Tratado de proteção do alto mar atinge número mínimo de ratificações para vigorar

Tratado de proteção do alto mar atinge número mínimo de ratificações para vigorar

Ao fim de anos de espera, o tratado para proteger o mar alto vai finalmente ganhar vida no final de janeiro, depois de o número de Estados que o ratificam ter alcançado hoje os 60.

Lusa /

Muito promovido pelos defensores do oceano, o documento vai dar ao mundo um instrumento inédito que visa proteger ecossistemas marítimos vitais para a humanidade.

"Saúdo este êxito histórico para o oceano e o multilateralismo", reagiu o secretário-geral da ONU, António Guterres, em comunicado, assim que se soube das ratificações.

"Quando enfrentamos uma tripla crise planetária -- alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição -- este acordo é uma linha de vida para o oceano e a humanidade", acrescentou.

Com as ratificações de Marrocos e Serra Leoa, o tratado atingiu as 60 ratificações, após o que se começa um período de 120 dias para entrar em vigor.

Aprovado em junho de 2023, após anos de negociações, o texto visa responder às múltiplas ameaças que incidem sobre o oceano.

Com os ecossistemas marítimos ameaçados pelas alterações climáticas, pela poluição e a pesca excessiva, a ciência provou a importância de proteger todo o oceano, abundante de uma biodiversidade frequentemente microscópica, que fornece metade do oxigénio que a humanidade respira e limita o aquecimento global ao absorver parte importante do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas.

O mar alto começa onde acabam as zonas económicas exclusivas (CEE) dos Estados, a um máximo de 200 milhas náuticas (370 quilómetros) das cotas e não está sob jurisdição de qualquer Estado.

Apesar de representar mais de metade da superfície do planeta e mais de 60% do oceano, tem sido ignorada no combate de defesa do ambiente.

"A era da exploração e da destruição deve acabar" e este tratado "é o instrumento para permitir isso", congratulou-se Mads Christensen, dirigente da Greenpeace, que apelou às partes para que o tornem operacional o mais depressa possível.

O instrumento simbólico do novo tratado prevê a criação de áreas marítimas protegidas no mar alto.

Mas deve ser articulado com outras medidas que governam algumas partes do oceano, como as organizações regionais de pesca ou a Autoridade internacional dos fundos marítimos encarregada das regras de exploração mineira submarina nas águas internacionais.

Hoje, apenas cerca de um por cento do mal alto é objeto de medidas de conservação. Mas em 2022, o conjunto dos Estados comprometeu-se, durante a 15.ª Conferência das Partes (COP15) sobre biodiversidade, a proteger, até 2030, um terço da terra e do oceano do planeta.

Para o concretizar, o novo tratado é capital. Algumas das iniciativas já em curso são relativas aos preparativos da criação das primeiras áreas marítimas protegidas, como a apresentada pelo Chile, referente às montanhas submarinas de Nazca e Salas e Gomez, no Pacífico.

"Podemos ver as primeiras zonas protegidas adotadas talvez no final de 2028 ou em 2029", estimou Lisa Speer, da organização ambiental NRDC.

Os defensores do oceano querem agora convencer o maior número de países a assinar e ratificar o Tratado para o transformar em um instrumento o mais universal possível.

Mas esta perspetiva é ameaçada pela posição de duas potências marítimas: EUA e Federação Russa.

Moscovo distanciou-se do texto desde a sua aprovação, por considerar alguns elementos inaceitáveis, e Washington, que o assinou durante a Presidência de Joe Biden, não o deve ratificar durante a permanência de Donald Trump na Casa Branca

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