Sudão. Quase 34 milhões de pessoas necessitam de ajuda humanitária
Quase 34 milhões de pessoas necessitam de ajuda humanitária no Sudão, "o número mais elevado do mundo", alertou hoje a Coordenadora Humanitária da ONU no país, no terceiro aniversário do início da guerra civil.
No comunicado emitido pelo Gabinete da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) no Sudão, Denise Brown denunciou os "três anos de guerra devastadora" e "a crise humanitária de enormes proporções e sofrimento" que os sudaneses enfrentam, uma crise "que se prolonga há demasiado tempo e vai muito além do que qualquer população civil deveria suportar".
O conflito que o Exército do Sudão e os paramilitares das Forças de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês) travam desde 2023 transformou aproximadamente dois terços da população do país em requerentes de ajuda humanitária, aponta-se ainda no documento.
A coordenadora da ONU destacou, no comunicado, a destruição de infraestruturas civis, como casas, mercados, hospitais ou escolas, criticou o uso "diário" de `drones` em zonas povoadas e recordou que estão a ocorrer "ataques repetidos contra centros de saúde, que matam doentes e profissionais de saúde e cortam o acesso a serviços vitais".
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), só 63% das unidades de saúde do Sudão se encontram total ou parcialmente em funcionamento e existem 217 ataques confirmados a instalações de saúde desde o início da guerra.
Segundo o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) existem 11.000 pessoas desaparecidas, cerca 4,5 milhões de refugiados em locais como o Egito, o Sudão do Sul, a Líbia e o Chade e cerca de nove milhões de deslocados no Sudão.
Além disso, segundo a ONU, "as mulheres e as raparigas enfrentam uma violência sexual generalizada, que inclui violações e violações em grupo", enquanto "os trabalhadores humanitários, a maioria dos quais sudaneses, continuam a arriscar, e com demasiada frequência, a perder as suas vidas para ajudar outros a sobreviver".
Para Brown, a "resiliência" dos civis sudaneses é "extraordinária", mas "não substitui a responsabilidade".
A ONU apela às partes para que haja "a cessação imediata das hostilidades", a proteção da população e das infraestruturas não militares, a existência de garantias para o exercício seguro das atividades humanitárias e o aumento do financiamento destinado à ajuda humanitária, "uma vez que qualquer atraso custa vidas".
Segundo o Programa Alimentar Mundial, mais de 19 milhões de pessoas enfrenta fome aguda.
No dia em que se assinala o início da guerra, o Governo do Sudão classificou como um ato que "reflete uma abordagem de tutela colonial" a conferência internacional prevista para hoje em Berlim, com o objetivo de mobilizar ajuda humanitária e procurar uma saída política para a devastadora guerra, ao considerar que se realiza "sem consultar ou convidar" o executivo de Cartum.
A guerra civil no Sudão, que eclodiu em 15 de abril de 2023 devido a desacordos em torno da integração do grupo paramilitar nas Forças Armadas, resultou já na morte de 59.000 pessoas, de acordo com a Armed Conflict Location & Event Data (ACLED), instituição que registou 1.032 civis mortos por ataques aéreos e com `drones` em 2025.
O conflito no Sudão interrompeu a transição que havia começado após a queda do regime de Omar al-Bashir, em 2019, que já estava enfraquecido após o golpe que depôs o então primeiro-ministro, Abdalla Hamdok.
Segundo a Unicef, mais de 4.300 crianças foram mortas ou mutiladas na guerra e pelo menos oito milhões ainda não frequentam a escola.
Sexta-feira, em declarações à Lusa, fonte da ONU alertou que as partes em conflito no Sudão estão a recrutar crianças, um fenómeno que, acrescentou, poderá comprometer em parte o futuro do país devido ao trauma a que estão expostas.