Suspirar de alívio

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O verdadeiro problema estrutural da União Europeia (UE) não passa pela crise do euro, pela pressão dos refugiados ou, sequer, pelo envelhecimento da população. O grande drama europeu reside na incapacidade que este projecto tem para estabelecer um laço de afecto com os seus cidadãos semelhante ao que os Estados estabelecem com os seus nacionais.

Os cidadãos europeus beneficiam, todos os dias, das enormes mais-valias de fazer parte da UE, enquanto consumidores, estudantes, utentes de serviços públicos, residentes em cidades, trabalhadores... Todos estes benefícios são encarados como direitos adquiridos, como algo que “sempre cá esteve”, não sendo associados à União, mas a uma certa evolução natural da vida em sociedade. Um dos sinais mais evidentes da desarticulação entre a Europa e a sua cidadania é a baixíssima taxa de participação nas eleições para o Parlamento Europeu. O outro, mais grave, passa pela enorme crise que as famílias políticas fundadoras do projecto europeu atravessam.

Sociais-democratas e conservadores não conseguem, hoje, em grande medida pela forma como geriram a própria UE, estancar uma colossal perda de apoios no seio das sociedades nacionais. Há alguns anos, as eleições eram previsíveis e marcadas pela alternância entre partidos ou coligações (pré e pós-eleitorais), o que conferia alguma estabilidade ao sistema. No entanto, o excesso de tempo no poder produz acomodação e conduz a uma progressiva desconexão com o eleitorado. Por outro lado, os governos europeus nunca estiveram dispostos a pagar os custos de uma politização da Europa, pelo que o funcionamento da União sempre foi burocrático, hermético, projectando uma imagem de distância em relação ao cidadão comum.

A grande consequência de tudo isto é o reforço dos denominados “populismos” de extrema-direita (Frente Nacional, Liga do Norte), esquerda radical (Podemos) ou sem ideologia pré-estabelecida (Movimento 5 Estrelas). Estas novas forças políticas estão a debilitar ainda mais o espaço de convivência europeu e a recuperar velhos chavões nacionalistas ou isolacionistas que trazem à memória tempos de tão má memória. O Estado nacional, isolado política e economicamente, para uma parte do eleitorado, parece agora voltar a ser a panaceia para todos os males e o que abrirá portas ao emprego, à segurança e ao crescimento. Nada mais errado: as respostas dos anos 30 do século XX não são compatíveis com os anos 10 do século XXI.

O modelo nacionalista está votado ao fracasso. O grande problema é esse fracasso só poder ser comprovado de duas formas: pela recuperação do modelo democrático-liberal europeu ou pela própria falência devidamente certificada por uma experiência governativa, o que seria dramático para a Europa. Os suspiros de alívio que se sentiram com as recentes eleições para o parlamento holandês ou com as presidenciais austríacas devem, assim, ser encarados como uma última oportunidade para vencer o nacionalismo através da recuperação da democracia liberal. Porém, caso os políticos façam com estas vitórias o mesmo que têm feito até agora e persistam no isolamento e na desarticulação, não continuaremos a suspirar de alívio por muito mais tempo.

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