Mundo
Trump antevê desagregação da NATO e da União Europeia
O fim da NATO, o fim da União Europeia e um novo acordo de comércio com Londres - Donald Trump revelou em entrevista algumas ideias para o mandato na Casa Branca a escassos dias de ser empossado como 45.º Presidente dos Estados Unidos. À Europa dos 28 - em breve 27 - deixa um recado: o Brexit foi apenas o primeiro passo da desintegração da União Europeia e a razão pode estar na crise dos refugiados. Talvez também por isso, os europeus poderão vir a contar com restrições quando quiserem viajar para território norte-americano.
A ideia não é nova, Donald Trump já antes o disse e com termos, na altura, mais duros do que aqueles usados na entrevista ao Bild e ao The Times: a NATO é uma organização actualmente obsoleta. Na entrevista publicada esta segunda-feira, o presidente eleito dos Estados Unidos avisa que em breve serão muitos os países a quererem abandonar a organização.
Trump voltou ainda a censurar alguns dos membros da Aliança Atlântica por não pagarem a sua parte na defesa comum e por "se encostarem-se" aos Estados Unidos: "É suposto protegermos estes países, mas muitos deles não pagam o que deveriam".
Andreia Filipa Novo, Virgílio Matos - RTP
Numa primeira reacção a estas declarações, o secretário-geral da NATO reafirma a confiança absoluta na manutenção do empenho dos norte-americanos em relação à Aliança Atlântica. Nesse sentido, Jens Stoltenberg preferiu desvalorizar as declarações de Donald Trump.
A posição de Jens Stoltenberg vai no entanto no sentido inverso do que parece ser a forte preocupação do ministro alemão dos Negócios Estrangeiros. Frank-Walter Steinmeier admitiu já que as declarações de Trump “foram recebidas com preocupação (…) são declarações que contradizem as afirmações do responsável da Defesa dos EUA”. Steinmeir referia-se a um encontro mantido na semana passada em Washington.
Uma posição mais musculada fora já assumida em Berlim pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros. Sigmar Gabriel defendeu esta segunda-feira que a Europa tem de enfrentar as ideias de Trump: “Acredito que nós europeus não temos de cair em profunda depressão. Não subestimo o que Trump disse sobre a NATO e a UE, mas seria bom para nós ter um pouco de confiança”.
De Paris fez-se ouvir a voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Marc Ayrault, para apelar também ele à “união dos europeus como a melhor resposta” ao próximo presidente dos Estados Unidos.
Brexit foi apenas o início
Donald Trump não costuma calar o que sente, nem o que sente. E nesta entrevista a meias ao Bild e ao ex-ministro britânico Michael Gove, o presidente eleito dos Estados Unidos não perde tempo para descarregar na Alemanha de Angela Merkel, dando a ideia de que é ela a principal responsável pela opção britânica de sair da União Europeia.
“Se olharmos para a União Europeia vemos que é a Alemanha. Basicamente é um veículo para a Alemanha. Por isso acho que o Reino Unido foi tão esperto e sair”, afirmou Trump, para advertir os responsáveis da UE de novas possíveis saídas.
Apontando Londres como novo farol da Europa, o presidente acredita que “outros deixarão [a União Europeia]. Eu penso que manter a UE unida não será tão fácil como muita gente pensa”.
Já durante a campanha do Brexit, Nigel Farage e outros detratores da União Europeia contaram com o seu apoio numa saída da Grã-Bretanha. O próprio líder conservador e eurocético teve oportunidade durante esse período de viajar até aos Estados Unidos para se encontrar com Trump, que já então dava todo o apoio à saída de Londres do grupo dos 28. O ministro britânico dos Negócios Estrangeiros Boris Johnson descreveu a proposta de Trump para negociações rápidas com Londres como “boas notícias”.
Esse apoio do presidente americano mantém-se numa altura em que o Executivo britânico de Theresa May procura desesperadamente recompor uma rede de relações comerciais que sustentavam o edifício económico britânico e que deverá desaparecer assim que se der a separação dos 28. Donald Trump parece assim disposto a estender a mão desde o outro lado do atlântico e começar a trabalhar num novo acordo de comércio com Londres o maio rapidamente possível.
Entretanto, a primeira-ministra já reagiu às declarações de Trump para dizer que partilha a opinião do seu ministro das Finanças, Philip Hammond, que anunciava este domingo a abertura de Londres para analisar várias alternativas para um novo modelo comercial. Duarte Valente, RTP
“Devemos ser capazes de encontrar um acordo para permitir, sobre uma base da reciprocidade, o acesso aos nossos respetivos mercados sem a integração política que a adesão da União Europeia implica”, defendeu Philip Hammond numa entrevista ao jornal alemão Welt am Sonntag.
Questionado sobre a possibilidade de Londres se tornar num paraíso fiscal na Europa, o chefe das finanças britânicas abriu a possibilidade de a Grã-Bretanha vir a “mudar o modelo económico [para] ganhar competitividade”, se se der o caso de “não tiver acesso ao mercado europeu”.
Outra das reacções a um eventual acordo entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha chegou pela voz de Pierre Moscovici, o comissário europeu para os Assuntos Económicos.
Moscovici diz não acreditar numa conclusão rápida de um acordo entre Trump e Londres pela simples razão de que “o Reino Unido ainda é de momento um membro da União Europeia (…) a senhora May [primeira-ministra britânica] ainda não invocou o artigo 50, que aciona as negociações para a saída, e essas negociações levarão uns dois anos”.
Entretanto, "não pode haver acordo de livre comércio, que é concluído com um país membro da União Europeia desde que você sabe que é uma prerrogativa da Comissão para negociar, que a política comercial é uma política que foi transferida para a União Europeia", disse ele.
Merkel e Brexit
Donald Trump coloca em palavras e em voz alta o que muitas vezes é dito em surdina pelos europeus: a culpa do Brexit vai inteira para a chanceler Angela Merkel. Além do mais, acusa Trump, a líder alemã destruiu o equilíbrio do Velho Continente ao abrir as portas aos refugiados que chegavam do Médio Oriente e Norte de África.
“Eu acho que [Angela Merkel] cometeu um erro catastrófico ao permitir todos esses [imigrantes] ilegais… aceitar todas essas pessoas vindas sabe-se lá de onde. Ninguém sabe de onde eles vêm. As pessoas, os países, querem preservar a sua própria identidade. O Reino Unido quer a sua própria identidade. Mas eu acredito nisto: se eles não tivessem sido forçados a receber todos os refugiados, demasiados, com todos os problemas que isso implica, acho que vocês [britânicos] não se teriam decidido pelo Brexit”.
A questão dos refugiados e da imigração é muito querida a Trump, que ocupou mais de metade da sua campanha com o que disse ser um problema da fronteira sul dos Estados Unidos, o México. Muita da sua retórica eleitoral rodou á volta da construção de um muro, que tem tido os seus avanços e retrocessos.
Agora, com a inevitável desintegração que prevê para a Europa – e tendo eventualmente na sua cabeça a ideia de que serão entregues cidadanias europeias a muitos dos refugiados – , Trump acena com o reforço das restrições à entrada dos europeus em território norte-americano: “Isso pode acontecer, mas vamos ver. Quer dizer, estamos a falar de partes da Europa, partes do mundo e partes da Europa onde temos problemas, onde eles entram e causam problemas. Não quero ter esses problemas [nos Estados Unidos]”.
Kremlin desconhece acordo nuclear
Depois de ser acusado de irresponsabilidade, um ónus que lhe tem sido atirado para cima juntamente com a menção de que terá dentro de poucos dias em sua posse os códigos nucleares, Donald Trump aproveitou a entrevista ao Bild e ao The Times para estender a mão à Rússia no sentido de ser negociado um corte nos arsenais nucleares de ambos os países.
Trump propunha esse corte em troca do fim das sanções sobre Moscovo na sequência da anexação da Crimeia. A resposta do Kremlin já chegou: é muito cedo para falar.
O porta-voz russo, Dmitry Peskov, explicou que o melhor será esperar que Donald Trump assuma plenas funções antes de avançar com um possível acordo. Nesse sentido, Peskov desmentiu as notícias que davam conta de uma reunião entre Trump e Vladimir Putin, o presidente russo.
Houve no entanto um ponto em Trump conseguiu estabelecer uma ponte com Moscovo: o dossier NATO. Peskov, questionado sobre as declarações do republicano, que considerou a Aliança Atlântica “obsoleta”, respondeu que esse é um argumento que vem sendo reiterado do lado do Kremlin.
Trump voltou ainda a censurar alguns dos membros da Aliança Atlântica por não pagarem a sua parte na defesa comum e por "se encostarem-se" aos Estados Unidos: "É suposto protegermos estes países, mas muitos deles não pagam o que deveriam".
Andreia Filipa Novo, Virgílio Matos - RTP
Numa primeira reacção a estas declarações, o secretário-geral da NATO reafirma a confiança absoluta na manutenção do empenho dos norte-americanos em relação à Aliança Atlântica. Nesse sentido, Jens Stoltenberg preferiu desvalorizar as declarações de Donald Trump.
A posição de Jens Stoltenberg vai no entanto no sentido inverso do que parece ser a forte preocupação do ministro alemão dos Negócios Estrangeiros. Frank-Walter Steinmeier admitiu já que as declarações de Trump “foram recebidas com preocupação (…) são declarações que contradizem as afirmações do responsável da Defesa dos EUA”. Steinmeir referia-se a um encontro mantido na semana passada em Washington.
Uma posição mais musculada fora já assumida em Berlim pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros. Sigmar Gabriel defendeu esta segunda-feira que a Europa tem de enfrentar as ideias de Trump: “Acredito que nós europeus não temos de cair em profunda depressão. Não subestimo o que Trump disse sobre a NATO e a UE, mas seria bom para nós ter um pouco de confiança”.
De Paris fez-se ouvir a voz do ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Marc Ayrault, para apelar também ele à “união dos europeus como a melhor resposta” ao próximo presidente dos Estados Unidos.
Brexit foi apenas o início
Donald Trump não costuma calar o que sente, nem o que sente. E nesta entrevista a meias ao Bild e ao ex-ministro britânico Michael Gove, o presidente eleito dos Estados Unidos não perde tempo para descarregar na Alemanha de Angela Merkel, dando a ideia de que é ela a principal responsável pela opção britânica de sair da União Europeia.
“Se olharmos para a União Europeia vemos que é a Alemanha. Basicamente é um veículo para a Alemanha. Por isso acho que o Reino Unido foi tão esperto e sair”, afirmou Trump, para advertir os responsáveis da UE de novas possíveis saídas.
Apontando Londres como novo farol da Europa, o presidente acredita que “outros deixarão [a União Europeia]. Eu penso que manter a UE unida não será tão fácil como muita gente pensa”.
Já durante a campanha do Brexit, Nigel Farage e outros detratores da União Europeia contaram com o seu apoio numa saída da Grã-Bretanha. O próprio líder conservador e eurocético teve oportunidade durante esse período de viajar até aos Estados Unidos para se encontrar com Trump, que já então dava todo o apoio à saída de Londres do grupo dos 28. O ministro britânico dos Negócios Estrangeiros Boris Johnson descreveu a proposta de Trump para negociações rápidas com Londres como “boas notícias”.
Esse apoio do presidente americano mantém-se numa altura em que o Executivo britânico de Theresa May procura desesperadamente recompor uma rede de relações comerciais que sustentavam o edifício económico britânico e que deverá desaparecer assim que se der a separação dos 28. Donald Trump parece assim disposto a estender a mão desde o outro lado do atlântico e começar a trabalhar num novo acordo de comércio com Londres o maio rapidamente possível.
Entretanto, a primeira-ministra já reagiu às declarações de Trump para dizer que partilha a opinião do seu ministro das Finanças, Philip Hammond, que anunciava este domingo a abertura de Londres para analisar várias alternativas para um novo modelo comercial. Duarte Valente, RTP
“Devemos ser capazes de encontrar um acordo para permitir, sobre uma base da reciprocidade, o acesso aos nossos respetivos mercados sem a integração política que a adesão da União Europeia implica”, defendeu Philip Hammond numa entrevista ao jornal alemão Welt am Sonntag.
Questionado sobre a possibilidade de Londres se tornar num paraíso fiscal na Europa, o chefe das finanças britânicas abriu a possibilidade de a Grã-Bretanha vir a “mudar o modelo económico [para] ganhar competitividade”, se se der o caso de “não tiver acesso ao mercado europeu”.
Outra das reacções a um eventual acordo entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha chegou pela voz de Pierre Moscovici, o comissário europeu para os Assuntos Económicos.
Moscovici diz não acreditar numa conclusão rápida de um acordo entre Trump e Londres pela simples razão de que “o Reino Unido ainda é de momento um membro da União Europeia (…) a senhora May [primeira-ministra britânica] ainda não invocou o artigo 50, que aciona as negociações para a saída, e essas negociações levarão uns dois anos”.
Entretanto, "não pode haver acordo de livre comércio, que é concluído com um país membro da União Europeia desde que você sabe que é uma prerrogativa da Comissão para negociar, que a política comercial é uma política que foi transferida para a União Europeia", disse ele.
Merkel e Brexit
Donald Trump coloca em palavras e em voz alta o que muitas vezes é dito em surdina pelos europeus: a culpa do Brexit vai inteira para a chanceler Angela Merkel. Além do mais, acusa Trump, a líder alemã destruiu o equilíbrio do Velho Continente ao abrir as portas aos refugiados que chegavam do Médio Oriente e Norte de África.
“Eu acho que [Angela Merkel] cometeu um erro catastrófico ao permitir todos esses [imigrantes] ilegais… aceitar todas essas pessoas vindas sabe-se lá de onde. Ninguém sabe de onde eles vêm. As pessoas, os países, querem preservar a sua própria identidade. O Reino Unido quer a sua própria identidade. Mas eu acredito nisto: se eles não tivessem sido forçados a receber todos os refugiados, demasiados, com todos os problemas que isso implica, acho que vocês [britânicos] não se teriam decidido pelo Brexit”.
A questão dos refugiados e da imigração é muito querida a Trump, que ocupou mais de metade da sua campanha com o que disse ser um problema da fronteira sul dos Estados Unidos, o México. Muita da sua retórica eleitoral rodou á volta da construção de um muro, que tem tido os seus avanços e retrocessos.
Agora, com a inevitável desintegração que prevê para a Europa – e tendo eventualmente na sua cabeça a ideia de que serão entregues cidadanias europeias a muitos dos refugiados – , Trump acena com o reforço das restrições à entrada dos europeus em território norte-americano: “Isso pode acontecer, mas vamos ver. Quer dizer, estamos a falar de partes da Europa, partes do mundo e partes da Europa onde temos problemas, onde eles entram e causam problemas. Não quero ter esses problemas [nos Estados Unidos]”.
Kremlin desconhece acordo nuclear
Depois de ser acusado de irresponsabilidade, um ónus que lhe tem sido atirado para cima juntamente com a menção de que terá dentro de poucos dias em sua posse os códigos nucleares, Donald Trump aproveitou a entrevista ao Bild e ao The Times para estender a mão à Rússia no sentido de ser negociado um corte nos arsenais nucleares de ambos os países.
Trump propunha esse corte em troca do fim das sanções sobre Moscovo na sequência da anexação da Crimeia. A resposta do Kremlin já chegou: é muito cedo para falar.
O porta-voz russo, Dmitry Peskov, explicou que o melhor será esperar que Donald Trump assuma plenas funções antes de avançar com um possível acordo. Nesse sentido, Peskov desmentiu as notícias que davam conta de uma reunião entre Trump e Vladimir Putin, o presidente russo.
Houve no entanto um ponto em Trump conseguiu estabelecer uma ponte com Moscovo: o dossier NATO. Peskov, questionado sobre as declarações do republicano, que considerou a Aliança Atlântica “obsoleta”, respondeu que esse é um argumento que vem sendo reiterado do lado do Kremlin.