Tchernobyl - Ucrânia chora vítimas do desastre nuclear de 1986
O Presidente da Ucrânia visitou hoje a central nuclear de Tchernobyl para honrar a memória das vítimas do pior acidente nuclear da história, ocorrido a 26 de Abril de 1986, anunciando como tarefa nacional a reabilitação dos territórios afectados.
"A tarefa consiste em devolver Tchernobyl à Ucrânia, como área de desenvolvimento", declarou Viktor Iuchtchenko, numa sessão realizada naquela central.
Juntamente com as Nações Unidas (ONU) e a União Europeia (UE) "será possível demonstrar que no país não há buracos negros", afirmou.
E recordou: "Após duas décadas de dor e sofrimento, os residentes nos territórios afectados - num raio de 30 quilómetros da central - devem saber que há projectos de desenvolvimento".
"Para centenas de milhar, talvez milhões de pessoas, o pedaço de terra em que nos encontramos é sagrado", sublinhou o chefe de Estado na cerimónia, durante a qual foram condecorados participantes nos trabalhos para minimizar o desastre.
De manhã, Iuchtchenko sobrevoou os cerca de 100 quilómetros entre Kiev e Tchernobyl onde, à 01:23 de 26 de Abril de 1986, duas explosões no reactor número quatro, devidas a erros humanos, técnicos e de construção, libertaram para a atmosfera o equivalente a entre 100 a 150 bombas atómicas como a de Hiroshima (Japão).
Mais de 600.000 bombeiros, soldados, funcionários e voluntários soviéticos tomaram parte na cobertura do reactor para conter a radiação letal, que veio a ser causa de invalidez permanente e morte de muitos deles.
Peritos ucranianos chegaram à conclusão de que o desastre fez 100.000 vítimas na Ucrânia, Rússia e Bielorrússia - os outros dois países mais afectados -, número corrigido para o dobro pela organização ecologista Greenpeace.
Iuchtchenko admitiu que os seus concidadãos não sabem toda a verdade, porque as autoridades soviéticas de então a ocultaram.
O país - adiantou - não está em condições de assumir sozinho os custos financeiros das consequências da avaria que, em números do Governo, ascenderão a 137.000 milhões de euros em 2015.
Até então, em números divulgados pela ONU em Setembro de 2005, deverão morrer de cancro 4.000 pessoas na Ucrânia, Rússia e Bielorrússia.
Neste 20/o aniversário do desastre, os serviços de segurança ucranianos desclassificaram vários documentos confidenciais, entre os quais uma peritagem segundo a qual as explosões no reactor número quatro foram equivalentes a 30 toneladas de trinitrolueno.
Num museu em Kiev foram pela primeira vez mostrados ao público os gráficos oficiais - até agora secretos - da dinâmica da magnitude da radiação na capital ucraniana, nos dias seguintes às explosões.
Houve uma missa em que os fiéis levaram um cravo vermelho e um espectáculo dramático na central de Tchernobyl, pelo grupo Brut de Béton, de Billom, centro da França. Num monumento às vítimas, foram depostas coroas de flores e velas.
Na Rússia, centenas de pessoas afluíram ao cemitério de Mitino, nos arredores de Moscovo, para homenagear 28 bombeiros que foram as primeiras vítimas de um "incêndio habitual" - como lhes disseram as autoridades -, lembrou o engenheiro Ivan Kovalenko, citado pela agência RIA-Novosti.
Os túmulos dos bombeiros em Mitino ainda hoje estão cobertos com grossas placas de chumbo para impedir a emissão de radiações.
Serguei Kirilenko, chefe da Agência de Energia Atómica da Rússia, instou os presentes a retirarem lições do ocorrido.