Traficante de divisas denunciou lavagem dinheiro no partido de Lula
O traficante de divisas António Claramunt, conhecido por Toninho da Barcelona, afirmou na terça-feira ter provas de que políticos do Partido dos Trabalhadores, o PT de Lula da Silva, "lavaram dinheiro" no exterior.
Condenado a 25 anos de prisão por evasão de divisas e lavagem de dinheiro, Toninho da Barcelona foi ouvido em São Paulo por 15 parlamentares da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga denúncias de corrupção no governo.
O traficante disse que operava para o PT durante a campanha presidencial de 2002, trocando dólares por reais, e propôs contar tudo o que sabe e apresentar as provas, se houver redução de sua pena.
Na sua versão, a operação era feita por vários dirigentes do PT, incluindo o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, coordenador da campanha presidencial de Lula da Silva.
Toninho da Barcelona acusou ainda o PT de enviar dinheiro para o exterior desde 1989.
Sem precisar se a remessa seria ilegal, o traficante afirmou também que o ministro da Justiça brasileiro, Márcio Thomaz Bastos, enviou dinheiro para o exterior e acusou o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, de ter feito operações ilegais.
De acordo com uma nota divulgada pelo Ministério da Justiça, as operações financeiras de Márcio Thomaz Bastos têm "suporte em remessas devidamente registadas no Banco Central".
Henrique Meirelles informou igualmente, por meio da sua assessoria, que "nunca fez remessas ilegais do Brasil para o exterior".
A CPI vai decidir agora se convoca ou não o traficante de divisas para falar publicamente no Congresso Nacional.
O presidente da CPI, senador Delcídio Amaral, do PT, pediu cautela com as denúncias de Toninho da Barcelona, que está preso desde Agosto de 2004, na penitenciária de segurança máxima de Avaré, interior de São Paulo.
O depoimento de Toninho da Barcelona alimenta ainda mais a crise política brasileira aberta em meados de Maio com a divulgação de uma gravação de vídeo em que um então funcionário dos Correios era visto a receber três mil reais (mil euros) para favorecer uma empresa privada.
A crise agravou-se com as denúncias feitas no início de Junho pelo antigo presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), deputado Roberto Jefferson, de que o PT pagava "mesadas" a deputados para votarem a favor do governo.
As investigações sobre as denúncias acabaram por revelar a existência de um "saco azul" do PT movimentado através das agências de publicidade do empresário Marcos Valério de Souza e usado para pagar o "mensalão" dos deputados e dívidas de campanhas.
Jefferson acusou também Marcos Valério de tentar um acordo com a Portugal Telecom (PT), que não chegou a ser fechado, para financiar as dívidas de campanha do PT e do PTB.
Em troca do alegado acordo, que seria de 20 milhões a 24 milhões de reais (6,9 milhões a 8,3 milhões de euros), Marcos Valério facilitaria os interesses da Vivo, "joint venture" entre a PT e a espanhola Telefónica, na aquisição da operadora Telemig Celular, em Minas Gerais.
A direcção do grupo português nega de forma categórica qualquer negociação que envolvesse financiamento a partidos políticos brasileiros.
O escândalo no Brasil, que ficou conhecido como "mensalão", já levou à demissão de diversos dirigentes de empresas estatais e também de toda a antiga direcção do Partido dos Trabalhadores.
O escândalo obrigou igualmente o presidente Lula da Silva a promover uma ampla reformulação governamental, com a troca de dez ministros, entre eles o da Casa Civil, José Dirceu, antigo "homem forte" do governo Lula da Silva e o maior alvo das denúncias de Roberto Jefferson.
CMC.
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