido no poder, o AKP, e que abrange as publicações jornalísticas e também as redes sociais.
De acordo com várias organizações que defendem a liberdade de expressão e de imprensa, citadas pelo jornal The Guardian, a lei em causa “proporciona uma estrutura para uma censura extensiva das informações online e a criminalização do jornalismo, o que irá permitir ao Governo subjugar e controlar ainda mais o debate público”.
Agora, a esta lei junta-se também o estado de emergência, declarado nas regiões mais afetadas pelo sismo para os próximos três meses. Fazendo as contas, este estado de emergência irá terminar pouco tempo antes das eleições gerais de 14 de maio, sendo que ainda poderá ser estendido por mais meses.
Em 2016, Erdogan declarou estado de emergência em todo o país após o golpe de Estado falhado na Turquia. Esse estado de emergência só viria a ser levantado dois anos mais tarde.
Em Kahramanmaras, numa visita aos sobreviventes após o sismo, o presidente turco pedia à população daquela região que não desse “uma oportunidade aos provocadores”.
“Os media não podem dar-lhes uma oportunidade. Agora é um momento para a unidade, para a solidariedade”, vincou, numa resposta às críticas lançadas contra o Governo.
Emre Peker, diretor da secção europeia do think-thank Eurasia Group, considera que, perante a magnitude do desastre que atingiu o país, a resposta “foi rápida e bastante robusta”.
“Se este nível de intensidade na resposta se mantiver, então Erdogan irá sair beneficiado na preparação para as eleições”, considera o perito, citado pelo Financial Times.
Em sentido contrário, Selim Korum, analista do think-thank Tepav, com sede em Ancara, realça que “as pessoas estão infelizes e tendem a votar pela mudança quando estão infelizes”, o que de resto aconteceu após o sismo de 1999.
Espera, por isso, que o Governo tente adiar a votação, em parte devido aos problemas logísticos para a recolha de votos nas zonas mais afetadas após o sismo.
Para além das eleições de 14 de maio, que podem ditar o fim da era Erdogan, este já era um ano de grande simbolismo para os turcos. A Turquia irá celebrar a 29 de outubro de 2023 o seu centenário. O país foi fundado por Atatürk, na sequência da Primeira Guerra Mundial e queda do Império Otomano.
Os partidos da oposição na Turquia não perderam tempo e já criticam abertamente a resposta do Governo a esta catástrofe. “Se alguém é responsável por isto é Erdogan. Em mais de 20 anos, este governo não preparou o país para um terramoto”, afirmou Kemal Kılıçdaroğlu, líder do maior partido da oposição, o Partido Republicano do Povo (CHP).
Até ao momento, não houve qualquer confirmação de candidatura à presidência, incluindo o próprio Erdogan. Há até a dúvida se o atual presidente turco pode concorrer, uma vez que a Constituição turca prevê que um candidato só possa ser eleito “por dois mandatos, no máximo”.