Suspeito dos atentados queria “guerra civil”

O homem acusado do atentado à bomba em Oslo e do massacre de dezenas de jovens na ilha de Utoya admitiu a responsabilidade pelos dois ataques. Segundo o advogado, Anders Behring Breivik descreve as suas ações como “ terríveis mas necessárias” e promete explicar-se quando for presente a tribunal na segunda-feira. Num manifesto alegadamente escrito pelo suspeito, descreve-se o plano para “uma guerra civil na Europa”.

RTP /
Anders Behring Breivik pretende "justificar" os seus atos num manifesto de 1500 páginas EPA

Segundo diz o seu advogado, o autor confesso dos ataques considera que não agiu mal.

"No espirito dele, ele acha que não fez nada de repreensível", disse Geir Lippestad a cadeia de televisão NRK.

Já antes a policia tinha dito que Anders Behring Breivik "admitia a autoria dos ataques mas não a responsabilidade criminal".

Embora Breivik afirme ter agido sozinho, a polícia norueguesa continua a investigar a hipótese de ter havido um segundo atirador, como indicam alguns testemunhos de sobreviventes de Utoya.

À medida que o tempo passa começam a surgir indícios que podem lançar alguma luz sobre as motivações do alegado terrorista.

Um perfil radicalSe nas redes sociais Breivik se descrevia a si próprio como um cristão conservador e contrário ao multiculturalismo social, outros documentos, vindos a lume nas últimas horas, pintam um retrato bem mais radical do seu perfil.

Num vídeo publicado no You Tube horas antes dos atentados, o autor confesso dos ataques explica os pontos essenciais da ideologia nacionalista e anti-islâmica que o motivaram a agir.

No vídeo de 12 minutos, entretanto já retirado pelo You Tube, Anders Breivik explica, também, em pormenor, como planeou os massacres, desde 2009.

Em algumas mensagens colocadas nos últimos meses em redes sociais dava já a entender o posicionamento ideológico.

Odio ao islão e ao "multiculturalismo"Num post colocado, em dezembro de 2009, num fórum norueguês da internet, Breivik queixava-se da forma como os jovens noruegueses eram vítimas de violência por parte de jovens imigrantes islâmicos:

Já dois meses antes, noutra mensagem, incitava o fundador do fórum, identificado por “Hans” a desenvolver uma alternativa ao que disse ser “os grupos marxistas violentos Blitz, SOS Rasisme e Rod Ungdom ” noruegueses.

“Não podemos aceitar que o partido trabalhista esteja a subsidiar esta “Juventude Stoltenbergiana” [alusão ao nome do primeiro-ministro trabalhista Jens Stoltenberg] que está sistematicamente a aterrorizar os politicamente conservadores”.

O acampamento da ilha de Utoya pertencia à juventude trabalhista e no dia do massacre estava previsto que o primeiro-ministro se deslocasse ao local.

Manifesto de 1500 páginasNo próprio dia dos atentados, veio a lume um manifesto de 1500 páginas, atribuído a “Andrew Berwick”, embora no interior do documento o autor se identifique como Anders Behring Breivik , incluindo várias das suas fotografias.

A autoria do documento, que combina as funções de diário, diatribe poltica e plano de ação não foi oficialmente confirmada, mas a polícia indicou ao jornal norueguês VG que o mesmo está “relacionado” com os ataques de sexta-feira.

“Se estiverem preocupados com o futuro da Europa Ocidental acharão esta informação interessante e muito importante” escreve o autor na introdução, acrescentando que o documento lhe levou nove anos a concluir.

O “manifesto”, critica o governo do primeiro-ministro Stoltenberg e do partido trabalhista a quem acusa de “perpetuar ideias “marxistas e multiculturalistas” e de contaminar a juventude com essas mesmas ideias, de forma a permitir “a islamização da Europa”.

Guerra Civil EuropeiaO documento, intitula-se “2083 uma Declaração de Independência”. O autor explica que a data se refere ao ano em que ele acredita que terminará uma guerra civil europeia, que terá como resultado a execução dos “marxistas culturais” e a expulsão dos muçulmanos.

A referida guerra civil viria em três fases que o autor detalha exaustivamente, indo ao pormenor de prever as datas em que cada uma delas terá início.

A fase final contempla “a deposição dos líderes europeus" e “a implementação de uma agenda política culturalmente conservadora”.

O autor diz que foi levado a agir pelo envolvimento do governo norueguês na campanha militar da NATO do Kosovo em 1999 e alega que os ataques aéreos da aliança visaram erradamente “os nossos irmãos sérvios” que queriam “expulsar o islão, deportando os muçulmanos albaneses para a Albânia”.

Critica também o que diz ser “a cobardia” do governo norueguês na forma como lidou com questão das caricaturas de Maomé”, numa referencia às desculpas apresentadas pela Noruega, aquando da publicação dos polémicos desenhos por alguns jornais privados do país.

De caminho ataca ainda o Comité Nobel e os Estado norueguês por ter atribuído o Prémio Nobel da Paz ao antigo líder palestiniano Yasser Arafat”

"Vão chamar-me monstro"
“ A situação é caótica” diz o autor, afirmando que “milhares de muçulmanos” estão a chegar anualmente à Noruega, “estes traidores suicidas tem de ser detidos”, escreve.

O manifesto inclui conselhos de como evitar a deteção das autoridades para quem procurar informações na internet sobre o fabrico de bombas. O autor especula ainda sobre a reação da sociedade e da imprensa no caso de ele sobreviver à sua ação terrorista, prevendo que a sua vida será “um inferno na terra”.

“Não só todos os meus amigos e família me detestarão e me chamarão um monstro: Os meios de comunicação globais ao serviço do multiculturalismo não vão ter mãos a medir, imaginando várias formas de me assassinar o caráter, vilificar e demonizar” escreve.

A 22 de julho, a data dos atentados, escreve “O velho ditado ‘se queres que algo seja feito fá-lo tu próprio’ é tão relevante agora como antigamente (…) creio que esta será a minha última entrada. São 12.51 horas de sexta-feira, dia 22 de julho” termina.
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