Reino Unido. Keir Starmer anuncia demissão dois anos após tomar posse

Reino Unido. Keir Starmer anuncia demissão dois anos após tomar posse

O primeiro-ministro britânico anunciou esta segunda-feira a demissão do cargo. Keir Starmer, que deixa também a liderança do partido, afirmou que os últimos dois anos foram "o maior orgulho da sua vida". O nome do futuro inquilino do número 10 de Downing Street deverá ser conhecido nos próximos meses.

Cristina Sambado - RTP /
Foto: Jaimi Joy - Reuters

“Há seis anos, herdei um Partido Trabalhista que estava falido", afirmou Keir Starmer, que revelou que já comunicou a decisão de se demitir ao rei Carlos III.   

“Disseram-me vezes sem conta que o meu partido estava acabado, que estávamos condenados à história, que uma maioria nas eleições gerais, quanto mais uma esmagadora maioria, era impossível”.

O primeiro-ministro demissionário revelou ainda que chefiou “um novo Governo trabalhista, o primeiro em 14 anos” e que foi uma página “na história do nosso país virada após anos de desilusão e desespero, a hipótese de mudar a vida de milhões de pessoas para melhor”.

“Foi para isso que entrei na política. A viagem até este ponto não foi fácil. Disseram-me vezes sem conta que o meu partido estava acabado, que estávamos condenados à história, que uma maioria nas eleições gerais, quanto mais uma esmagadora maioria, era impossível”, acrescentou. 


Starmer frisou ainda que aceita "com elegância" que não é a pessoa mais indicada para liderar o Partido Trabalhista nas próximas eleições.

A pergunta que o meu partido está a fazer agora é se sou a pessoa mais indicada para nos liderar nas próximas eleições gerais. Ouvi a resposta do meu partido a esta questão e aceito-a de bom grado. Todas as decisões que tomei tinham como objetivo colocar o país que amo em primeiro lugar. É por isso que renunciarei à liderança do Partido Trabalhista”, sublinhou. 

Keir Starmer, cuja impopularidade é refletida nas sondagens, estava sob intensa pressão interna para se demitir na sequência de vários erros políticos e após maus resultados nas eleições locais e regionais de maio.
O primeiro-ministro demissionário considera também que provou que “os críticos estavam errados”.

“Provámos que estas pessoas estavam erradas porque mudámos o nosso partido, extirpando o veneno do antissemitismo, restaurando a confiança na economia, na defesa e na segurança nacional e tornando-nos num partido que, mais uma vez, se posicionou orgulhosamente ao lado de Deus perante a nossa bandeira nacional”.Para Keir Starmer, “o árduo trabalho de mudança tinha um propósito singular: não o poder pelo poder, mas antes mudar a Grã-Bretanha para melhor, construir um país mais justo, com dignidade e respeito, onde todos sejam vistos, todos sejam valorizados, e onde haja riqueza e oportunidades para todos, não apenas para alguns privilegiados”O trabalho feito em dois anos
Num autoelogio ao Governo que liderou, Starmer elencou o que foi feito em dois anos.

Uma economia mais forte e a crescer mais rapidamente do que a dos nossos pares, com os salários a subirem acima da inflação todos os meses desde que assumimos o poder. Investimentos garantidos, infraestruturas a serem construídas, fim da austeridade com a maior queda nas listas de espera do NHS (Serviço Nacional de Saúde) em 17 anos, a maior melhoria nos direitos dos trabalhadores e dos inquilinos numa geração”.

Keir Starmer garantiu também que foi o “maior aumento dos gastos com defesa desde a Guerra Fria”.

“Redução das travessias em pequenas embarcações, encerramento de hotéis para requerentes de asilo, proteção dos jovens contra as redes sociais e meio milhão de crianças a sair da pobreza graças às decisões que tomei”, continuou.

Além disso, o primeiro-ministro demissionário realçou que “a reputação do país no mundo restaurada, com a Grã-Bretanha a defender mais uma vez a decência, o respeito e o Estado de direito, a garantir acordos comerciais, a apoiar a Ucrânia, a defender os nossos valores e a reconstruir a nossa relação com os nossos aliados na Europa. Mudanças prometidas por um governo trabalhista. Mudanças pelas quais um governo trabalhista lutou. Mudanças concretizadas por um governo trabalhista”.O calendário que se segueStarmer afirmou ainda que o novo primeiro-ministro assumirá funções em meados de julho, caso Andy Burnham não tenha oposição, ou até ao final de agosto, se houver eleições.

“Solicitarei ao comité executivo nacional do Partido Trabalhista que estabeleça um calendário, com as nomeações a abrirem a 9 de julho e a concluírem até ao regresso parlamentar de verão”.

Starmer, que está no cargo há menos de dois anos, desde a vitória esmagadora do seu Partido Trabalhista nas eleições, afirmou que as nomeações para a sua sucessão terão início a 9 de julho. O seu rival, Andy Burnham, é o favorito absoluto.Em caso de disputa, isto garantirá que um novo líder esteja empossado antes do regresso do parlamento em setembro.

“Permanecerei no cargo de primeiro-ministro até que a disputa esteja concluída e farei tudo o que estiver ao meu alcance para garantir uma transição de poder tranquila”.

O recesso parlamentar de verão começa a 16 de julho e, por isso, se Andy Burnham não tiver oposição (como parece cada vez mais provável – apesar de Wes Streeting ter dito anteriormente que se iria candidatar definitivamente), tornar-se-á primeiro-ministro em meados do próximo mês.

Se houver disputa, o novo primeiro-ministro tomará posse até ao final de agosto. A Câmara dos Comuns regressa após o recesso de verão, a 1 de setembro.Darei também ao meu sucessor o meu total e inequívoco apoio, sabendo que herdará uma Grã-Bretanha muito mais forte e justa do que aquela que herdei há dois anos, mais bem preparada para os desafios que se avizinham e mais capaz de garantir que o Partido Trabalhista conquiste um segundo mandato”, realçou.

O primeiro-ministro demissionário deixou ainda uma palavra de agradecimento a “ todos os amigos e colegas que estiveram ao meu lado nestes últimos seis anos pelo seu incrível empenho, serviço e apoio”.

“Quero agradecer à brilhante equipa do nº 10 e ao extraordinário funcionalismo público do nosso país, que dedicam a sua vida ao serviço público”.

Starmer terminou o discurso frisando que vai deixar o "maior cargo do país" para dedicar mais tempo ao "trabalho mais importante", como pai e marido.

“E quando deixar o cargo mais importante do país, dedicarei mais tempo ao mais importante: ser o melhor marido possível para a minha fantástica mulher, Vic, que tem sido um porto seguro ao meu lado nos bons e maus momentos, e ser o melhor pai possível para os meus lindos filhos, que são o meu orgulho e a minha alegria”.
Libra esterlina em queda

A libra esterlina caiu e os custos dos empréstimos no Reino Unido subiram ligeiramente esta segunda-feira, depois de o primeiro-ministro Keir Starmer ter anunciado a sua demissão e a nomeação de um novo líder até setembro, deixando os investidores sem clareza sobre como o próximo líder britânico poderá gerir a economia.

A libra esterlina, que perdeu cerca de 3% desde que a pressão sobre a Starmer começou a aumentar em fevereiro, estava a cair 0,2%, cotando nos 1,319 dólares, perto do seu mínimo de três meses.


O Reino Unido já tem os custos de empréstimo mais elevados do G7 devido à sua elevada dívida e aos juros pagos, anos de crescimento económico anémico, dificuldades em cortar nas despesas e a necessidade de investir em áreas como a defesa.

Os rendimentos dos títulos do governo britânico a 10 anos rondam os 4,85%, não muito longe da sua maior subida desde a crise financeira de 2008, o que significa que a Grã-Bretanha precisa de pagar mais pelas suas necessidades de empréstimos a médio prazo do que qualquer outra nação desenvolvida.

A instabilidade política e a preocupação com as finanças britânicas fragilizadas tornaram os investidores cautelosos em relação à libra esterlina e aos títulos do governo britânico (gilts), que têm apresentado maior volatilidade do que outros mercados nos últimos anos.

c/agências 

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