Mundo
Sudão. Paramilitares anunciam trégua de 72 horas e militares prometem transição civil
O grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF) anunciou uma trégua de 72 horas no Sudão para as celebrações do Eid al-Fitr, esta sexta-feira. Já o chefe do exército e presidente do Conselho Soberano de transição no Sudão, general Abdel Fattah Al Burhan, afirmou que os militares continuam empenhados numa transição para um governo civil.
Ao fim de vários dias de intensos combates, as RSF anunciaram o cessar-fogo de 72 horas a partir desta sexta-feira, a marcar o início do feriado muçulmano do Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadão, o mês sagrado do jejum e da oração muçulmanos, para permitir reencontros familiares.
"O armistício coincide com o abençoado Eid al-Fitr e para abrir corredores humanitários de retirada de cidadãos e dar-lhes a oportunidade de cumprimentar as suas famílias", afirmam as RSF, em comunicado citado pela Reuters. Antes do anúncio do cessar-fogo, os residentes de Cartum e da cidade irmã Bahri (do outro lado do rio Nilo) revelaram que as localidades tinham sido bombardeadas numa altura em que estava a previsto começar as orações matinais do Eid.
Para já, não há informação de que o exército vá respeitar o cessar-fogo. E na altura em que a RSF anunciava as tréguas o general Burhan apareceu na televisão estatal, pela primeira vez desde o início dos confrontos, a 15 de abril, para se dirigir à nação a propósito do Eid, sem mencionar qualquer armistício.
"Estamos confiantes de que ultrapassaremos esta provação com a nossa formação, sabedoria e força, preservando a segurança e unidade do Estado, permitindo-nos que nos seja confiada a transição segura para um governo civil", afirmou o responsável, numa mensagem vídeo para assinalar o feriado do Eid al-Fitr.
Esta foi a primeira vez que Al Burhan foi visto em Cartum. "O nosso país está a sangrar. A ruína e a destruição e o som de balas não deixaram lugar para a felicidade que todos merecem no nosso amado país".
Na quinta-feira, os militares do Sudão descartaram negociações com as Forças de Apoio Rápido, afirmando que só aceitariam a rendição. Desde o início dos combates no sábado já morreram 330 pessoas, incluindo nove crianças, e 3.200 ficaram feridas.
As hostilidades começaram no contexto de um aumento das tensões sobre a reforma do aparelho de segurança e a integração da força paramilitar nas Forças Armadas, parte fundamental de um acordo assinado em dezembro para formar um novo governo civil e reativar a transição.
O processo de conversações começou com mediação internacional, depois de Al Burhan liderar um golpe em outubro de 2021, que derrubou o então primeiro-ministro de Unidade, Abdala Hamdok, nomeado para o cargo como resultado de contactos entre civis e militares, na sequência do motim de abril de 2019, que pôs fim a 30 anos do regime de Omar Hasan al-Bashir.
O grupo de Investigação de Crise Internacional (ICG) já advertiu que "nem Burhane nem Daglo parecem estar dispostos a ceder", pelo que "a situação pode agravar-se ainda mais".
Segundo a France Presse, que cita o ICG, “um conflito prolongado no Sudão poderá ser a ruína do país”, que é o terceiro maior produtor de ouro em África e um dos mais pobres do nundo.
"Mesmo que o exército retome finalmente a capital e Daglo se retire para Darfur, uma guerra civil pode muito bem seguir-se", acrescentou.
Para o ICG uma guerra civil no Sudão pode provocar desestabilização nos países vizinhos: Chade, República Centro-Africana e Líbia já afetados, em graus variáveis, pela violência".
Apelo da ONU
Na quinta-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, definiu como "prioridade imediata" no Sudão um cessar-fogo de "pelo menos três dias", tendo em conta o Eid al-Fitr.
No final de uma reunião convocada pela União Africana para abordar a dramática situação no Sudão, na sede da ONU, em Nova Iorque, Guterres disse ter assistido a um forte consenso de todos os participantes em condenar os combates no Sudão e em pedir o fim das hostilidades.
"Como prioridade imediata, apelo a um cessar-fogo de pelo menos três dias, marcando as comemorações do Eid al-Fitr, para permitir que os civis presos em zonas de conflito escapem e procurem tratamento médico, alimentos e outros elementos essenciais", sublinhou. "Este deve ser o primeiro passo para uma pausa nos combates e abrir caminho para um cessar-fogo permanente”, acrescentou Guterres, no final do encontro que juntou a Liga Árabe, a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento e a União Europeia, além de representantes de diversos países que "estão profundamente empenhados em resolver a crise".
O secretário-geral da ONU manifestou ainda preocupação com o número de vítimas civis, com a situação humanitária e com a perspetiva de uma nova escalada do conflito.Vinte mil pessoas já fugiram do país
Milhares de pessoas fugiram da capital, Cartum, desde o início dos combates no passado sábado. A ONU avança que 20 mil pessoas fugiram dos confrontos em Darfur para procurar segurança no Chade.
A agência da ONU para os refugiados revelou que a maioria dos que abandonaram o país eram mulheres e crianças.
Antes do conflito, cerca de um quarto da população do Sudão, um dos sete países do Corno de África, enfrentava uma crise alimentar. No sábado, o Programa Alimentar Mundial suspendeu a operação no país, depois de três dos seus colaboradores terem sido mortos nos combates.
O país faz fronteira com sete países e situa-se entre o Egito, Arábia Saudita, Etiópia e a volátil região africana de Sahel, e a situação que se vive no Sudão pode agravar o risco alimentar na região.
"O armistício coincide com o abençoado Eid al-Fitr e para abrir corredores humanitários de retirada de cidadãos e dar-lhes a oportunidade de cumprimentar as suas famílias", afirmam as RSF, em comunicado citado pela Reuters. Antes do anúncio do cessar-fogo, os residentes de Cartum e da cidade irmã Bahri (do outro lado do rio Nilo) revelaram que as localidades tinham sido bombardeadas numa altura em que estava a previsto começar as orações matinais do Eid.
Para já, não há informação de que o exército vá respeitar o cessar-fogo. E na altura em que a RSF anunciava as tréguas o general Burhan apareceu na televisão estatal, pela primeira vez desde o início dos confrontos, a 15 de abril, para se dirigir à nação a propósito do Eid, sem mencionar qualquer armistício.
"Estamos confiantes de que ultrapassaremos esta provação com a nossa formação, sabedoria e força, preservando a segurança e unidade do Estado, permitindo-nos que nos seja confiada a transição segura para um governo civil", afirmou o responsável, numa mensagem vídeo para assinalar o feriado do Eid al-Fitr.
Esta foi a primeira vez que Al Burhan foi visto em Cartum. "O nosso país está a sangrar. A ruína e a destruição e o som de balas não deixaram lugar para a felicidade que todos merecem no nosso amado país".
Na quinta-feira, os militares do Sudão descartaram negociações com as Forças de Apoio Rápido, afirmando que só aceitariam a rendição. Desde o início dos combates no sábado já morreram 330 pessoas, incluindo nove crianças, e 3.200 ficaram feridas.
As hostilidades começaram no contexto de um aumento das tensões sobre a reforma do aparelho de segurança e a integração da força paramilitar nas Forças Armadas, parte fundamental de um acordo assinado em dezembro para formar um novo governo civil e reativar a transição.
O processo de conversações começou com mediação internacional, depois de Al Burhan liderar um golpe em outubro de 2021, que derrubou o então primeiro-ministro de Unidade, Abdala Hamdok, nomeado para o cargo como resultado de contactos entre civis e militares, na sequência do motim de abril de 2019, que pôs fim a 30 anos do regime de Omar Hasan al-Bashir.
O grupo de Investigação de Crise Internacional (ICG) já advertiu que "nem Burhane nem Daglo parecem estar dispostos a ceder", pelo que "a situação pode agravar-se ainda mais".
Segundo a France Presse, que cita o ICG, “um conflito prolongado no Sudão poderá ser a ruína do país”, que é o terceiro maior produtor de ouro em África e um dos mais pobres do nundo.
"Mesmo que o exército retome finalmente a capital e Daglo se retire para Darfur, uma guerra civil pode muito bem seguir-se", acrescentou.
Para o ICG uma guerra civil no Sudão pode provocar desestabilização nos países vizinhos: Chade, República Centro-Africana e Líbia já afetados, em graus variáveis, pela violência".
Apelo da ONU
Na quinta-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, definiu como "prioridade imediata" no Sudão um cessar-fogo de "pelo menos três dias", tendo em conta o Eid al-Fitr.
No final de uma reunião convocada pela União Africana para abordar a dramática situação no Sudão, na sede da ONU, em Nova Iorque, Guterres disse ter assistido a um forte consenso de todos os participantes em condenar os combates no Sudão e em pedir o fim das hostilidades.
"Como prioridade imediata, apelo a um cessar-fogo de pelo menos três dias, marcando as comemorações do Eid al-Fitr, para permitir que os civis presos em zonas de conflito escapem e procurem tratamento médico, alimentos e outros elementos essenciais", sublinhou. "Este deve ser o primeiro passo para uma pausa nos combates e abrir caminho para um cessar-fogo permanente”, acrescentou Guterres, no final do encontro que juntou a Liga Árabe, a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento e a União Europeia, além de representantes de diversos países que "estão profundamente empenhados em resolver a crise".
O secretário-geral da ONU manifestou ainda preocupação com o número de vítimas civis, com a situação humanitária e com a perspetiva de uma nova escalada do conflito.Vinte mil pessoas já fugiram do país
Milhares de pessoas fugiram da capital, Cartum, desde o início dos combates no passado sábado. A ONU avança que 20 mil pessoas fugiram dos confrontos em Darfur para procurar segurança no Chade.
A agência da ONU para os refugiados revelou que a maioria dos que abandonaram o país eram mulheres e crianças.
Antes do conflito, cerca de um quarto da população do Sudão, um dos sete países do Corno de África, enfrentava uma crise alimentar. No sábado, o Programa Alimentar Mundial suspendeu a operação no país, depois de três dos seus colaboradores terem sido mortos nos combates.
O país faz fronteira com sete países e situa-se entre o Egito, Arábia Saudita, Etiópia e a volátil região africana de Sahel, e a situação que se vive no Sudão pode agravar o risco alimentar na região.
c/ agências