Sobrepesca de atum. Lobistas na delegação da UE preocupam países afetados

Uma investigação do Guardian revelou que mais de metade dos membros da delegação da União Europeia para regular a pesca de atum são lobistas da indústria pesqueira. A informação pode estar na origem da recente oposição da UE a um acordo das nações costeiras africanas e asiáticas para restringirem o uso de dispositivos de agregação de pescado (FAD), que colhem de forma desproporcionada espécies como o atum.

Joana Raposo Santos - RTP /
A percentagem de lobistas na delegação europeia tem aumentado desde 2015. Foto: Ann Wang - Reuters

Os FAD consistem em enormes jangadas flutuantes que atraem peixes ao projetarem uma sombra, facilitando assim a captura de grandes quantidades destes animais pelas embarcações.

Estes dispositivos têm sido criticados por contribuírem para a sobrepesca de atum-amarelo e por atraírem espécies como tartarugas, tubarões e mamíferos em risco de extinção, que acabam por ser apanhados pelas redes de cerco. Além disso, contribuem para a poluição dos oceanos, já que são habitualmente feitos de plástico e por vezes perdem-se ou são descartados no mar.Cadeias de supermercados como a Tesco, Co-op e Princes já exigiram ações mais firmes para a conservação e reconstrução da indústria do atum-amarelo.

Em fevereiro deste ano, a Indonésia e outras dez nações costeiras da África e Ásia, incluindo a Índia, o Sri Lanka ou o Paquistão, propuseram uma proibição de 72 dias no uso de FAD. A medida foi aprovada com uma maioria de dois terços pela Comissão do Oceano Pacífico para o Atum (IOTC) e foi considerada uma “grande vitória” por parte dos defensores da vida marinha.

No entanto, no início de abril, a União Europeia – a maior responsável pela pesca de atum na região – opôs-se à medida e não a aplicou. A ação de Bruxelas foi classificada pelos críticos de “neocolonialismo” e levantou preocupações com a influência dos lobistas espanhóis e franceses, acusados de ignorarem a vontade das nações costeiras.

Uma investigação recente do Guardian revela que, na última reunião anual da IOTC, 24 dos 40 membros da delegação da União Europeia eram lobistas classificados como “conselheiros”.

Numa reunião mais pequena sobre FAD este ano, pelo menos metade dos dez representantes europeus pertenciam à indústria do atum.
UE nega ser dominada por interesses comerciais
Segundo o Guardian, a percentagem de lobistas na delegação europeia tem aumentado desde 2015, quando o atum-amarelo foi declarado em risco pelos cientistas da Comissão do Oceano Pacífico para o Atum.

A organização não-governamental francesa Bloom lançou um relatório em janeiro no qual calculou que o número de lobistas da indústria do atum na delegação europeia mais do que duplicou em anos recentes, aumentando de oito em 2015 para 18 em 2021.

Um funcionário da Comissão Europeia declarou entretanto, em comunicado, que os representantes da indústria “não têm responsabilidade na tomada de decisões” da IOTC e frisou que a UE foi a principal responsável pela apresentação de propostas no ano passado, incluindo uma sobre a gestão do uso de FAD e da pesca de atum.

“O que não se esperaria caso os interesses comerciais dominassem a posição da União Europeia”, acrescentou.
“Quando todos os peixes desaparecerem”
As preocupações com a influência da indústria europeia nos Estados costeiros do Oceano Índico aumentaram ainda mais após as Seicheles terem apresentado à IOTC duas propostas que incluíam mudanças aparentemente formuladas pela Europeche (corpo representativo dos pescadores da UE) e outros grupos da indústria.

Jess Rattle, líder das investigações da organização Blue Marine Foundation, que se opõe à sobrepesca, disse ao Guardian que as ações da UE vão contra os compromissos assumidos no tratado de alto mar acordado no mês passado para proteger a biodiversidade.

“A UE abandonou totalmente esta causa em favor da pilhagem dos stocks já sobreexplorados do Oceano Índico, com a certeza de que, quando todos os peixes desaparecerem, a sua frota altamente desenvolvida pode simplesmente mudar-se para outro oceano, ao contrário dos muitos Estados costeiros deixados para trás sem peixe”, criticou.
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