Tailândia. Manifestantes exigem renúncia do primeiro-ministro e põem em causa monarquia

Milhares de manifestantes pró-democracia juntaram-se esta quarta-feira na capital da Tailândia, durante uma visita do rei Maha Vajiralongkorn. O protesto foi organizado com vista a exigir a renúncia do primeiro-ministro, Prayut Chan-O-Cha, tendo alguns exigido também a reforma da poderosa monarquia, um assunto tabu no reino.

RTP /
Narong Sangnak - EPA

As ruas de Banguecoque foram palco de novos protestos para exigir reformas democráticas, incluindo restrições ao poder e à riqueza da monarquia. O cortejo com milhares de manifestantes partiu no início da tarde desta quarta-feira do Monumento à Democracia, no centro de Banguecoque, ouvindo-se a multidão gritar "Abaixo a ditadura", "Prayut fora" e "Viva a democracia", enquanto passava a comitiva real.

Os manifestantes fizeram ainda uma saudação de três dedos, enquanto gritavam "os meus impostos" quando o rei passava num carro ao lado da rainha Suthida no meio de uma multidão de manifestantes pacíficos - segundo a BBC, o gesto que se tornou o símbolo dos protestos terá sido inspirado nos filme dos "Hunger Games", onde é considerado um símbolo de união e de desafio.

Os manifestantes foram brevemente parados pela polícia, até que os agentes finalmente desistiram de os reter e cerca de 8.000 pessoas, segundo as autoridades, conseguiram chegar à Casa do Governo no início da noite. De facto, a multidão prometeu não bloquear a passagem da comitiva real e não o fez, pelo que não se justificava a intervenção das autoridades.

"Não iremos embora até que Prayut Chan-O-Cha renuncie", afirmou Anon Numpa, um dos líderes do movimento, à agência francesa France-Presse.

Segundo os manifestantes, os protestos são também para pedir uma nova Constituição, justificando que acreditam ter-se permitido de forma injusta que Prayuth mantivesse o poder durante as eleições do ano passado. Além disso, pedem reformas na monarquia, uma instituição protegida por leis rígidas de lesa-majestade e que há muito tempo é considerada intocável.

Ao mesmo tempo, apoiantes da monarquia organizaram um contra-protesto vestidos de amarelo, a cor do rei, declarando que se tinham juntado para receber e dar as boas-vindas ao rei Maha Vajiralongkorn, que se deslocou ao país para presenciar uma cerimónia a marcar o fim da Quaresma budista.

"A monarquia existe há mais de 700 anos. Eles querem derrubá-la. Viemos trazer o nosso amor ao nosso soberano", disse um dos apoiantes à AFP, Siri Kasemsawat, guia turístico antes da pandemia de covid-19.

Mas uma manifestante pró-democracia, Dear Thatcha, garantiu que não estavam a pedir que a monarquia ou a família real fosse "derrubada, esquecida ou desrespeitada".

"Estamos apenas a pedir que mudem conosco. O nosso país precisa de se adaptar a muitas coisas, e a monarquia é uma das questões que precisa de ser adaptada também", disse ainda.

Durante os últimos meses, os estudantes organizaram manifestações pró-democracia em todo o país. O protesto desta quarta-feira foi particularmente tenso, uma vez que coincidiu com a visita real à capital.

"Eu acho que temos de reformar a monarquia e fazer com que a instituição seja guiada pela Constituição. Ou podemos seguir o modelo da França", disse um dos manifestantes ao Guardian, um estudante de 19 anos que pediu para não ser identificado.

"A monarquia também gasta uma grande quantidade de dinheiro de impostos. Acho que a política e a monarquia estão intimamente ligadas. Mesmo se alterarmos a constituição, o rei ainda pode intervir. Por isso, acho que a reforma da monarquia e da política deve ser feita simultaneamente", concluiu ainda.

Apesar de alguns confrontos leves, os dois campos, pró-monarquia e pró-democracia, mantiveram a distância. Porém esta é a primeira vez que se encontram cara a cara desde o início do movimento de protesto, que floresceu durante o verão entre a juventude tailandesa.

Os líderes do movimento pró-democracia esperavam reunir dezenas de milhares de manifestantes esta quarta-feira, o 47º aniversário da revolta estudantil de 1973. Segundo a BBC, estariam cerca de 18 mil manifestantes pró-democracia.

De acordo com a imprensa internacional, parecem ter atraído menos pessoas do que a última grande manifestação, que reuniu cerca de 30 mil pessoas na capital, em setembro, e alguns observadores temem que o protesto perca força.

"Eles podem ter sobrestimado a sua força", opinou Thitinan Pongsudhirak, cientista político da Universidade Chulalongkorn, em Banguecoque.

O movimento, na sua maioria composto por estudantes urbanos, "carece de um propósito claro e de uma agenda para convencer um grande número de pessoas", continuou Thitinan.

Segundo o mesmo, um confronto real entre pró-monarquistas e o movimento revolucionário é provável num país acostumado a golpes de Estado e violência política, mas não imediatamente.

De momento, as autoridades têm respondido no domínio judicial, com dezenas de ativistas presos desde o início do protesto. A maioria foi libertada sob fiança e alguns são acusados de "sedição".
PUB