Tailândia extradita "rei" dos traficantes de armas para os EUA

O alegado rei dos traficantes internacionais de armamento, Viktor Bout, foi hoje extraditado da Tailândia para os Estados Unidos. O Governo Tailandês autorizou a extradição após uma batalha legal que durou meses. Moscovo opunha-se à decisão, alegando que o antigo oficial da Força Aérea russa é “um simples homem de negócios”. Nos EUA Bout é alvo de quatro acusações de terrorismo.

António Carneiro, RTP /
Viktor Bout, que hoje foi extraditado para os EUA, é considerado um dos maiores traficantes de armas da história recente Narong Sangnak, EPA

Bout foi esta madrugada transferido de uma prisão de segurança máxima em Banguecoque e embarcado num voo com destino aos EUA.

Dezenas de agentes da polícia acompanharam a deslocação do russo de 43 anos, a quem foi vestido um colete à prova de balas, antes de ser entregue à custódia de oito agente federais norte-americanos.

O avião levantou voo poucas horas depois de o Governo tailandês ter removido o último obstáculo que ainda permanecia. O primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva disse que o executivo tinha decidido apoiar a anterior decisão do tribunal, que apoiava a extradição.

“Mercador da Morte”A justiça dos EUA diz que, ao longo de 15 anos, Viktor Bout, vendeu armas que alimentaram conflitos armados na América do Sul, Médio Oriente e África, contando-se entre os seus clientes, o ex-presidente da Libéria, Charles Taylor, o líder líbio Muhammar Khaddaffi e ambos os lados da guerra civil angolana.

O homem a quem um político britânico chamou uma vez, “o mercador da morte” foi preso em 2008 em Banguecoque, no quadro de uma operação clandestina, em que agentes federais dos EUA se fizeram passar por representantes do grupo rebelde colombiano FARC, que pretendiam adquirir armas.

Antes de ser detido, tinha concordado em fornecer mísseis terra-ar, rockets anti-tanque, aeronaves ultra-leves, aviões não-pilotados e outros tipos de armamento ao grupo que combate o Governo da Colômbia.

As autoridades norte-americanas levantaram contra Bout quatro acusações de terrorismo, que incluem conspiração para matar cidadãos americanos, conspiração para matar responsáveis ou funcionários dos EUA, conspiração para adquirir e usar mísseis anti-aéreos e conspiração para fornecer recursos a uma organização terrorista estrangeira, uma designação que o Departamento de Estado norte-americano atribui às FARC.

Viktor Bout insiste em que não infringiu nenhuma lei e afirma que as acusações contra ele são mentiras. Se for considerado culpado em tribunal poderá ser condenado a prisão perpétua.

O homem que sabia demais?Bout começou, alegadamente, a vender armas, nos anos 90 do século passado, por alturas da desintegração da união Soviética. Beneficiando dos seus contactos na Força Aérea russa, terá adquirido, como excedentes, aviões Soviéticos e começado a fornecer armamento e munições a zonas de conflito, segundo alega o departamento do tesouro dos EUA.

A sua extradição para os EUA foi rodeada de complicações legais: Em Agosto um tribunal Tailandês autorizou a decisão, que deveria ter tido efeito no prazo de três meses. Um avião americano chegou a ser enviado a Banguecoque para o recolher, mas a extradição acabou por ser atrasada pelos tribunais, que insistiram em examinar primeiro outras acusações, de lavagem de dinheiro e fraude, que a justiça norte-americana tinha levantado.

Em Outubro o tribunal decidiu deixar cair essas acusações abrindo caminho à extradição, mas o Governo russo exigiu a  libertação do seu cidadão, afirmando que Bout é um simples homem de negócios inocente e que a decisão de o extraditar é politicamente motivada.

Alguns analistas dizem que em Moscovo poderá haver receios de o alegado traficante de armas venha a aceitar um acordo para testemunhar em julgamentos nos EUA, e venha a revelar mais do que seria desejável para as autoridades russas.

"Senhor da guerra"
Viktor Bout terá sido a inspiração para o personagem Yuri Orlov, interpretado pelo actor Nicholas Cage no filme de 2005 "O Senhor da Guerra" (Lord of War), que retratava os negócios de um traficante internacional de armamento.
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