Tratado de Lisboa aprovado e assinado em tempo recorde na História da Europa

Lisboa, 12 Out (Lusa) - O Tratado europeu de Lisboa já tem o seu lugar assegurado na história da integração europeia, independentemente das suas consequências práticas, dado o tempo recorde da sua negociação formal, da sua conclusão e da sua aprovação política.

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Ao ter sido aprovado na madrugada de 19 de Outubro último, na Cimeira europeia de Lisboa, por todos os chefes de Estado e ou de Governo dos 27 países da UE, o Tratado que substitui a fracassada Constituição Europeia resultou da mais breve de sempre negociação formal de "Leis Fundamentais" da Europa comunitária, que este ano comemorou meio século de existência.

A urgência de se ultrapassar a ideia, interna e externa, de que a Europa comunitária estava em crise e praticamente paralisada, depois dos referendos negativos à Constituição Europeia na França e na Holanda, em 2005, conduziu a uma decisão drástica dos 27, liderados, no primeiro semestre deste ano, pela presidência europeia da Alemanha, governada pela democrata-cristã Angela Merkel.

No final de Junho último, em Bruxelas, Merkel e os seus conselheiros conduziram a longa maratona negocial em que os líderes dos 27 chegaram a acordo sobre o essencial do Tratado que substituiria a falhada Constituição Europeia, aprovando um mandato "claro e preciso" para a presidência europeia seguinte, exercida por Portugal, conduzir a redacção final e a aprovação política do novo documento em tempo recorde (até ao final do ano, o mais tardar).

Todavia, em termos práticos, de pouco valerá este recorde, se o novo Tratado Reformador da UE - que é formalmente assinado quinta-feira, em Lisboa - falhar a sua confirmação posterior (ratificação) em todos os Estados membros - nos parlamentos nacionais ou em referendos -, o que impedirá a sua entrada em vigor, pelo menos, antes das eleições europeias de Junho de 2009, como desejam e decidiram os líderes dos 27, em Março último, em Berlim.

Com efeito, o Tratado de Lisboa sobre o futuro funcionamento da UE promete ser um primeiro passo decisivo para a resolução de uma das piores crises político-institucionais da UE e ir para a "Galeria" dos Tratados decisivos da unificação europeia, mas não lhe basta ser assinado quinta-feira, no Mosteiro do Jerónimos, um dos mais emblemáticos monumentos da capital portuguesa.

O novo Tratado, que pretende vir a ser a próxima "Lei Fundamental" da actual "União Europeia dos 27", poderá só ficar na história da integração europeia pela particularidade de ter sido concluído, aprovado e assinado em tempo recorde, embora sem consequências práticas e funcionais.

Mais do que cumprir os objectivos genéricos para que foi concebido - melhorar a eficácia do funcionamento de um bloco comunitário europeu já com cerca de três dezenas de Estados membros e reforçar o seu peso político e diplomático no Mundo globalizado de hoje -, o Tratado que sair de Lisboa tem, em primeiro lugar, de ser confirmado (ratificado), sem sobressaltos, entre 2008 e princípios de 2009, em todos - sem excepção - Estados membros, por via parlamentar ou com recurso a referendos populares.

Só assim o futuro Tratado Reformador poderá entrar em vigor dentro do calendário político estabelecido pelos líderes dos 27 e, assim, contribuir para o fim efectivo da crise político-institucional - ou da percepção dela - em que a Europa dos 27 mergulhou depois da inviabilização da Constituição Europeia, com os referendos negativos em França e na Holanda.

Mas "a prioridade das prioridades" da actual presidência portuguesa da UE, a terceira desde que o país aderiu à então designada CEE, em 1986, era conseguir, na Cimeira de Lisboa de Outubro último, um acordo final sobre o novo Tratado europeu, naquela que foi a conferência intergovernamental (CIG) mais curta da história da construção europeia.

Lisboa lançou, em Bruxelas, a 23 de Julho último, uma CIG, o procedimento formal para negociar alterações aos Tratados fundadores da União Europeia, e alcançou um acordo pouco mais de três meses volvidos, algo inédito na história das negociações formais sobre estas matérias entre Governos da União.

A celeridade do processo tem como explicação o mandato invulgarmente preciso que Portugal recebeu na Cimeira de Bruxelas, na madrugada de 23 de Junho último, em Bruxelas.

Nas anteriores conferências entre governos comunitários sobre novos (ou alterações) de Tratados europeus, os mandatos apenas apontavam as grandes linhas do futuro debate, deixando uma grande margem para as negociações, mas, desta feita, tal não sucedeu, pela urgência de resolução do impasse.

A presidência portuguesa, que teve início a 01 de Julho, reclamou um mandato "claro e preciso" para se comprometer com um calendário - fixando desde logo a Cimeira de Outubro como a data para a conclusão da CIG -, e foi isso que a presidência alemã logrou atingir, no final de uma maratona negocial no Conselho Europeu de Junho, em Bruxelas.

As questões mais complicadas relativamente ao teor fundamental do futuro Tratado Reformador foram negociadas e acordadas ainda antes do lançamento da CIG.

No passado, as conferências governamentais foram marcadas por negociações mais complexas e bem mais morosas, e, entre as principais, destacam-se as de que resultaram vários novos Tratados europeus ou de alterações a anteriores, designadamente, o Acto Único Europeu (1986), o Tratado de Maastricht (1992), o Tratado de Amesterdão (1997) e o Tratado de Nice (2001).

Em todos estes casos, as CIG prolongaram-se por mais de um ou dois anos.

A anterior (e última) conferência entre governos da UE foi lançada em Outubro de 2003 e prolongou-se até Junho de 2004: tratou-se da CIG para a negociação final do Tratado Constitucional.

O processo de negociação formal do projecto de Constituição Europeia foi bastante mais complexo e demorado, mas os líderes europeus de então ainda fecharam um acordo sobre a mesma, em Roma, em Outubro de 2004.

O texto viria a conhecer uma "morte lenta" a partir da sua rejeição nos referendos realizados em Maio e Junho do ano seguinte, em França e na Holanda.

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