Trinta e três mineiros devolvidos à superfície no Chile

A cápsula “Fénix” transportou esta noite para a superfície o último dos 33 mineiros aprisionados há 69 dias numa mina de cobre e ouro do Norte do Chile. A noite havia já caído sobre o Deserto do Atacama quando Luis Urzúa, o chefe do turno apanhado a 5 de Agosto pelo colapso de 700 mil toneladas de rocha, pôde respirar o ar da liberdade e juntar-se à família. “Tivemos força e espírito”, disse o mineiro ao ser recebido pelo Presidente Sebastián Piñera.

RTP /

“Fizemos o que o mundo inteiro esperava. Tivemos força e espírito, queríamos lutar, queríamos lutar pelas nossas famílias e isso foi o mais importante”, resumiu o último mineiro a ser devolvido à superfície através de um buraco com 700 metros de profundidade e 53 centímetros de diâmetro. Às 21h55 (1h55 em Lisboa), Luis Urzúa, o líder do grupo, deixava o cativeiro para cair nos braços da mulher e da filha. Para trás ficavam quase 22 horas de sucessivas viagens de da cápsula “Fénix”.Cronologia do colapso em San José

5 de Agosto: trinta e três mineiros da mina de cobre e ouro de San José, localizada a 800 quilómetros a Norte de Santiago do Chile, ficam bloqueados após o colapso de 700 mil toneladas de rocha.

6 de Agosto: o Presidente do Chile, Sebastián Piñera, sai a público e garante que o Governo fará “tudo o que for humanamente possível” para resgatar os mineiros.

12 de Agosto: na sequência de novas deslocações de rocha no interior da mina, o Ministério da tutela admite que as probabilidades de resgatar os mineiros com vida são “fracas”.

22 de Agosto: uma sonda subterrânea depara-se com os mineiros vivos; “Estamos bem, os 33, no abrigo”, lê-se numa mensagem dos homens soterrados escrita num pedaço de papel.

23 de Agosto: os mineiros recebem, através de uma estreita conduta, os primeiros reforços de alimentos; em situação de pré-falência, a empresa San Esteban, proprietária da mina de San José, admite que pode vir a falhar o pagamento de salários aos homens aprisionados debaixo do Atacama.

25 de Agosto: as autoridades chilenas comunicam aos mineiros que as operações de salvamento podem demorar três a quatro meses; começa a troca de correio entre os operários da San Esteban e as suas famílias.

26 de Agosto: enquanto as televisões mostram as primeiras imagens dos mineiros, testemunhando a forma organizada como estão a acautelar a sua sobrevivência, a justiça chilena congela 1,8 milhões de dólares em receitas da mina, de modo a garantir futuras indemnizações.

30 de Agosto: a perfuradora “Strata 950” começa a abrir um poço de socorro com 30 centímetros de diâmetro.

4 de Setembro: um sistema de videoconferência põe os mineiros em contacto com as famílias.

5 de Setembro: início do “plano B”; uma perfuradora “T-130” começa a trabalhar.

17 de Setembro: a perfuradora “T-130” chega à galeria que abriga os mineiros; seguir-se-á o alargamento da conduta.

19 de Setembro: início do “plano C”; uma perfuradora petrolífera começa a abrir um terceiro poço com um diâmetro de 66 centímetros.

25 de Setembro: chegada de uma cápsula de resgate à mina de San José.

30 de Setembro: as famílias de 29 dos 33 mineiros interpõem na justiça um pedido de indemnização de 12 milhões de dólares contra a companhia proprietária da mina.

10 de Outubro: o poço aberto no âmbito do “plano B” é alargado para facilitar o trajecto da cápsula.

11 de Outubro: os testes de “ida e volta” da cápsula Fénix são bem sucedidos.

13 de Outubro:
Florencio Ávalos, de 31 anos, é o primeiro homem a deixar o cativeiro de San José; menos de 22 horas depois, os socorristas devolvem à superfície o último mineiro, Luis Urzúa.


À espera de Urzúa estava ainda o Presidente chileno, que acompanhou os trabalhos de salvamento desde os instantes iniciais, quando a saída do primeiro mineiro, Florencio Ávalos, captou a atenção e acendeu a esperança do Mundo. O Chile, disse Sebastián Piñera, “não é o mesmo depois disto”. E Luis Urzúa, continuou, “cumpriu o seu dever de capitão, ao ser o último”. Foi o responsável pelo turno que, entre outras medidas de sobrevivência, racionou os alimentos dos mineiros durante os primeiros 17 dias sem contacto com o exterior.

Seguiu-se a ascensão dos seis socorristas que prepararam os mineiros para o regresso à vida. Manuel González, um especialista da empresa estatal de exploração de cobre Codelco, fora o primeiro a descer. Foi também o último a sair, pondo termo a uma operação que excedeu as melhores expectativas. Na galeria que abrigou os 33 homens durante mais de dois meses, os membros da equipa de salvamento deixaram uma faixa com a frase “missão cumprida”.

“Campo Esperança”
No espaço ocupado pelas famílias dos mineiros, baptizado como “Campo Esperança”, o lançamento de 33 balões com as cores do Chile sublinhou o termo da “Operação San Lorenzo” (padroeiro dos mineiros). Em Santiago, 800 quilómetros a Sul, milhares de chilenos festejaram a libertação dos trabalhadores da mina de San José, entretanto selada.

Todos os mineiros foram transportados para um hospital da cidade de Copiapó, a 50 quilómetros de San José, onde têm por diante 48 horas de exames médicos. O ministro chileno da Saúde, Jaime Manalich, adiantou que dois dos homens vão ser submetidos a “intervenções cirúrgicas dentárias sob anestesia geral” para tratar “focos de infecções severas” Um terceiro mineiro está a receber tratamento para uma pneumonia.

Perante o sucesso inicial dos trabalhos, os responsáveis pela operação de salvamento deixaram cair todas as restrições à captura de imagens do ponto de extracção. Os mais de dois mil jornalistas, fotógrafos e operadores de imagem enviados ao Chile puderam, assim, testemunhar todos os movimentos. “Esta operação de salvamento tem sido tão maravilhosa, tão limpa, tão emocional, que não havia razão para impedir os olhos do Mundo, que têm acompanhado esta operação de uma forma tão próxima, de a verem”, declarava o Presidente chileno após a saída do primeiro mineiro, sem conter o optimismo.

“Mensagem de eficácia”
Para lá do entusiasmo, a provação do Atacama traz a lume a situação de insegurança, precariedade e ausência de regras que prevalece no dia-a-dia dos mineiros chilenos. Sobretudo daqueles que trabalham para pequenas empresas de exploração como a proprietária da mina de San José.

Na quarta-feira, pouco depois de deixar a cápsula, o mineiro Mário Sepúlveda Espina afastava-se do tom de celebração para apelar a “mudanças no mundo do trabalho, que não pode continuar como está”.

Os acontecimentos das últimas horas começam também a ser interpretados no plano político. Ouvido pela France Presse, Patrício Navia, um politólogo da Universidade Diego Portales, de Santiago do Chile, lê o sucesso de San José como “uma oportunidade para o Presidente Piñera concretizar a sua mensagem de eficácia e de boa gestão”.

Todavia, depois da “Operação San Lorenzo”, com custos estimados “entre dez a 20 milhões de dólares” (sete a 14 milhões de euros), Sebastián Piñera terá, segundo Navia, de “garantir que as suas outras missões avancem com a mesma eficácia e o mesmo sucesso do socorro”. Por outras palavras, o resgate dos mineiros “não lhe servirá de muito” se fracassar em reformas cruciais como a da saúde e a da educação.

Para já, o heroísmo dos mineiros e a entrega das equipas de socorro parecem ter devolvido ao país aquilo que Luis Urzúa descreveu como o “orgulho de viver no Chile”.
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