Suíça inaugura o maior túnel ferroviário do mundo
É inaugurado esta quarta-feira na Suíça o maior túnel ferroviário do mundo. A infraestrutura, que tem quase 60 quilómetros e levou perto de duas décadas a ficar concluída, tem como objetivo “revolucionar” o transporte de mercadorias na Europa. Angela Merkel, François Hollande e Mateo Renzi marcam presença na inauguração.
É necessário recuar até 1882 na cronologia para contar a história deste “triunfo da engenharia”, como é orgulhosamente apelidado pelos suíços. Foi nesse ano que nasceu o primeiro troço ferroviário dos Alpes, com mais de 200 pontes e sete túneis ferroviários, já na altura aclamado como “um triunfo da arte e da ciência, um monumento ao trabalho e à persistência”, segundo então o Presidente suíço Simeon Bavier.
Nas palavras do líder, “a barreira que dividia nações foi derrubada, os Alpes Suíços foram revelados. Os países estão mais perto uns dos outros, o mercado mundial está aberto”.
Um século de trocas comerciais mais tarde, tornou-se evidente que o percurso ferroviário de São Gotardo não era capaz de acompanhar o ritmo da entrada e saída de mercadorias. E no túnel rodoviário, aberto em 1980, estavam a passar mais de um milhão de camiões por ano.
Nos anos 40 começaram a desenhar-se novas formas de atravessar mercadorias nos Alpes, mas só em 1992 é que o Governo suíço submeteu a referendo um plano para construir uma ligação de alta velocidade que rompesse as montanhas e afastasse para sempre os camiões poluentes dos Alpes. O projeto foi aprovado com 64 por cento dos votos. Os trabalhos tiveram início em abril de 1996.Congratulations. We are impressed.#Gotthard #Gotthardtunnel #Switzerland #Rail pic.twitter.com/TSq6FXUL00
— SwissIntell (@SwissIntell) June 1, 2016
Depois, foram 17 anos a partir pedra. Vinte e quatro horas por dia, durante 365 dias por ano, mais de dois mil trabalhadores revezavam-se em três turnos. Nove morreram em acidentes.
Os engenheiros depararam-se com 73 tipos de pedra diferentes, alguns duros como granito, outros “suaves como manteiga”, como relata à BBC um engenheiro responsável pela obra.
Nesses casos, a fragilidade da pedra permitia avançar apenas meio metro por dia. Noutros pontos da montanha, as escavadoras conseguiam perfurar 40 metros por dia, um recorde mundial. Ainda assim, toda a extensão do túnel foi reforçada com anéis de aço para evitar o colapso.
Foram necessárias quatro escavadoras gigantes, que removeram mais de 30 milhões de toneladas de rocha.The impressive #Gotthard base tunnel is way more than just long tube. Here's all you need to know. #gottardo2016https://t.co/fLs0VgpXAT
— DW - Business (@dw_business) June 1, 2016
Mas antes dos óbvios desafios de engenharia, o Governo suíço teve de resolver os desafios financeiros. O parlamento decidiu repartir os custos: 55 por cento seriam suportados pelo imposto sob veículos pesados, 19 por cento provenientes de um aumento do IVA de 0,1 por cento, 10 por cento viriam dos impostos sob os combustíveis e o restante por via de empréstimos, que serão pagos numa década.
Tal como um relógio suíço, a engenharia financeira não falhou um milímetro. A obra custou exatamente os 12,2 mil milhões de francos suíços orçamentados, o equivalente a onze mil milhões de euros. E foi terminada no prazo previsto.
O túnel em números
O túnel ferroviário de São Gotardo não é só o mais comprido do mundo, com 57,09 quilómetros a direito, é também o mais profundo, ao romper cerca de 2,3 quilómetros de montanha.
Foi desenhado para durar 100 anos e prolonga-se por um emaranhado de 152 quilómetros de galerias e passagens transversais.
Com a inauguração desta quarta-feira, termina o reinado do túnel de Seikan, no Japão, que era até agora o maior do mundo, com 54 quilómetros. São Gotardo poderá, no entanto, não conseguir agarrar o título por muito tempo, já que na China está projetado um túnel ferroviário com 123 quilómetros de extensão.
O comboio de alta velocidade (250 quilómetros por hora) vai encurtar a viagem entre Erstfeld e Bodio de cerca de uma hora para apenas 17 minutos. Para atravessar os 50,5 quilómetros Túnel da Mancha, por exemplo, são necessários cerca de 35 minutos. Uma viagem entre Zurique e Milão será feita em duas horas e 40 minutos.The engineering triumph of the #Gotthard rail tunnel https://t.co/xx2IJUC01l #gottardo2016 pic.twitter.com/8etcH1eWm8
— Patrick Jackson (@patrickgjackson) June 1, 2016
O túnel faz parte da principal linha ferroviária da Europa, que liga o porto holandês de Roterdão a Génova, em Itália.
Os primeiros comboios começam a circular este sábado, dia 4, ainda em fase experimental. Os comboios começam a circular “a sério”, com fins comerciais, a partir de dezembro.
A cerimónia de inauguração vai contar com a presença da chanceler alemã, Angela Merkel, do Presidente francês, François Hollande, e do primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, que se juntam ao presidente da Suíça, Johann Schneider-Ammann e a 1200 convidados.
Presenças de peso que simbolizam a união da Europa e a cooperação extra fronteiriça, numa altura de crescente fragmentação, com os britânicos a votarem a permanência na União Europeia e vários países, incluindo a Suíça, a colocarem em causa a livre circulação devido à crise dos migrantes.