Teóloga espera novo Papa contrário a "clericalismo machista"
A teóloga portuguesa Teresa Toldy afirmou hoje que a prática de abertura às mulheres por Francisco não foi acompanhada por um discurso novo e disse esperar um novo Papa que contrarie o "clericalismo machista" que existe na organização.
Em causa está o acesso das mulheres ao diaconado permanente, uma função que exige uma primeira ordenação no percurso sacerdotal, autorizando a celebração de algumas cerimónias, dar a comunhão ou conceder bênçãos.
"Vamos lá ver: a Igreja pensa que pode estar na posição de dizer que Deus só escolhe homens? É nitidamente um argumento para legitimar o clericalismo machista", disse à Lusa Teresa Toldy, considerando que os "argumentos avançados [para vedar o acesso das mulheres] não são argumentos dogmáticos, porque não o podem ser".
A proibição do acesso das mulheres "mantém-se porque temos, de facto, uma estrutura patriarcal", que "é contra os direitos humanos", já que "nenhuma outra organização se atreve a dizer `porque são mulheres, não podem`" exercer plenas funções, acrescentou a teóloga do Porto, professora na área da ética, religião e género.
Apesar de tudo, Francisco já contribuiu para mudanças no papel das mulheres, ao nomear religiosas e leigas para cargos como a liderança de um dicastério (equiparado a um ministério), o governo da Santa Sé ou a gestão das finanças do Vaticano.
"Relativamente às mulheres, a prática dele ia muito mais longe do que o discurso", que continua fechado em dogmas "sem sentido" e datados.
"Existem teólogas feministas desde o fim do Concílio [Vaticano II no inicio dos anos 60 do século passado] e há a ideia de que isto ainda é tudo para refletir, mas, quer dizer, já está bastante refletido, não?" -- questionou.
Contudo, Teresa Toldy admitiu que Francisco teve uma posição mais aberta ao papel das mulheres, assunto que João Paulo II e Bento XVI haviam dito "estar fechado".
"Quando se diz que as mulheres não podem aceder, porque ao longo da história da Igreja não houve prática nesse sentido", isso carece de fontes históricas e "existem indícios" que houve "mulheres que exerceram o diaconado" nos primórdios.
Noutros campos, Teresa Toldy alarga os elogios a Francisco, que veio "abrir as portas da Igreja. Enquanto nos Papas anteriores, tínhamos muitos critérios de pertença, o Papa Francisco, a partir do momento em que disse que a Igreja era um hospital de campanha que deveria acolher todos", contribuiu para uma "abertura à realidade do mundo, às pessoas que estavam nas margens e considerar inclusivamente, que essas pessoas das margens são, de facto, aquelas que estão no centro, aquelas que são mais importantes".
Exemplo disso foi o facto de ter mandado construir chuveiros para os sem-abrigo que viviam perto do Vaticano, salientou, em declarações à Lusa.
Por outro lado, o processo sinodal, uma iniciativa de discussão com as bases das comunidades eclesiais para apresentar propostas, muitas vezes em temas fraturantes como os divorciados, gays ou o papel da mulher, foi uma coisa inovadora na Igreja.
"Ele transformou o Sínodo, não numa coisa no tempo, mas num processo", que era "parte da identidade da própria Igreja", numa "atitude permanente de reflexão, de escuta e de diálogo".
Quanto ao conclave, há "expectativas que foram criadas e eu espero que o próximo Papa, seja ele quem for, tenha isto em conta", sublinhou a teóloga.
Durante anos, a Igreja focou o seu discurso no assistencialismo, mas Francisco veio dizer que "não basta a caridade, é preciso a justiça e para se poder falar de justiça, tem que se falar da sociedade do ponto de vista estrutural do ponto de vista sistémico".
Num momento em que há líderes que dizem uma coisa e fazem outra, "tínhamos ali uma pessoa que era coerente" e que deu "sinais éticos" ao mundo.
"Temos uma pessoa que abriu portas e agora se o próximo Papa for regredir, acho que isso teria um efeito catastrófico tanto para a Igreja internamente como para a sua própria relação com a sociedade", avisou Teresa Toldy.
"Se agora aparece um Papa que vai regredir, isso é mau para a Igreja, tanto para as pessoas que estão dentro da Igreja, como é mau para a Igreja do ponto de vista que era abertura ao mundo e isso seria uma desilusão muito grave", acrescentou.
Atualmente, há casos como a Igreja na Alemanha, em que se defende mudanças e atualizações nas práticas, enquanto os movimentos conservadores têm protagonismo crescente.
"Penso que o próximo Papa tem que cuidar da questão da unidade" da Igreja e "uma questão que se pode colocar é a possibilidade de em sítios diferentes poderem haver práticas que possam ser ligeiramente diferentes".
Exemplo disso seria a possibilidade de, na Europa e América Latina, as mulheres "terem acesso ao diaconado".
Contudo, essa Igreja a várias velocidades "tem de passar por uma reunião muito alargada, senão mesmo um Concílio para não se criar uma situação de rutura ou de protestantização da Igreja Católica", considerou ainda a teóloga.
O Conclave tem início na quarta-feira, dia 07 de maio e caberá aos 133 cardeais eleitores, com menos de 80 anos, a responsabilidade de escolher o sucessor de Francisco.
Todos os dias serão feitas quatro votações e o futuro Papa deverá ter pelo menos dois terços dos boletins contados.