Sudão. Grupo paramilitar cometeu crimes contra a humanidade e limpeza étnica denuncia Amnistia Internacional
A Amnistia Internacional (AI) denunciou hoje que o grupo paramilitar sudanês Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) cometeu crimes contra a humanidade e limpeza étnica no estado do Darfur do Norte, no Sudão.
De acordo com o relatório "Cidade sitiada, crianças sob fogo: os crimes contra a humanidade das Forças de Apoio Rápido no Darfur do Norte", divulgado hoje, a organização não-governamental acusou estas forças rebeldes de terem praticado estes crimes durante a sua campanha para tomar El-Fashir.
A AI apelou a um cessar-fogo imediato no país e à mobilização de uma força internacional para proteger os civis.
"A guerra no Sudão é uma guerra contra os civis. O mundo foi alertado para os horrores que os civis em El-Fashir enfrentaram enquanto as RSF sitiavam a cidade. É uma mancha na consciência da humanidade", denunciou a secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, em comunicado.
O relatório aponta que foram cometidos vários crimes como homicídio, prisão, tortura, violação, violência sexual, escravização, extermínio e perseguição, para além de terem forçado centenas de milhares de crianças deslocadas, muitas delas arriscando-se "repetidamente à morte e a ferimentos durante os ataques ou enquanto fugiam".
"As crianças não foram danos colaterais desta violência - muitas vezes, foram deliberadamente visadas e sofreram imensamente. Foram mortas, feridas, violadas, raptadas e recrutadas à força em grande escala", detalhou a responsável da AI.
Por essa razão, Agnès Callamard apelou a um cessar-fogo a nível nacional de imediato.
"Deve ser destacada para o Sudão uma força internacional independente e dotada de recursos adequados para proteger os civis contra os crimes cometidos por todas as partes envolvidas no conflito", disse, justificando que, sem a ação da comunidade internacional, os ataques contra civis "continuarão sem impedimentos".
Segundo a organização não-governamental, foi enviada uma carta documentando as conclusões do relatório, no dia 10 de junho, ao chefe das RSF, o General Mohamed Hamdan Dagalo, mas que não obteve qualquer resposta.
Os três anos de guerra no Sudão entre o Exército e os paramilitares causaram a morte de cerca de 400 mil pessoas - segundo estimativas dos EUA -, levaram mais de 21,2 milhões de pessoas a uma situação de fome aguda e obrigaram outros cerca de 14 milhões a abandonar as suas casas, transformando o Sudão no palco da pior crise de deslocamento e fome do mundo, segundo a ONU.