Temer defende legitimidade e escolhas ao som de protestos

Michel Temer defendeu na primeira entrevista enquanto Presidente interino do Brasil as escolhas masculinas para os ministérios e reafirmou que tem legitimidade constitucional para governar. Ao mesmo tempo que falava na Globo, várias cidades viviam “panelaços” de protesto. Admitiu ser impopular, mas não descartou completamente uma candidatura à reeleição, caso Dilma seja afastada em definitivo.

Ana Sofia Rodrigues - RTP /
Michel Temer, presidente interino do Brasil Ueslei Marcelino - Reuters

“Tenho uma legitimidade constitucional. Constitucionalmente, se a Presidente é afastada, quem assume o poder é o vice-presidente”, declarou Michel Temer em entrevista ao programa “Fantástico”, da rede Globo.

“Fui eleito com a Presidente. Os votos que ela recebeu eu também recebi. Mas reconheço que não tenho essa inserção popular”, afirmou Temer em jeito de resposta às críticas de Dilma Rousseff, reconhecendo que só reverterá essa impopularidade se trouxer um “efeito benéfico” ao país.

Ao mesmo tempo que decorria a entrevista, em várias cidades brasileiras bateram panelas contra Temer. Segundo a mais recente sondagem do Datafolha, apenas 16 por cento têm uma expectativa positiva na nova gestão.

Caso Dilma seja considerada culpada no processo de destituição que decorre, Michel Temer continuará no poder até 2018.

“Recuso a possibilidade de uma eventual reeleição”, afirmou o Presidente interino na entrevista. No entanto, houve insistência na pergunta. E Temer acabou por responder que “é uma pergunta complicada… Em nenhuma hipótese…De repente, pode acontecer”, relata o jornal O Globo. Temer garante que isso lhe dá tranquilidade.
Mulheres de fora
Entre os 23 ministros apresentados por Michel Temer, não há nenhuma mulher. São todos homens, brancos, o que já valeu muitas críticas ao novo Executivo. É a primeira vez desde 1979, quando o país era governado pelo general Ernesto Geisel, que somente homens formam o gabinete de um Presidente, lembra a BBC.

No domingo milhares de mulheres fizeram uma manifestação em São Paulo, na Avenida Paulista. O protesto foi convocado nas redes sociais com o nome “Mulheres contra Temer”.

Michel Temer quis defender-se. Garantiu que quando todo o elenco governativo estiver finalizado haverá quatro mulheres na equipa.

O Presidente interino citou a chefia do gabinete da Presidência da República, cargo exercido por Nara de Deus Vieira, para lembrar que há pelo menos uma representante feminina na cúpula do Governo.

“Não digo que esteja acima dos ministros, mas evidentemente tem uma prevalência muito grande em relação ao ministério”, referiu Temer.

Revelou ainda que pretende chamar mulheres para cargos de secretarias de Estado, nomeadamente na Cultura, Ciência e Tecnologia e Comunicações e Cidadania. Temer minimizou o facto de essas funções não terem status de ministro. “Há pessoas que se seduzem com a história de ser ministro ou não. Eu já exerci funções sem ser secretário de Estado e desenvolvi trabalhos extraordinários”, garantiu o recém-empossado presidente.

Temer irá chamar a própria mulher para o seu Governo. Marcela irá ocupar uma função na área social. Porque “ela é advogada e tem muita preocupação com as questões sociais”.

Michel Temer advoga ainda ter “falado à sociedade” ao cortar ministérios, de 32 para 23 pastas, e declina a acusação de ter montado uma Esplanada de “notáveis”. “Penso que escolhi os melhores nomes, são notáveis politicamente, notáveis administrativamente”.

Sobre os nomes do seu Executivo envolvidos na investigação sobre corrupção, a Lava Jato, Temer considerou que ser investigado não o impediu de designar ministros. O único que enfrenta inquérito aberto é Romero Jucá, do Planeamento, mas ainda não é réu. Se isso acontecer, “aí vou examinar”, declarou o interino, citado pela Folha de S. Paulo.
Previdência e programas sociais
Na entrevista de domingo, Michel Temer voltou a defender a pacificação do país e a redução do desemprego como prioridades.

O Presidente interino prometeu reduzir a despesa pública “onde é necessário”, assegurando no entanto que manterá os programas sociais vindos ainda dos governos de Lula da Silva e da sucessora Dilma.

“Se for necessário, cortarei de outros setores”, afirmou. Enquanto afirmava que não se iria candidatar a uma reeleição, Temer sublinhava, numa referência a eventuais medidas mais duras: “Posso assim até ser impopular”.

Isto quando o ministro das Finanças, Henrique Meirelles, já veio admitir uma eventual necessidade de aumentar impostos.

Sobre um dos temas que promete polémica, a reforma da Previdência, Temer garantiu que não será feita qualquer mudança que “vulnere direito adquirido”.
“Panelaços”
Enquanto era transmitida a entrevista a Michel Temer registaram-se protestos em pelo menos cinco capitais, revela a imprensa brasileira.

“Golpista” e “fora Temer” foram algumas das palavras ouvidas ao mesmo tempo que ecoavam apitos, apupos, buzinadelas e “panelaços”.

Os protestos com panelas tornaram-se comuns desde o ano passado, quando foram usados contra a então Presidente Dilma Rousseff.

A imprensa brasileira dá conta de manifestações em cidades como o Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Belo Horizonte, Brasília e Niterói. O protesto durou cerca de meia hora.

c/ agências e imprensa brasileira
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