Suicídio assistido de mulher saudável lança controvérsia jurídica

Berlim, 04 Jul (Lusa) - Cinco dos 16 estados alemães vão hoje pressionar o Governo federal para que restrinja as leis que permitem o suicídio assistido, depois de um médico ter revelado como instruiu uma mulher saudável a matar-se.

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Bettina Schardt sabia que a combinação de drogas que ingeriu na sala de estar de sua casa em Würzburg, na semana passada, a iria matar - e ali morreu sozinha, diante de uma câmara de filmar.

Não foi um suicídio vulgar. Um médico alemão indicou-lhe a combinação exacta das drogas antimaláricas e tranquilizantes necessárias para se suicidar sem dor - e instalou a câmara para a filmar.

O caso desencadeou uma tempestuosa controvérsia, não só pela maneira como o Dr. Roger Kusch divulgou o seu papel naquela morte - convocando uma conferência de imprensa onde divulgou alguns dos últimos momentos de Bettina - mas também pelas razões do suicídio.

Bettina, de 79 anos, não sofria de dores crónicas nem de doença terminal. Era saudável e apenas queria evitar ser internada num lar.

A iniciativa legislativa que hoje será desencadeada por cinco dos 16 "länder" alemães para que sejam restringidas as leis que autorizam o suicídio assistido visa tornar ilegal que as empresas façam lucro ensinando as pessoas a suicidarem-se.

A chanceler Angela Merkel, que lidera a conservadora União Democrática Cristã (CDU), disse na quarta-feira a uma televisão alemã que se opõe ao suicídio assistido "qualquer que seja a forma de que se revista".

No entanto, políticos progressistas alertaram contra a alteração precipitada das leis vigentes.

"Nada de decisões-relâmpago", disse Peter Struck, líder parlamentar dos sociais-democratas do SPD. "Nada de leis imediatistas que depois redundam em nada."

O suicídio não é ilegal na Alemanha, nem o suicídio assistido. No entanto, a morte misericordiosa e a eutanásia acarretam um forte estigma no país por causa dos programas eugénicos nazis que eliminaram mais de 70 mil deficientes mentais e físicos antes e durante a II Guerra Mundial.

Kusch, médico em Hamburgo e antigo senador estadual, indicou a Bettina a quantidade adequada de da droga antimalárica cloroquina e do tranquilizante diazepam para produzir a mistura fatal que a deixou inconsciente e em seguida lhe parou a respiração.

O médico não lhe administrou as drogas, pelo que não infringiu qualquer lei alemã.

Disse aos jornalistas, em Hamburgo, que instalou a câmara e deixou-a sozinha.

"Disse-lhe adeus e saí", declarou Kusch. Mostrou também fragmentos do vídeo em que Bettina confirmou que estava a pôr voluntariamente termo à vida.

Num bilhete de despedida a Kusch, Bettina assegurava que tinha planeado a sua própria morte "sorridente e de forma sistemática".

"Se esta minha maneira de morrer o ajudar na sua luta, o objectivo da minha vida - conseguir a liberdade de morrer com dignidade - terá sido atingido", escreveu Bettina Schardt.

OM.

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