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Só os mais pobres e as elites lembram o líder da revolução chinesa

Só os mais pobres e as elites lembram o líder da revolução chinesa

Trinta anos depois da morte de Mao Zedong, só a classe mais desfavorecida ou as elites comunistas evocam ainda o nome do fundador da República Popular da China.

Agência LUSA /

Enquanto os mais pobres lembram com nostalgia os tempos em que todos eram igualmente pobres, as elites políticas do Partido Comunista Chinês (PCC), fundado por Mao, agarram-se ainda à memória do homem que morreu a 09 de Setembro de 1979, com 83 anos, disse Xu Wei-fang, da Universidade Nacional de Singapura.

"A actual liderança chinesa tem de continuar o culto a Mao Zedong, porque foi ele que estabeleceu os alicerces do poder do actual PCC. Por isso, o debate público e livre na China sobre o legado de Mao é ainda proibido, porque põe por em causa o regime de partido único", acrescentou.

Apesar disso, o juízo que alguns habitantes de Xangai, cidade onde Mao fundou o Partido Comunista Chinês, fazem hoje do líder da Revolução Cultural está longe de ser unânime, desde a indiferença das novas gerações às amáveis memórias do "Grande Timoneiro" que têm os excluídos da economia de mercado na qual a China se tornou quando, no final da década de 70, sob a direcção de Deng Xiaoping - perseguido por Mao -, o PCC adoptou uma nova política tendo como objectivo fundamental o desenvolvimento económico.

"Com a morte de Mao, para além da religião, a primeira coisa a renascer na China foi a boa comida", lembra o escritor Ian Buruma.

Ao ouvir a opinião de uma das empregadas de mesa do "M on the Bund", um elegante restaurante de Xangai onde a comida é deliciosa, é impossível não pensar que, com o passar das gerações, ao contrário do que defendia Mao Zedong - "a revolução não é um jantar de gala" -, a "revolução" transformou-se, de facto, em "jantar de gala".

"Para pessoas da idade dos meus pais, Mao foi um herói apesar do grande erro que foi ter liderado a Revolução Cultural", disse Mandy Zhao, 29 anos, numa referência aos dez caóticos anos, entre 1960 e 1970, em que terão morrido entre um e dois milhões de chineses em movimentos de massa, com o pretexto da criação da sociedade sem classes.

Mao, diz a empregada do restaurante que é também designer, "deu orgulho ao povo chinês" e "pôs a China em paz" após 23 anos de uma duríssima guerra civil que opôs comunistas contra nacionalistas, apoiantes do anterior partido no poder na China.

"Mas Mao morreu antes de eu nascer, e o herói da minha geração é Deng Xiaoping. Foi ele que nos permitiu voltar a ter uma vida normal, desenvolveu a China e, graças a ele, temos tudo isto", disse Mandy, e apontou para os arranha-céus de Pudong, o bairro de negócios ultra-moderno de Xangai, em frente à esplanada do "M on the Bund", na margem oposta do rio Huagpu, que atravessa a capital económica e financeira da China.

A Torre Jianmao, que domina Pudong, é o orgulho da arquitectura moderna de Xangai. O prédio é visível de quase qualquer canto da cidade e, com 420,5 metros de altura, é um dos mais altos edifícios do mundo.

Ling Yu, 56 anos, um náufrago do maoísmo, engraxa sapatos à sombra dos 88 andares da torre. Por causa das políticas de Mao, foi forçado a deixar o liceu a meio para ir para as regiões rurais, durante seis anos, "construir a revolução".

A pouca instrução que tinha era suficiente para trabalhar na fundição de Heilongjiang, no nordeste da China, para onde foi depois de deixar o campo e de onde foi despedido em 1999.

Emigrou para Xangai onde, sem casa, trabalha na chamada economia informal. O proletariado, os antigos "aristocratas da revolução" a quem Mao chamou de "grande exército patriótico na guerra da industrialização", pede agora esmola, abandonado pelo Partido.

"Com Mao, as pessoas morriam de fome por todo o lado. Mas agora é a mesma coisa e pelo menos nesses tempos toda a gente era tratada da mesma maneira", disse Ling.

"As pessoas com instrução não se davam ares, nem tinham coragem de dar ordens aos operários como se nós fossemos escravos, senão o Presidente Mao mostrava-lhes o que era bom", lembrou o engraxador, à medida que os carros de luxo entravam no parque da Torre Jianmao.

Se o "M on the Bund" e a Torre Jianmao são o pós- maoísmo, o pré-maoísmo está na casa-museu no número 374 da rua de Huangping. A casa de tijolo do início do século XX foi o local onde Mao lançou a sua carreira política, quando, junto com 13 camaradas, fundou o Partido Comunista Chinês em Julho de 1921.

A casa é hoje um museu. Um dos visitantes é o senhor Zhang, 54 anos, que preferiu não dizer o nome próprio e é cozinheiro na província de Hunan, no centro do país, a mesma onde nasceu Mao.

Sobre Mao, Zhang deu a resposta típica de alguém da sua geração. Diz que "ama o homem", que "ele deu a toda a gente as mesmas oportunidades, deu oportunidades aos pobres". Mas em resposta a outra pergunta, disse também que o governo actual faz bem "em deixar algumas pessoas enriquecer". "E para uns enriquecerem, outros têm de ser pobres", concluiu.

Ian Buruma, para explicar a razão de ser das opiniões contraditórias sobre Mao Zedong, defende que muitos chineses da geração de Zhang foram companheiros do pesadelo de Mao, tal o nível de participação popular na Revolução Cultural, onde filhos denunciaram os pais, irmãos denunciaram irmãos.

"Quase ninguém que viveu debaixo do poder de Mao foi inteiramente uma vítima ou um carrasco. A maioria das pessoas foi as duas coisas. Esta foi parte da perversidade do maoísmo: quase todos os chineses urbanos foram cúmplices, numa ocasião ou outra", disse Buruma.

As novas gerações levam Mao menos a sério. A menos de 50 metros do número 374 da rua de Huangping, Tang Tze Ann, 26 anos, vende apartamentos onde cada metro quadrado custa entre quatro mil e oito mil euros (40 mil e 83 mil reminbi).

Quando a Agência Lusa lhe pediu a opinião sobre Mao Zedong, Tze Ann sorriu, olhou em volta, e disse apenas: "já ninguém fala dele, morreu antes de eu nascer".

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