"Soldados imigrantes" morrem no Iraque

O fuzileiro Binh Le foi enterrado no cemitério de Arlington, local de repouso final de soldados, heróis e presidentes do outro lado do Rio Potomac que divide a capital norte- americana dos subúrbios dos Estados de Virgínia e de Maryland.

Agência LUSA /

Num dia cinzento e frio, com as bandeiras dos Estados Unidos e Vietname a flutuarem ao vento gelado que soprava por entre as árvores desnudadas do cemitério, os pais ouviam, através de um tradutor, as palavras elogiosas de oficiais à curta vida de Le, nascido no Vietname e morto no Iraque ao serviço de um país, onde tinha vindo procurar um futuro melhor.

O fuzileiro de origem vietnamita foi a enterrar não muito longe de Michael Tarlavsky, nascido na Letónia, membro das Forças Especiais norte-americanas e de Rayan Tejeda, nascido na República Dominicana, ambos mortos em combate no Iraque. Tal como eles, o caixão de Le desceu à terra envolto na bandeira americana.

Se no início da guerra no Iraque, as notícias de baixas no Iraque de soldados estrangeiros provocaram certa surpresa, hoje isso merece atenção especial dos jornais norte-americanos apenas quando se trata de um imigrante da cidade onde se publica o jornal.

Ou quando algo de invulgar se passa como aconteceu recentemente quando o sargento Hilberto Caesar, da Guiana, que perdeu uma perna no Iraque, recebeu a cidadania norte-americana numa cerimónia em Washington.

Actualmente há cerca de 36.000 "soldados imigrantes" nos diversos ramos das forças armadas norte-americanas, uma "Legião Estrangeira" que segundo o Pentágono geralmente varia entre os três e os cinco por cento do total dos efectivos militares.

Segundo estatísticas oficiais, cerca de um terço desses soldados são provenientes da América Latina e os outros dos mais diversos países como China, Vietname, Canadá, Coreia e Índia.

No Iraque, as mortes entre esses soldados enquadram dentro dessa percentagem. Segundo dados oficiais, as mortes de soldados estrangeiros nas forças armadas norte-americanas no Iraque são pouco mais de 3 por cento do total do número de óbitos.

Em Julho de 2002, o presidente norte-americano, George W. Bush assinou um decreto em que dá oportunidade aos "soldados imigrantes" a pedir a cidadania dos Estados Unidos sem terem de esperar os cinco anos necessários para os outros emigrantes e após receber autorização de residência permanente nos Estados Unidos.

Segundo estatísticas dos Serviços de Imigração, desde Julho de 2002 até Agosto de 2004 "cerca de oito mil" membros das forças armadas norte-americanas requereram e obtiveram cidadania norte-americana. Os pedidos de cidadania de membros das forças armadas atingiam em 2004 uma média de cerca de mil por mês.

Para muitos desses "soldados imigrantes", a cidadania abre as portas a oportunidades de maior promoção ou à possibilidade de trazerem familiares para os Estados Unidos.

O soldado Elvis Barahona, que deixou as Honduras "e a pobreza" em 2001, afirma que o facto de ser agora cidadão norte-americano lhe vai permitir trazer para o país a mulher e filha.

O soldado Reyes Hernandez, nascido em El Salvador e veterano do Iraque onde fazia parte de um pelotão com seis "soldados imigrantes" disse ter adquirido a cidadania norte-americana para "avançar na carreira militar". Para se ser oficial, as leis militares requerem a cidadania norte-americana.

"Dentro do exército ser cidadão nacional ajuda a obter promoções e abre muitas portas", disse Hernandez que pretende estudar para ser detective da polícia de Nova Iorque quando deixar o exército.

Especialistas concordam que, mais do que a cidadania ou promoções dentro das forças armadas, as possibilidades de se obter cursos técnicos são um dos grandes incentivos ao recrutamento de jovens imigrantes.

As forças armadas, totalmente formadas por voluntários, são com efeito vistas como um instrumento de ascensão social.

Para atrair recrutas, o exército, marinha, força aérea e fuzileiros (os "Marines" - um ramo separado nos Estados Unidos) oferecem bolsas de estudo para todo o tipo de especialização que vão desde cursos técnicos a cursos universitários.

O sargento Lee Rivas, que trabalhou num departamento de "integração" de imigrantes da secção de pessoal do exército, afirma que muitos imigrantes provenientes da América Latina vêem as forças armadas como um veículo para adquirir conhecimentos e estudos que não conseguiriam na vida civil.

Para Rivas, muitos desses imigrantes entram nas forças armadas norte-americanas com pouca educação formal e, ao sair, afirmam "terem sido os militares que lhes deram conhecimentos para poderem progredir e tornarem-se cidadãos produtivos".

Rivas acrescentou que ele próprio se juntou às forças armadas norte-americanas para beneficiar de estudos gratuitos, acabando por tirar um bacharelato em ciências pago pelo exército antes de passar à reserva como "especialista".

As vantagens educacionais são, aliás, um dos aspectos mais notáveis dos anúncios na televisão incentivando o serviço militar.

"Sê tudo o que podes ser", garante o anúncio do exército norte- americano, sublinhando os cursos técnicos que se podem tirar e as bolsas de estudo que se podem receber em troca do serviço militar.

Esta pode ser uma das razões por que em zonas de grande presença de imigrantes estes continuam a ser a principal fonte de voluntários.

Estatísticas mostram que na cidade de Nova Iorque cerca de 40 por cento dos recrutas para a Marinha, 36 por cento dos recrutas para os fuzileiros e 27 por cento para o exército são imigrantes.

Em Los Angeles, 50 por cento dos recrutas para todos os ramos das forças armadas são igualmente imigrantes.

Por outro lado, as forças armadas norte-americanas são vistas por muitos jovens imigrantes como um local que não discrimina e que dá segurança.

O facto de destacados dirigentes das forças armadas, como o general John Shalikashvili, antigo chefe do Estado-maior das forças armadas, o general Ricardo Sanchez, que comandou as forças norte- americanas no Iraque e o general John Abizaid, comandante do comando central norte-americano, serem imigrantes nacionalizados ou filhos de imigrantes ajuda a projectar a imagem de uma instituição que não discrimina e oferece as mesmas oportunidades a todos.

Para o pai de Binh Le, enterrado em Arlington, a decisão do filho em ser voluntário nos "Marines" foi, no entanto, errada.

"Mas ele fez o que achou que era melhor para a sua família, para ele e para o seu país", disse a uma estação de rádio local.

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