Subida do Zambeze deixa região à beira de nova tragédia

Extensas áreas do centro de Moçambique atravessadas pelo rio Zambeze poderão estar à beira da tragédia, se a chuva continuar a cair com intensidade ou se a barragem de Cahora Bassa aumentar as descargas.

Agência LUSA /

É esta sensação de desastre iminente - corroborada por vários responsáveis - que se tem ao sobrevoar o rio Zambeze entre Caia e Inhangoma, numa distância de cerca de 100 quilómetros. O percurso foi hoje efectuado pela Agência Lusa num helicóptero fretado pelas Nações Unidas, que realizou operações de busca e salvamento e assistência a populações isoladas.

Do ar, são visíveis pessoas isoladas em pequenas "machambas" (hortas), que se transformaram em ilhas num mar de água, outras remando em frágeis pirogas onde antes existiam caminhos de terra. Mais além, casas quase submersas, copas de árvores à tona de água e animais que correm na pouca terra disponível.

A imagem dominante é um imenso rio de águas turvas, que se tornou gigantesco e, em alguns pontos, entrou muitas dezenas de quilómetros terra adentro, em ambas as margens.

Após um voo de 20 minutos sobre o "mar" em que se transformou o Zambeze chega-se a Mutarara, onde em terra a sucessão de acontecimentos confirmou o dramatismo que se pressente do ar.

Feita uma avaliação rápida da situação pelos responsáveis do Instituto Nacional de Gestão de Catástrofes (INGC) e das Nações Unidas, o aparelho teve de fazer uma viagem inesperada para ir buscar combustível capaz de pôr novamente a funcionar os barcos de salvamento, já que o corte de estradas reteve o veículo que trazia o carburante.

"O problema é a falta de combustível para ir a essas zonas, onde há muitas pessoas", lamentava, visivelmente apreensivo, Manuel Francisco Sinose, responsável pela coordenação de meios na localidade.

De regresso a Mutarara, de onde só se chega por estrada a partir do vizinho Malaui (cerca de 50 quilómetros a norte), o helicóptero teve de voltar a largar todos os passageiros que transportava para carregar sacos de lentilhas e feijão e levantar voo de novo com destino a Inhangoma, em cujo centro de refugiados já existem relatos de fome.

Alberto Monteiro, "mais ou menos com 58 anos", vende "canetas, lapiseiras, lápis de carvão e óleo para fritar ovos e sandes" na aldeia sitiada de Mutarara e compara o que vê com as cheias de 2001:

"eu tenho uma machamba e lá nunca inundava. Mas esta cheia é pior, está tudo inundado. Esta cheia é mesmo muito forte".

Florêncio Alves, inspector das actividades económicas na vila, está por estes dias a colaborar nas operações de busca e salvamento:

"Dia após dia estamos a resgatar pessoas. Ontem foram resgatadas aqui 356 pessoas. O problema é que temos pessoas renitentes que persistem porque têm bens", conta.

O helicóptero segue viagem para Samarucha, onde 2.139 pessoas foram afectadas pelas cheias e se encontram dispersas nos três centros de acomodação montados na região.

Resolvidos os problemas de aterragem, face à chuva diluviana que caía sobre Samarucha, entra no helicóptero Brujoane Esnerto Balicholo, o "chefe da secretaria da localidade", que descreve situações de fome nos centros de desalojados da região, face à incapacidade de as pessoas chegarem às suas colheitas submersas.

"Primeiramente, na semana antepassada alguns conseguiram, mas não em número muito satisfatório. Conseguiram trazer um pouco de batata-doce e o milho que estava na água conseguiram tirar. Depois, quando houve uma abertura das outras comportas em Cahora Bassa já não conseguiram tirar nenhuma coisa", relatou.

A maioria das pessoas aqui não têm conseguido "meter alguma coisa na boca", prossegue, explicando que tudo o que tinham conseguido trazer já se esgotou.

Piloto da Força Aérea sul-africana, Jaco Klopper foi um dos coordenadores das operações de salvamento em 2001, quando a África do Sul enviou para a região oito helicópteros, para socorrer as vítimas das cheias.

Depois do que viu hoje, não tem dúvidas: "se esta chuva começar a descer o rio, vamos ter um problema sério".

Também o director do INGC, Paulo Zucula corrobora a leitura, adiantando que o nível já atingido pelas águas nos pontos de medição está nesta altura o mesmo volume registado em Março de 2001 (final da época das chuvas), durante as cheias desse ano.

"Se compararmos o mesmo dia de 2001 e 2007, é bem pior", assegurou.

Tal como na segunda-feira, a principal preocupação das autoridades são as 29 mil pessoas transferidas para centros de acomodação com carências de saneamento, alimentação e gestão - "muitas dessas pessoas estão entregues a si próprias", comentou.

Para os próximos dias, até ao fim-de-semana, Paulo Zucula prevê "pequenas subidas e pequenas descidas" no nível das águas do Zambeze.

Mas, salienta, "tudo vai depender das descargas de Cahora Bassa" e da chuva que cair. De momento, chove copiosamente em Caia e em toda a região centro de Moçambique.

PUB