Situação na República Centro-Africana continua imprevisível

Redação, 19 jul (Lusa) -- O Presidente de transição da República Centro-Africana (RCA), Michel Djotodia, está a tentar restaurar a segurança na capital Bangui, mas esse objetivo dificilmente será alcançado, pelo que a situação continuará "imprevisível", afirmou hoje à Lusa um analista.

Lusa /

"O governo de Djotodia está a tentar restaurar a segurança em Bangui e controlar a delinquência dos combatentes afetos à coligação Séléka, mas esse objetivo dificilmente terá efeitos práticos", afirmou à agência Lusa Thierry Vircoulon, analista responsável para a região da África Central do International Crisis Group (ICG), uma organização independente voltada para a resolução e prevenção de conflitos armados internacionais.

Contactado a partir de Lisboa, este especialista alertou para a "imprevisibilidade da situação" que se continua a viver não só na capital Bangui, mas em todo o país, quase quatro meses após os grupos rebeldes do Séléka terem tomado de assalto o poder, depondo o presidente François Bobizé.

Vircoulon lembrou que o governo do novo homem forte do país "não tem sido capaz" de controlar os vários grupos de combatentes (entre os quais vários mercenários provenientes do Chade e do Sudão) e restabelecer a lei e a ordem na capital, onde, apesar de algumas melhorias, se continua a viver uma "atmosfera de banditismo".

"Neste momento há cerca de 25 mil combatentes do Séléka em Bangui, cinco vezes mais do que o número inicial. E simplesmente não há dinheiro para pagar toda essa gente", explicou Thierry Vircoulon.

É por isso que as pilhagens e a delinquência deverão continuar, sustentou.

A Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH) acusou na quarta-feira os combatentes do Séléka de terem cometido "mais de 400 assassinatos" nos últimos quatro meses e de continuarem a "cometer crimes graves contra a população civil".

A maioria dos combatentes são oriundos do nordeste do país, uma área geograficamente isolada, marginalizada e perigosa, situada junto às fronteiras permeáveis com o Chade, o Sudão e Sudão do Sul (Darfur) e República Democrática do Congo.

Thierry Vircoulon foi parco nas palavras quando questionado sobre as declarações do atual presidente Michel Djotodia, afirmando ser "muito difícil" que o chefe de Estado deposto François Bozizé regresse ao país.

"Acho muito improvável, até porque há um mandado de captura contra ele por crimes contra a humanidade", lembrou.

Na terça-feira, durante uma visita oficial ao Benim, Michel Djotodia afirmou que não se opunha ao regresso do antigo chefe de Estado, no exílio em lugar incerto desde março.

"Bozizé é centro-africano e poderá regressar à casa quando a calma voltar [ao país]. Ele é livre e nós não nos oporemos ao seu regresso", afirmou o novo homem forte da RCA.

O analista do ICG disse ainda que com a digressão realizada a vários países africanos, entre os quais o Chade, Burquina Faso e mais recentemente ao Benim, Michel Djotodia procura "legitimar o seu governo e a forma com chegou ao poder".

No Benim, Djotodia terá pedido apoio ao presidente Boni Yayi nos esforços para reintegrar a RCA na União Africana, de onde fora excluída após o golpe.

A UE afirmou, na semana passada, a sua determinação em reforçar a ajuda concedida ao país para evitar que a RCA mergulhe definitivamente no caos e se transforme "numa nova Somália".

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