Tchizé dos Santos lança forte apelo à tolerância na sociedade angolana

Luanda, 03 Fev (Lusa) - A jornalista e empresária angolana Tchizé dos Santos, publicou um texto no Semanário Angolense onde faz um veemente apelo à tolerância dos angolanos.

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Neste texto, a filha do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, entre outras nacionalidades, lembra os seus compatriotas que "os portugueses não têm culpa" que em Angola se goste tanto do "seu" bacalhao com natas".

A propósito de uma canção do músico Dog Murras, em cuja letra são apontadas algumas das gritantes discrepâncias entre ricos e pobres na sociedade angolana, Tchizé dos Santos admite concordar com "algumas verdades" cantadas pelo "compositor genial" em "Angola Bwé de Caras".

Esta música foi lançada envolta em alguma polémica porque, alegadamente, a Rádio Nacional de Angola (RNA, estatal) não aceitou passá-la na sua programação.

No entanto, Tchizé dos Santos, aproveita o ensejo para alargar a sua mensagem e, dirigindo-se a Dog Murras, como figura pública, defende que este não devia "fomentar a desunião e a frustração que todo o povo angolano vive" num país que "anseia" pela reconstrução e total recuperação dos efeitos nefastos da guerra que terminou apenas em 2002.

"Ninguém gosta de ser lembrado que vive num país com dificuldades, estradas esburacadas, paludismo e outros problemas", atira Tchizé dos Santos, sublinhando que "todos estão expostos" a esta realidade, "ricos ou pobres".

A jornalista e empresária defende que "todos", apesar das dificuldades, "amam a sua terra" e, por isso, "todos" devem "trabalhar unidos por uma Angola melhor".

No texto de página inteira publicado este fim-de-semana pelo Semanário Angolense, depois de dizer que em todo o mundo há poderosos, "delinquentes de colarinho branco", que passam por cima de outros, apelando à união dos seus compatriotas para enfrentar as dificuldades.

Nesta prosa, a filha de José Eduardo dos Santos, diz que um dos problemas é que, "infelizmente", alguns "pseudo novos-ricos" angolanos "esquecem as suas origens" e querem "passar por cima do seu vizinho que saiu do mesmo bairro e acham que têm direito a tudo na lei da força".

Num dos versos de "Angola Bwé de Caras", Dog Murras canta: "Angola do petróleo, do diamante e muita madeira/ Angola do paludismo, febre tifóide e muita diarreia... Angola dos herdeiros que não fazem nada e têm bwé da massa/Angola do kota honesto que bumba(trabalha) bwé e não vê nada..."

Aproveitando ainda a ocasião para sublimar um putativo mal estar em alguma sociedade angolana para com os estrangeiros, Tchizé dos Santos diz que a "culpa" não é dos chineses pela herança angolana com poucos quadros capazes de fazer as obras que eles(chineses) fazem com rapidez.

O mesmo sentimento é apontado a "franceses, brasileiros etc...", questionando Tchizé: "Quem trabalha de graça na terra dos outros? Claro que os expatriados têm que ser recompensados por estarem na nossa terra dos buracos, do paludismo e da poeira".

Zairenses, malianos ou senegaleses são ainda lembrados. Mas, também para os portugueses, sobre os quais se diz amiúde em Angola que são amados e odiados na mesma proporção, fruto de cinco séculos de colonialismo e uma significativa presença desde a independência de Angola em 1975, Tchizé dos Santos tem uma apaladada palavra.

"E por fim os portugueses também não têm culpa do facto de gostarmos tanto dos seus chouriços, bacalhau com natas, Sumol de ananás e cerveja Sagres em vez de valorizarmos a nossa Cuca, Nocal e o Yuki ou a Chikaungua da terra, nas festas onde agora finalmente já dançamos as músicas dos nossos cantores e compositores sem vergonha", diz.

O cantor Dog Murras, na sua polémica canção de clara intervenção social, termina o poema lembrando: "Angola do rico é rico, muito conceito com preconceito/Angola do pobre é pobre, que nasce pobre e morre pobre.

Este posicionamento da filha de José Eduardo dos Santos surge ainda num momento em que um CD pirata chamado "Variada 2008" foi posto à venda em Luanda, merecendo veementes críticas de sectores políticos e sociais por conter fortes apelos à discriminação racial e violentas acusações ao Chefe de Estado e outros elementos do governo angolano.

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