Sudão. Paramilitares anunciam trégua de 72 horas e militares prometem transição civil

O grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF) anunciou uma trégua de 72 horas no Sudão para as celebrações do Eid al-Fitr, esta sexta-feira. Já o chefe do exército e presidente do Conselho Soberano de transição no Sudão, general Abdel Fattah Al Burhan, afirmou que os militares continuam empenhados numa transição para um governo civil.

Cristina Sambado - RTP /
Mohnd Awad - EPA

Ao fim de vários dias de intensos combates, as RSF anunciaram o cessar-fogo de 72 horas a partir desta sexta-feira, a marcar o início do feriado muçulmano do Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadão, o mês sagrado do jejum e da oração muçulmanos, para permitir reencontros familiares.

"O armistício coincide com o abençoado Eid al-Fitr e para abrir corredores humanitários de retirada de cidadãos e dar-lhes a oportunidade de cumprimentar as suas famílias", afirmam as RSF, em comunicado citado pela Reuters. Antes do anúncio do cessar-fogo, os residentes de Cartum e da cidade irmã Bahri (do outro lado do rio Nilo) revelaram que as localidades tinham sido bombardeadas numa altura em que estava a previsto começar as orações matinais do Eid.

Para já, não há informação de que o exército vá respeitar o cessar-fogo. E na altura em que a RSF anunciava as tréguas o general Burhan apareceu na televisão estatal, pela primeira vez desde o início dos confrontos, a 15 de abril, para se dirigir à nação a propósito do Eid, sem mencionar qualquer armistício.

"Estamos confiantes de que ultrapassaremos esta provação com a nossa formação, sabedoria e força, preservando a segurança e unidade do Estado, permitindo-nos que nos seja confiada a transição segura para um governo civil", afirmou o responsável, numa mensagem vídeo para assinalar o feriado do Eid al-Fitr.

Esta foi a primeira vez que Al Burhan foi visto em Cartum. "O nosso país está a sangrar. A ruína e a destruição e o som de balas não deixaram lugar para a felicidade que todos merecem no nosso amado país".

Na quinta-feira, os militares do Sudão descartaram negociações com as Forças de Apoio Rápido, afirmando que só aceitariam a rendição. Desde o início dos combates no sábado já morreram 330 pessoas, incluindo nove crianças, e 3.200 ficaram feridas.

As hostilidades começaram no contexto de um aumento das tensões sobre a reforma do aparelho de segurança e a integração da força paramilitar nas Forças Armadas, parte fundamental de um acordo assinado em dezembro para formar um novo governo civil e reativar a transição.

O processo de conversações começou com mediação internacional, depois de Al Burhan liderar um golpe em outubro de 2021, que derrubou o então primeiro-ministro de Unidade, Abdala Hamdok, nomeado para o cargo como resultado de contactos entre civis e militares, na sequência do motim de abril de 2019, que pôs fim a 30 anos do regime de Omar Hasan al-Bashir.

O grupo de Investigação de Crise Internacional (ICG) já advertiu que "nem Burhane nem Daglo parecem estar dispostos a ceder", pelo que "a situação pode agravar-se ainda mais".

Segundo a France Presse, que cita o ICG, “um conflito prolongado no Sudão poderá ser a ruína do país”, que é o terceiro maior produtor de ouro em África e um dos mais pobres do nundo.

"Mesmo que o exército retome finalmente a capital e Daglo se retire para Darfur, uma guerra civil pode muito bem seguir-se", acrescentou.

Para o ICG uma guerra civil no Sudão pode provocar desestabilização nos países vizinhos: Chade, República Centro-Africana e Líbia já afetados, em graus variáveis, pela violência".
Apelo da ONU
Na quinta-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, definiu como "prioridade imediata" no Sudão um cessar-fogo de "pelo menos três dias", tendo em conta o Eid al-Fitr.

No final de uma reunião convocada pela União Africana para abordar a dramática situação no Sudão, na sede da ONU, em Nova Iorque, Guterres disse ter assistido a um forte consenso de todos os participantes em condenar os combates no Sudão e em pedir o fim das hostilidades.

"Como prioridade imediata, apelo a um cessar-fogo de pelo menos três dias, marcando as comemorações do Eid al-Fitr, para permitir que os civis presos em zonas de conflito escapem e procurem tratamento médico, alimentos e outros elementos essenciais", sublinhou.
"Este deve ser o primeiro passo para uma pausa nos combates e abrir caminho para um cessar-fogo permanente”, acrescentou Guterres, no final do encontro que juntou a Liga Árabe, a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento e a União Europeia, além de representantes de diversos países que "estão profundamente empenhados em resolver a crise".

O secretário-geral da ONU manifestou ainda preocupação com o número de vítimas civis, com a situação humanitária e com a perspetiva de uma nova escalada do conflito.Vinte mil pessoas já fugiram do país
Milhares de pessoas fugiram da capital, Cartum, desde o início dos combates no passado sábado. A ONU avança que 20 mil pessoas fugiram dos confrontos em Darfur para procurar segurança no Chade.

A agência da ONU para os refugiados revelou que a maioria dos que abandonaram o país eram mulheres e crianças.

Antes do conflito, cerca de um quarto da população do Sudão, um dos sete países do Corno de África, enfrentava uma crise alimentar.
No sábado, o Programa Alimentar Mundial suspendeu a operação no país, depois de três dos seus colaboradores terem sido mortos nos combates.

O país faz fronteira com sete países e situa-se entre o Egito, Arábia Saudita, Etiópia e a volátil região africana de Sahel, e a situação que se vive no Sudão pode agravar o risco alimentar na região.

c/ agências
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