Sunitas iranianos queimam cruz frente a embaixada Dinamarca

Dezenas de iranianos pertencentes à minoria sunita queimaram hoje uma cruz frente à embaixada da Dinamarca em Teerão, protestando contra a publicação de caricaturas do profeta Maomé na imprensa ocidental.

Agência LUSA /

Perto de 150 pessoas concentraram-se frente à embaixada, que foi já alvo de vários ataques, exibindo cartazes proclamando "Alá é grande" e gritando "Morte à Dinamarca".

A manifestação decorreu com tranquilidade, contrariamente a concentrações anteriores durante as quais manifestantes lançaram bombas incendiárias artesanais e pedras contra o edifício.

A Dinamarca chamou todo o seu pessoal diplomático colocado no Irão.

O diário dinamarquês Jyllands-Posten publicou, em 12 de Setembro último, caricaturas do profeta Maomé, retomadas depois por vários jornais europeus.

As manifestações contra a publicação dos desenhos prosseguiram também hoje no Paquistão, onde a crise assumiu uma dimensão diplomática, com o encerramento temporário da embaixada da Dinamarca em Islamabad e a chamada para consultas do embaixador paquistanês em Copenhaga.

Apesar do estado de alerta das forças de segurança em todo o país para impedir acções de violência, que fizeram cinco mortos no início da semana, dezenas de manifestações foram organizadas, nomeadamente em Carachi (sul) e Multan (centro), onde a polícia interveio para dispersar os manifestantes.

Em Islamabad, a Dinamarca decidiu encerrar "temporariamente" a sua embaixada, tendo os assuntos consulares sido transferidos para a embaixada da Alemanha.

"Continuo no Paquistão. Não se pode portanto falar de ruptura das relações", declarou o embaixador da Dinamarca, Bent Wigotski, tendo o Governo de Copenhaga referido que a missão fora encerrada por razões de segurança.

Por seu turno, o Paquistão chamou o seu embaixador na capital dinamarquesa "para consultas sobre a controvérsia das caricaturas", de acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros paquistanês.

Entretanto, em Moscovo, o chefe da diplomacia norueguesa, Jonas Gahr Stoere, denunciou hoje as "tentativas de humilhar" os crentes muçulmanos, em relação com a questão das caricaturas.

"Rejeitamos as tentativas de humilhar o sentimento religioso" dos crentes, declarou Stoere, numa conferência de imprensa, após um encontro com o homólogo russo, Serguei Lavrov.

"Lamentamos se os crentes se sentem humilhados", sublinhou o ministro norueguês, acrescentando que a publicação das caricaturas por um órgão da Noruega, a revista cristã Magazinet, em 10 de Janeiro, "não exprime a posição do Governo norueguês, nem do povo norueguês".

Acentuou, contudo, que o Governo norueguês "não controla o que a comunicação social publica", pois respeita a "liberdade de expressão".

O ministro denunciou finalmente o "recurso à violência" nos meios muçulmanos para protestar contra a publicação das caricaturas do profeta do Islão.

"Apelamos às partes a que se ponham de acordo pela via das negociações", disse.

Depois da Dinamarca, a Noruega tem sido um dos principais alvos dos protestos: a embaixada norueguesa em Damasco foi incendiada, foram lançadas campanhas de boicote dos produtos noruegueses em vários países e foi atacado um acampamento norueguês da Força da NATO no Afeganistão (Isaf).

Entretanto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros italiano anunciou hoje que o chefe da diplomacia italiana, Gianfranco Fini, receberá a 23 de Fevereiro, em Roma, embaixadores de países muçulmanos para discutir a crise das caricaturas.

Segundo um porta-voz do Ministério, os embaixadores de Omã, Marrocos e da Jordânia, bem como o chefe da missão da Liga Árabe em Roma, representarão o conjunto dos países muçulmanos.

Fini mostra-se ansioso por preservar boas relações com o mundo muçulmano e criticou recentemente o ministro das Reformas Institucionais, Roberto Calderoli, membro do partido populista e xenófobo Liga do Norte, que multiplicou nas últimas semanas os ataques ao Islão e se orgulha de usar uma t-shirt com as controversas caricaturas do profeta Maomé estampadas.

"Numa altura em que as relações entre a Europa e o mundo muçulmano atravessam um período particularmente difícil e delicado, toda a gente e, com maior razão um ministro da República, deve ter um comportamento sério e responsável", advertiu Fini, numa conferência de imprensa.

"As caricaturas que um ministro da República declara ter feito reproduzir nas suas t-shirts são mortais para as nossas relações com todo o mundo islâmico", declarou um diplomata italiano, que solicitou o anonimato, citado hoje pelo diário La Repubblica.

Em Copenhaga, de acordo com uma sondagem divulgada hoje, mais de 41,5 por cento dos dinamarqueses considera que o primeiro-ministro, Anders Fogh Rasmussen, geriu bem a crise provocada pelas caricaturas, contra 40,1 por cento que acha que actuou medianamente bem e 16 por cento que considerou má a forma como lidou com a situação.

Esta sondagem indica que o Governo liberal-conservador dinamarquês e o aliado parlamentar, o Partido do Povo Dinamarquês (PPD, ultra-direita), saíram reforçados da crise das caricaturas.

As três formações obteriam 101 dos 179 lugares do parlamento se se realizassem hoje eleições, graças sobretudo a uma forte subida do PPD.

No escrutínio de Fevereiro de 2005, o bloco de direita conseguiu 94 lugares e a oposição 81.

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