Soldados israelitas denunciam regras de combate “permissivas” em Gaza

A última ofensiva de Israel contra a Faixa de Gaza assentou em regras "permissivas", entre as quais o princípio de que seria "melhor matar um inocente do que hesitar em atingir um inimigo". A conclusão consta de um relatório com depoimentos anónimos de 26 operacionais e reservistas do Estado hebraico. As patentes classificam o documento como uma colectânea de "boatos".

RTP /
Seis meses depois da ofensiva israelita, começam os trabalhos de reconstrução na Faixa de Gaza, coordenados pela ONU Ali Ali, EPA

Entre 27 de Dezembro e 18 de Janeiro, os soldados das Forças de Defesa de Israel destacados para a Faixa de Gaza terão manobrado ao abrigo de ordens para disparar sem uma destrinça prévia entre civis e combatentes leais ao Hamas ou aos demais grupos extremistas palestinianos. É esta a ideia comum aos depoimentos atribuídos a 14 operacionais e 12 soldados reservistas do Exército israelita (Tsahal). Relatos coligidos sob a forma de um relatório pela organização Breaking the Silence, formada por veteranos de Israel.

"Disseram-nos que os soldados deveriam ser protegidos pelo poder de fogo. Os soldados foram levados a perceber que as suas vidas eram mais importantes e que não haveria forma de os nossos soldados serem abatidos para dar o benefício da dúvida a civis", descreveu um dos soldados citados pela organização israelita.

No conjunto dos depoimentos, o retrato do comportamento recomendado pelas chefias militares é sempre o mesmo. A diferença está nas palavras escolhidas. Outro dos efectivos que a Breaking the Silence alega ter ouvido descreve um "poder de fogo insano" lançado sobre o território governado pelo Hamas: "Se não tiverem a certeza, matem. Avançámos e as explosões eram simplesmente loucas. A partir do momento em que chegámos ao ponto de partida, começámos simplesmente a disparar contra locais suspeitos. Na guerra urbana, qualquer pessoa é o nosso inimigo. Não há inocentes".

Civis usados como escudos

Uma das tácticas relatadas dava pelo nome de "procedimento de vizinho": as tropas israelitas obrigariam civis palestinianos a entrarem em edifícios suspeitos antes de um ataque, de forma a dar maior cobertura aos soldados do Tsahal.

Outra das tácticas, que receberia como nome de código "o dia seguinte", passava pela destruição sistemática de casas e infra-estruturas nas zonas próximas da linha de fronteira com Israel, criando-se assim as condições para futuras operações militares. No decurso destas manobras, ter-se-ão multiplicado os incidentes de vandalismo contra propriedade palestiniana, desde logo disparos indiscriminados na direcção de tanques de água, numa altura em que a Faixa de Gaza se debatia com a escassez daquele bem essencial.

É também referido o uso de munições de fósforo branco contra a população civil, uma prática abrangida por uma alegada estratégia de "destruição em massa que não estava relacionada com qualquer ameaça directa às forças israelitas".

"Não recebemos instruções para disparar sobre qualquer coisa que se mexesse. Mas éramos geralmente instruídos para disparar se nos sentíssemos ameaçados. Eles estavam sempre a repetir-nos que aquilo era uma guerra e que, numa guerra, abrir fogo não era restringido", adiantou um dos soldados israelitas.

Guerra dos 22 dias

A 27 de Dezembro de 2008, Israel desencadeava uma operação com o objectivo declarado de suster os sucessivos disparos de rockets contra localidades no Sul do Estado hebraico, a partir da Faixa de Gaza. Segundo os serviços médicos do território controlado pelo Hamas, a ofensiva causou as mortes de 1.400 palestinianos, entre civis e militantes islamistas. Grupos de activistas palestinianos referem, por sua vez, 1.417 mortos, entre os quais 926 civis.

O Exército israelita limita a 1.166 o número de vítimas mortais palestinianas (295 civis) e admite ter sofrido dez baixas. Entre 27 de Dezembro e 18 de Janeiro, morreram três civis israelitas.

Para minimizar o risco de ataques com armas ligeiras e engenhos explosivos dissimulados, a artilharia, a aviação e as escavadoras blindadas D-9 das Forças de Defesa de Israel arrasaram quarteirões inteiros em Gaza. Só agora, decorridos seis meses, começaram os trabalhos para remover 600 mil toneladas de entulho deixado pela máquina de guerra israelita naquela cidade palestiniana. Números das Nações Unidas referem a destruição de mais de 50 mil casas, 200 escolas, 800 propriedades industriais, 39 mesquitas e duas igrejas.

Os testemunhos anónimos - um homem identificado como sargento Amir é a única excepção - desfiados nas 112 páginas do relatório vão ao encontro das posições assumidas por múltiplas organizações de defesa dos Direitos Humanos, que acusam a engrenagem de guerra israelita de empregar, de forma sistemática e indiscriminada, um poder bélico de grande desproporção.

Uma investigação conduzida pelo Exército israelita concluiu que as tropas do Estado hebraico combateram dentro das fronteiras da lei, mas admitiu que houve erros, um dos quais resultou nas mortes de 21 membros da mesma família, abatidos no interior de uma casa. Por sua vez, uma equipa de investigadores da Liga Árabe afirmou ter reunido provas suficientes para inculpar os militares e os governantes Israel por crimes guerra e contra a humanidade, reservando a mesma acusação aos militantes palestinianos que atacaram civis israelitas com rockets.

Israel rejeita "boatos"

Na reacção ao relatório da Breaking the Silence, as Forças de Defesa de Israel, pela voz da tenente-coronel Avital Leibovich, desvalorizaram um conteúdo baseado em "boatos ou rumores".

"O Exército lamenta o facto de outra organização de Direitos Humanos ter aparecido com um relatório baseado em testemunhos anónimos e gerais, sem investigar a sua credibilidade", declarou a porta-voz, citada pela edição on-line da BBC. Leibovich acrescentou: "As Forças de Defesa de Israel esperam que todos os soldados façam chegar quaisquer alegações às autoridades apropriadas. Isto é ainda mais importante quando os danos atingem não combatentes. As Forças de Defesa de Israel têm valores éticos incondicionais que continuam a guiá-las em qualquer missão".

O ministro israelita da Defesa, Ehud Barak, reage em sentido semelhante, descrevendo as tropas do país como "um dos exércitos mais morais do Mundo, que se comporta de acordo com o mais elevado código ético".

Os autores do relatório deixam um apelo à "sobriedade" da "sociedade israelita" e dos "seus líderes", que, alertam, correm o risco de "cair juntos no escorregadio declive moral".

PUB