Soldado que ousou criticar guerra rejeita que mundo esteja mais seguro
Londres, 07 out (Lusa) - Joe Glenton, o soldado britânico que ousou criticar a guerra do Afeganistão, voltaria à prisão militar para reiterar oposição sobre o conflito, que rejeita ter tornado o mundo mais seguro.
"Faria de bom grado mais cinco meses na prisão pela forma como mudou e moldou a minha consciência", afirmou à agência Lusa.
No ano passado, Glenton foi julgado por um tribunal militar e condenado a nove meses de prisão por ter fugido para a Ásia e Austrália em 2007 pouco antes de embarcar numa segunda missão no Afeganistão.
Só voltou dois anos depois para se tornar numa das principais vozes do movimento contra a guerra e será um dos oradores de uma manifestação marcada para sábado em Londres.
O antigo soldado conta que foi para o Afeganistão a primeira vez em 2006 na convicção de que ia "ajudar aquelas pessoas [afegãos] e melhorar as suas condições de vida".
"Mas quando lá chegámos [percebemos] eles não faziam parte da agenda, era tudo incrivelmente dispendioso para pouco ganho", lamentou.
Ficou também chocado com a "sensação de cruzada, sobretudo entre os norte-americanos".
Depois de regressar, investigou os argumentos contra a guerra e concluiu que "eram mais fortes".
A intervenção militar internacional no Afeganistão começou em 2001, na sequência dos ataques terroristas do 11 de setembro nos EUA, com o objetivo de destruir a base e os campos de treino da Al Qaeda.
Mas Glenton entende que "a resposta foi desproporcionada" e que "o terrorismo é um crime, não merece uma solução militar".
O ativista anti-guerra está convencido de que "na prática, o 11 de setembro foi um cabide para pendurar um casaco" e que os EUA já estavam interessados em invadir países como o Afeganistão e o Iraque, o qual acabou por invadir em 2003.
Por outro lado, contrapõe que fosse necessário destruir os campos de treino dos terroristas e recordou que os autores dos atentados "não eram afegãos".
"Claramente, se alguém decidia viajar do Reino Unido ou de Berlim ou Madrid para o Afeganistão para receber treino, não era lá que eram radicalizados, já eram extremistas através da decisão que tomaram", argumentou.
Glenton é um dos subscritores de uma carta de vinte veteranos britânicos e norte americanos que pretende entregar na residência oficial do primeiro-ministro, em Downing Street.
O antigo soldado diz que há um número crescente de militares revoltados com a guerra e o impacto das medidas de austeridade nas forças armadas e no país.
"Há cada vez menos patriotas no serviço militar", afirmou.
Relaciona também o conflito com a crise financeira global.
"A luta contra o terrorismo", garante, "nunca foi feita para tornar o mundo mais seguro, nunca foi essa a intenção, foi tudo por recursos, dinheiro e poder".