Talibés explorados em Dacar contrastam com ilha de Goreia, que homenageia os escravos africanos (C/FOTOS)
Isabel Marisa Serafim, da Agência Lusa
Dacar, 14 Dez (Lusa) - As dezenas de crianças talibés que mendigam pelas ruas de Dacar, capital do Senegal, contrastam com a vista sobre a ilha de Goreia, antigo entreposto de escravos, que hoje presta homenagem aos milhares de africanos escravizados.
Feitoria fundada pelos portugueses, a ilha de Goreia foi administrada ao longo de vários séculos por holandeses, ingleses e franceses e considerada património mundial pelas Nações Unidas em 1978.
O armazém de escravos de Goreia fechou portas no século XIX com o fim da escravatura, mas no Senegal continuam a existir outras formas de exploração, nomeadamente a das crianças talibés (estudantes do Corão) pelos seus alegados mestres corânicos.
Orgulhosos em mostrar Gorée ao mundo e em lembrar o fim da escravatura, a forma como as crianças talibés são exploradas passa, contudo, despercebida à maior parte dos senegaleses que vivem em Dacar e que vagueiam apressadamente pela Praça da Independência, onde está concentrada a maior parte destas crianças, provenientes da Guiné-Bissau e de outros países fronteiros com o Senegal.
O dia dos talibés começa cedo. Por volta das oito da manhã concentram-se em redor da principal praça de Dacar, onde estão reunidos vários bancos e ministérios senegaleses.
O objectivo é conseguir algum dinheiro, arroz e açúcar para depois regressarem aos subúrbios da capital senegalesa, habitada por mais de dois milhões de pessoas, para dar os "donativos" ao seu mestre corânico.
Sujos, esfomeados e alguns aparentemente doentes, os talibés vão deambulando pela praça e principais artérias da cidade a pedir qualquer coisa para a lata, companheira inseparável e forma de identificar um talibé.
Em grupos de cinco ou seis ou a pares, as crianças, com idades compreendidas entre os cinco e os 13 anos - em alguns casos podem ser mais novos ou mais velhos -, têm como alvo preferencial os turistas, que não largam até uma moeda lhes cair na mão.
Tal como os arrumadores de carros em Portugal, funcionam de forma organizada. O mais velho do grupo lidera os mais novos, que lhe vão entregando todo o dinheiro recolhido.
O mais velho do grupo é também quem os organiza para regressar para junto do alegado mestre corânico, que à falta de lucro e alimentos pode decidir não os deixar entrar em casa ou mesmo bater-lhes.
Esta é uma das razões pelas quais é também possível ver talibés à noite a mendigar. O medo de regressar sem nada leva-os a pernoitar nas ruas.
Outra particularidade destas crianças, que deixam o seu país muito novas, é perder todas as referências culturais.
Não falam francês, apenas wolof ou fula, e mesmo quando questionados naqueles dialectos africanos recusam dizer de onde são ou onde estão a viver.
Ensinados a viver na clandestinidade, muitos acabam por fugir e desaparecer para sempre sem que os pais ou a família voltem a ouvir falar deles.
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