Terão os norte coreanos já o poder nuclear pronto para ser utilizado como arma? Foto: Reuters

Terá a Coreia do Norte meios para lançar um ataque nuclear?

Construir um programa nuclear não é propriamente barato, e os países “potencialmente” visados também têm de estar preparados e equipados com um bom escudo contra um eventual ataque - isto a existir uma defesa eficaz contra um ataque nuclear.

Será o regime de Kim Jong-un capaz de construir e lançar um ataque nuclear a outro país? Esta é a questão que vale muitos milhões de dólares, literalmente.

Se agora é do conhecimento geral que a Coreia do Norte é capaz de fazer explodir uma bomba atómica, as dúvidas agora apontam para a capacidade dos norte coreanos, de lançarem uma ogiva nuclear com vista a atingir um alvo distante.


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Nos últimos anos foram várias as tentativas de anular ou pelo menos dissuadir o Governo de Pyongyang da pesquisa e elaboração de material nuclear, mas sem sucesso.


A demanda pelo poder nuclear
As ambições nucleares por parte da República Democrática da Coreia do Norte datam da década de 50, ainda governada pelo presidente Kim Il Sung.

Com um programa nuclear clandestino, a Coreia do Norte aproveitou os conhecimentos de Abdul Qadeer Khan, cientista e considerado o pai da bomba atómica paquistanesa, para desenvolver uma maior capacidade nesta área.

A aliança forneceu ao regime norte-coreano planos de construção de mini-ogivas nucleares.

Desde então a pesquisa não parou, resultando num crescendo de demonstrações.

O quinto e último teste foi registado na sexta-feira, coincidindo com a data do 68º aniversário da fundação do país, tendo provocado um sismo de magnitude 5.3 na escala de Richter.


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Cinco testes nucleares de baixa potência

Decorria o dia 9 de outubro de 2006, quando a Coreia do Norte realizou oficialmente o seu primeiro teste nuclear, no nordeste do país.

O abalo do primeiro teste foi registado pelo Instituto de Estudos Geológicos dos Estados Unidos (USGS), tendo os aparelhos mostrado um abalo sísmico com a magnitude de 4,3 na escala de Richter.
Bomba de fusão


A fusão significa a união de dois ou mais núcleos, resultando num novo elemento mais pesado. Quando isso acontece, o novo elemento formado é mais estável, daí a grande liberação de energia. Quando dois isótopos de hidrogénio se fundem formam um átomo de hélio. Esta reação é a responsável pela energia do Sol e das maiorias das estrelas. Para o início de uma reação como essa, necessita-se de altas pressões e altas temperaturas. No Sol, isso é conseguido pela enorme massa dele mesmo, que provoca altíssimas pressões, e pela continuidade das reações de fusão. Na bomba H, essas pressões e temperaturas são obtidas com a detonação de uma bomba de fissão, que é o detonador. A bomba de hidrogénio é mil vezes mais potente que a de urânio.


Estima-se que a potência da primeira bomba lançada pelo regime de Pyongyang teria menos de uma quilotonelada (1.000 toneladas de TNT), ou seja cerca de 15 vezes menos do que a bomba americana lançada em Hiroshima em 6 de agosto de 1945.

Com o pleno sucesso do primeiro teste, dois outros se seguiram: 2009, 2013.

Os registos sismológicos confirmaram a natureza atómica das explosões, apesar da baixa potência verificada, entre as 2 a 9 mil toneladas.

Já este ano, e com os olhos do mundo sobre a Coreia do Norte, o líder norte-coreano, Kim Jong-un queria mostrar que não tinha medo de ninguém, nem das represálias anunciadas pelos vizinhos coreanos do sul, tal como pelos japoneses.

Os testes do quarto e quinto ensaio nuclear realizaram-se nos dias 6 de Janeiro e 9 de setembro de 2016, respetivamente - mais poderosos e mais destrutivos, afirmavam os relatos vindos da Coreia do Norte.

O primeiro, realizado no início do ano, tinha uma potência compreendida entre as 6 e as 8 mil toneladas, já no último teste, realizado na passada sexta-feira, 9 de setembro, a bomba foi quase tão potente (12 Kilotons) como a”Little Boy” lançada em Hiroshima, em 1945, tendo esta uma potência entre as 8 e as 10 mil toneladas, uma detonação que deu origem a um sismo artificial da ordem dos 5,3 da escala de Richter.



Apesar das elevadas potências, os especialistas neste tipo de armamento alegam que estes testes nucleares se baseiam em bombas construídas com base na tecnologia de fissão e não termonuclear, muito mais complicada produzir.


Capacidade balística limitada mas em crescimento
Ter poder bélico nuclear e depois não ter a capacidade de o “enviar” de nada serve a um país.

Por esta razão a Coreia do Norte, para além do programa nuclear, também desenvolveu, desde os anos 90, um projeto de lançadores espaciais, que servem perfeitamente os propósitos bélicos.

Os veículos, construídos a partir da tecnologia instalada no uso de mísseis balísticos intercontinentais, foram adaptados para suportar cargas adicionais, tal como um satélite.

A Classe Taepodong é constituída pelas séries mais avançadas e poderosas de mísseis balísticos desenvolvidos por este país.

Um dos modelos, o Taepodong-3 (frequentemente designado por Unha-3), é o último representante desta série, com capacidade de alcance estimada em 12 mil quilómetros.


Este míssil de trinta metros de altura é composto por três pisos e foi lançado pela primeira vez a 13 de abril de 2012, mas o lançamento não foi totalmente coroado de sucesso, tendo o foguete explodido 80 segundos após a decolagem.

Mas esse fracasso não desmotivou os norte coreanos.

Uma segunda tentativa, em dezembro de 2012, enviou com sucesso o primeiro satélite deste país para o espaço. Mais tarde, já em fevereiro de 2013, a Coreia do Norte colocou com êxito um segundo satélite, de observação, com 200 quilos, numa órbita baixa, ainda hoje ativo.

Elementos mais do que promissores para o regime de Pyongyang se regozijar, face ao transporte de uma eventual carga bélica.

Quem também está atento aos desenvolvimentos tecnológicos do norte, são os vizinhos do sul.

Depois de uma análise dos restos e do combustível do foguetão norte coreano, que caiu no mar, o ministério da defesa sul-coreano disse, na época, que a carga do míssil poderia alcançar 500 a 600 quilos. Mas os últimos lançadores dão conta de que esse valor pode ter duplicado.


Lançador espacial ou míssil balístico intercontinental?
Alguns lançamentos bem-sucedidos não provam que os norte-coreanos dominam suficientemente a "arte" de colocar objetos a longa distância, de forma a conseguir efetuar um ataque bélico nuclear de sucesso.

Colocar uma ogiva nuclear, num ponto distante é muito diferente do lançamento de um satélite artificial numa órbita baixa.

Embora o meio tecnológico seja idêntico, um foguete e um míssil balístico são muito diferentes.

No caso de um foguetão espacial, todo o processo é moroso. Preparação do equipamento, verificação, tem de ser reabastecido dias antes, para além de o lançamento estar sempre condicionado pelas condições meteorológicas.

Ora, uma arma bélica não se pode dar a esses luxos, e tem de obrigatoriamente estar sempre pronta para um eventual lançamento, sem perda de precisão ou fiabilidade.


Um domínio da tecnologia "ainda" limitado
Fora de questão é a utilização forçada de um foguete preparado para o espaço e utilizado como “arma de arremesso”.

Apesar de o Unha-3 ser capaz de colocar um satélite numa órbita a 450 quilómetros, ele não está configurado para atingir um alvo distante.

De acordo com uma análise de Michael Elleman, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, os segundo e terceiro andares do foguete Unha-3, até podem fornecer o necessário impulso para uma trajetória balística, mas “nunca conseguiriam alcançar a altitude média de um míssil balístico intercontinental (cerca de 1.000 quilômetros) antes de cair de volta para a terra”, refere Elleman.
O segundo andar do lançador Unha-3, é um míssil soviético Scud modificado.
Mas suponhamos que até são capazes de colocar o míssil na distância correta.
 
Existem ainda dois obstáculos tecnológicos a vencer: a miniaturização da carga e a orientação do míssil.

As informações reunidas do programa nuclear da Coreia do Norte são poucas e escassas. No entanto, alguns especialistas em armamento estimam que o país poderá conseguiram desenvolver dez ogivas nucleares operacionais.


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Se, até ao ano passado, os norte-coreanos não tinham ainda conseguido miniaturizar as suas armas nucleares suficientemente para abrigá-las e instalá-las no topo de um míssil balístico, todo o processo dado agora a conhecer demonstra fortes progressos - progressos esses que fazem antever os piores cenários.Bomba de fissão

O termo fissão significa quebra. Então, na bomba de fissão, ou bomba atômica, o núcleo de um átomo parte-se. O isótopo de urânio 235, por ter três nêutrons a menos, captura nêutrons livres que se tornam altamente instáveis. Esta instabilidade é tamanha que ele se parte em dois outros (bário e criptônio) e libera três nêutrons, gerando uma quantidade enorme de energia. Esses três nêutrons tendem a romper outros três núcleos, os quais libertarão nove nêutrons, que libertarão 27 e, assim, sucessiva e exponencialmente. Se essa reação for muito rápida, ocorre uma grande explosão.


Washington e Seul anunciaram, em 8 de julho, a implantação de um sistema de mísseis dos EUA bateria THAAD, na parte sul da Península.

Mas para já, e enquanto todo o sistema ainda não está operacional, optaram por um sistema de persuasão, através da cooperação conjunta, existindo bombardeiros norte-americanos a sobrevoar a Coreia do Sul como demonstração de força face a um eventual ataque por parte do regime de Pyongyang.

Quanto à segunda exigência - orientação eletrónica ao alvo -, acredita-se que os engenheiros norte-coreanos ainda estão a tentar ultrapassar essa barreira.

A orientação eletrônica necessária para atingir um alvo especifico , depois de uma viagem de 10 mil quilometros, deve ser extremamente precisa.

Um míssil intercontinental terá de ser capaz de localizar, no espaço, o alvo, a fim de calcular a rota de voo. Algo que exige tecnologia avançada e cálculos complexos.

O Unha-3 apesar de ter sido lançado com sucesso, duas vezes, a precisão, essa, não é conhecida.

Para os países ocidentais, obter informações fiáveis sobre as tecnologias utilizadas por estes mísseis, está a tornar-se cada vez mais difícil, mas imagens de satélite recolhidas em fevereiro de 2014 mostravam que os norte-coreanos desenvolveram várias estruturas subterrâneas em seu centro espacial de Sohae.


Bombardeiros norte americanos vigiam céus sul coreanos/Foto: Reuters

Os serviços secretos divulgaram ainda que, para além das estruturas subterrâneas, várias estradas foram construídas junto ao complexo e acrescentado mais um andar, aos dez existentes, na torre de lançamento, permitindo teoricamente a descolagem de foguetes/misseis com uma altura até 50 metros.

Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos sensíveis para ouvir o trovão. Para ser vitorioso, é preciso ver o que não está visível. – Sun Tzu – em "A Arte da Guerra".