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Confronto nos Himalaias destapa tensão latente entre China e Índia
Os confrontos das últimas semanas ao longo da fronteira entre a China e a Índia culminaram, na segunda-feira, na morte de pelo menos 20 soldados indianos. No entanto, as disputas territoriais na zona fronteiriça já decorrem há várias décadas, em anos marcados por desavenças constantes numa paz dissimulada. O que pode significar este embate entre colossos asiáticos, duas potências nucleares que são, de longe, as duas nações mais populosas do mundo?
Um confronto violento entre forças indianas e chinesas no vale do rio Galwan, região de Ladakh, provocou a morte de pelo menos 20 soldados indianos. Até ao momento, a China reconheceu o incidente mas não reportou quaisquer baixas ou feridos, sendo que a imprensa indiana garante que pelo menos 43 soldados chineses morreram ou ficaram feridos.
Em reação ao sucedido, a China acusou as forças indianas de terem realizado “ataques provocadores”. Por sua vez, os indianos denunciam que tropas chinesas ocuparam uma área no vale do rio Galwan junto a “uma estrada estrategicamente crucial para a Índia”.
O primeiro conflito mortífero na região desde 1975 - e o pior em mais de meio século - ocorreu na região fronteiriça dos Himalaias disputada pelos dois países, junto ao planalto de Aksai Chin, um território de Caxemira que foi ocupado pela China em 1962, após a guerra sino-indiana - que Pequim venceu - mas que ainda assim continua a ser reivindicado por Nova Deli.
China e Índia reivindicam vastas extensões de território ao longo da fronteira na cadeia montanhosa dos Himalaias. Alguns destes desentendimentos remontam a demarcações territoriais que foram desenhadas por antigos responsáveis coloniais, no tempo em que o Império Britânico administrava a região.
A fronteira de 1914, conhecida por “Linha McMahon”, nunca foi reconhecida por Pequim, que reivindica 99 mil quilómetros quadrados de um território que atualmente constitui praticamente todo o estado indiano de Arunachal Pradesh.
Na curta guerra sino-indiana, em 1962, tropas chinesas invadiram a
fronteira disputada com a Índia. Durante quatro semanas morreram
milhares de pessoas do lado indiano e Pequim manteve o território de
Aksai Chin, que faz a ligação ao Tibete e o leste da China. Alguns anos depois, em 1967, ocorreram vários confrontos em Nathu La e Cho La, na fronteira entre a China e Sikkim, em que morreram centenas de pessoas, sobretudo do lado chinês.
Em
1975, na última escaramuça em que foram disparados tiros, de acordo com os
registos oficiais, quatro soldados indianos morreram. O último diferendo
mais significativo em anos recentes tinha ocorrido em 2017 na zona de
Doklam, na fronteira entre a China, Índia e o Butão, aliado de Nova
Deli.
Paus e pedras
De acordo com os relatos da imprensa indiana, os soldados morreram no contexto de uma rixa com o lado chinês em que não foi disparado nenhum tiro. Estes soldados entraram em confronto recorrendo sobretudo a paus e pedras, mas não sobreviveram aos ferimentos devido às condições adversas no terreno, tendo alguns soldados caído de um desfiladeiro.
A topografia do local dificulta tudo, mesmo o acesso à informação para lá do que é dito por ambos os lados: tal como na segunda-feira, os confrontos ocorrem por vezes a altitudes superiores a quatro mil metros, em zonas inóspitas de montanha, remotas e irregulares, expostas a temperaturas negativas.
Os especialistas militares explicam que esta intensificação do conflito desde meados de maio terá tido origem na construção, por parte da Índia, de novas estradas e ligações aéreas, ainda que Nova Deli garanta que estas estruturas estão a ser erguidas do lado indiano no sentido de melhorar acessos, algo que a China tem feito do seu lado da fronteira ao longo das últimas décadas.
“A área de Galwan tornou-se num ponto de maior acesso porque é onde a Linha de Controlo Real está mais próxima da nova estrada que a Índia construiu, na zona remota e vulnerável de Ladakh”, explicou Ajai Shukla, indiano perito em assuntos militares, em declarações à BBC.
A China reage com desconfiança perante este e outros empreendimentos da Índia no local, até porque as melhores ligações permitem a Nova Deli deslocar mais facilmente militares e materiais para a região, num cenário de novo conflito entre os dois países.
De acordo com as autoridades indianas, a China apressou-se rapidamente a invadir a linha de demarcação na região de Ladakh, o que levou a Índia a enviar reforços para defender as suas pretensões territoriais.
"Relações não vão voltar ao normal"
Numa tentativa de aliviar a tensão, o Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros emitiu um comunicado esta quarta-feira em que garante que os dois países “concordaram em tratar cuidadosamente os graves acontecimentos no vale de Galwan” depois de uma conversa telefónica entre Wang Yi, chefe da diplomacia de Pequim, e Subrahmanyam Jaishankar, o seu homólogo indiano.
De acordo com Pequim, as nações concordaram ainda em respeitar o consenso alcançado durante reuniões entre militares com o objetivo de “aliviar tensões no terreno o mais depressa possível e para manter a paz e tranquilidade na fronteira”.
No entanto, também esta quarta-feira, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, garantiu que o "sacrifício" dos 20 soldados “não terá sido em vão”. Num discurso transmitido pela televisão, Modi frisou que “a unidade e a soberania do país é o mais importante”.
“A Índia quer a paz, mas poderá dar uma resposta apropriada se for instigada a fazê-lo”, alertou.
Ashley Tellis, especialista da Carnegie em questões relacionadas com a Índia, considera que, depois deste episódio, “as relações sino-indianas não vão voltar ao normal”.
A relação bilateral “será redefinida por uma maior competitividade de uma forma que nenhum dos dois países pretendia no início desta crise”, destacou.
A escalada de tensão neste conflito latente pode também ser reflexo de receios mais profundos ao nível geopolítico, com o subcontinente indiano a recear a ação de outro gigante nas suas fronteiras.
O sucedido na zona fronteiriça poderá, por outro lado, despoletar um efeito galvanizador nas populações de ambos os países, marcadas pela influência da retórica nacionalista de ambos os países.
“No melhor dos cenários, este incidente na fronteira contestada entre a Índia e a China – a mais sangrenta em meio século – leva a que os dois Governos iniciem um processo para resolver a questão de uma vez por todas. Na pior das hipóteses, os nacionalistas de ambos os lados aumentam a pressão na defesa de uma escalada séria”, escreveu no Twitter o analista Vipin Narang, especialista em estratégia e proliferação nuclear Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
Torna-se por isso essencial voltar às negociações e resolver de vez a questão da fronteira, de forma a evitar um agravamento da situação: “É óbvio que haverá mais destes confrontos sem uma mudança de direção e uma tentativa de estabelecer onde se situa a Linha de Controlo Real e de como ambos os lados se devem comportar à sua volta”, escrevia na terça-feira o jornal The Guardian.